Lygia Fagundes Telles

Arte: Gabriela Loss
Vestibular | O universo intimista em Lygia Fagundes Telles

“– Não quero ser rude, mãezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental. Olha aí a crueldade máxima, a mãe fica se preocupando se o filho ou filha é ou não homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcétera, mas com o sexo do próximo? Cuide do próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro. Lorena chama de zona sul.”

Trecho do livro As meninas

Em As meninas, Lygia Fagundes Telles rompe com a produção predominante de personagens femininas caricatas, limitadas a desejos fúteis, referidas como loucas e postas à margem da história. Ela dá vida a três protagonistas: Lorena, Lia e Ana Clara. Dos personagens masculinos, o leitor pouco toma conhecimento; não de forma que estejam completamente excluídos da obra, mas por ocuparem um papel de coadjuvantes na narrativa.

Conhecida como a dama da literatura brasileira, Lygia passou a compor a lista de leituras obrigatórias do vestibular da UFRGS. Segundo Cristiane Alves, pós-doutoranda pelo Instituto de Letras e professora de Literatura Brasileira, o romance As meninas traz um novo fôlego para o conjunto de obras selecionadas pela banca. “A inclusão desse livro no vestibular da UFRGS dá visibilidade a uma importante obra do cenário literário nacional, de uma autora viva e celebrada, reforçando o lugar das mulheres na literatura brasileira.”

Para Nathielle Nogueira, graduanda em Letras na UFRGS, o livro traz um olhar crítico que problematiza a condição feminina da época retratada. “As meninas, além de registrar um contexto sócio-histórico, também dá um testemunho das possibilidades de ser mulher naquele momento”, pontua. A vida da autora pode ter tido uma contribuição significativa para a construção da perspectiva literária no romance: Lygia foi estudante de Direito, numa época em que o curso era frequentado majoritariamente por homens. Ela ocupava uma das seis cadeiras que tinham mulheres matriculadas; em contrapartida, havia mais de 100 homens compondo a mesma classe.

Com a publicação da obra em 1973, em pleno período da ditadura civil-militar brasileira, a escritora demonstra coragem – não apenas por contextualizar o regime, mas também por denunciar os métodos de tortura utilizados pelo governo à época. Lygia diz que o livro só passou pelo órgão de controle da ditadura porque o responsável pela análise da obra desistiu da leitura antes de chegar aos pontos de crítica ao regime.

Mesmo tendo sido escrito há quase cinco décadas, o romance aborda temáticas que, ainda hoje, são consideradas tabu, como drogas, liberdade sexual da mulher, aborto, abuso infantil e homossexualismo. Cristiane opina que, ao tratar desses temas, Lygia escrevia não só para além do seu tempo, como também do nosso. “Apesar de algumas conquistas, a liberdade, a existência, os direitos, os lugares e os papéis das mulheres seguem sendo postos em dúvida e, não raro, são alvo de ameaças e ataques nos mais diversos estratos”, observa.

Fluxo de consciência

No ano seguinte à publicação, a obra arrebatou um prêmio Jabuti, o mais tradicional troféu da literatura brasileira. A cerimônia reconheceu o estilo certeiro de Lygia ao mergulhar o leitor no universo intimista. A autora constrói sua narrativa a partir da ferramenta de fluxo de consciência, ou seja, as três protagonistas fazem uso da narração em primeira pessoa, alternando suas falas, pensamentos e opiniões.

A escolha pela forma narrativa com várias vozes auxilia na percepção das diferentes personalidades das meninas. Lorena, oriunda de uma família rica e tradicional, expressa-se de modo mais culto e formal quando está em sua posição de fala. Lia usa uma linguagem mais coloquial para expressar suas ideias políticas e revolucionárias. Ana Clara, que lida com seu vício em drogas, por vezes se expressa por pensamentos e manifestações confusos e embaralhados – absorvendo o leitor para seu pequeno mundo caótico e alucinado.

Nem sempre a composição dos fatos decorre de forma linear, mas a partir da introspecção das personagens em suas próprias vivências. “As três personagens fazem uma narração que retoma o passado por meio da memória, o que, por sua vez, lhes confere certa liberdade para narrar os fatos do modo como desejarem. A obra, portanto, traz uma pluralidade de olhares, o que nos permite compreender diferentes formas de se relacionar com uma mesma realidade”, comenta Nathielle.

A pós-doutoranda pondera que, na análise da obra, é indispensável atentar para o contexto histórico, político e social em que se situa. “É importante, ao longo da leitura, identificar as características e as histórias de cada uma das personagens, descobrir quem narra cada um dos capítulos ou trechos’’, diz Cristiane. “Os leitores podem fazer ligações entre a repressão e os tabus dos anos 1970, examinando o que mudou e o que permanece. É possível analisar o discurso atual, especialmente quando se volta para as mulheres, verificando o quanto ainda conserva de preconceitos e moralismos”, conclui.

Mélani Ruppenthal

Estudante de Jornalismo da UFRGS