Maicon da Rosa: a luta por uma Universidade Popular

Câmpus do Vale | Estudante do curso de Ciências Sociais expõe sua experiência na UFRGS, marcada pelas atividades acadêmicas diversificadas e pela militância

*Foto: Maicon da Rosa a partir de sugestão de Flávio-Dutra/JU

Maicon Diego da Rosa estampa em quase todos os momentos um sorriso em seu rosto. Com seu cabelo afro e um rosto jovial que em nada denuncia seus 26 anos, o estudante de Ciências Sociais fala em um ritmo tão rápido quanto sua rotina: atualmente tem 3 bolsas estudantis, constrói seu diretório acadêmico, milita e estuda. A conversa é marcada por risos e rastros de seu nervosismo crônico que em momento algum enevoa a eloquência: parecia estarmos em uma aula que, em momentos, se misturava com o retrato da realidade de um professor mestre no diálogo da prática e da teoria. 

“Como comecei?”, solta em meio a uma risada nervosa. De acordo com Maicon, o início de sua jornada na UFRGS não foi fácil. “Eu tinha uma ideia limitada pela minha realidade de que ENEM é coisa de playboy.” Assim que saiu do ensino médio, ingressou no mercado de trabalho como estoquista. Vendo na loja que trabalhava o preço das mercadorias mudar radicalmente ao entrarem e saírem, teve duas epifanias: seu salário era uma mixaria, e ele precisava urgentemente arranjar um emprego em que não precisasse levantar peso. 

Maicon conta que a UFRGS sempre foi a sua “menina dos olhos”, porém sua experiência fez com que se constituísse uma relação de amor e ódio com a universidade. Considerou Administração, Economia e até chegou a cursar Relações Públicas. Fala que não se sentiu acolhido no ambiente da Fabico e comenta: “Hoje eu sei o nome disso”.  

Após uma cadeira de sociologia que iluminou seus olhos, fez um processo de transferência interna para as Ciências Sociais. Como na sua primeira experiência como novato, não teve a chance de ter uma recepção apropriada, graças aos atrasos na sua documentação de cotista, mas ficou maravilhado quando seus colegas de curso fizeram uma recepção para apenas dois alunos recém-chegados. 

De acordo com Maicon, a melhor bagagem que carrega de seu atual percurso pelo curso de Ciências Sociais é a capacidade de autonomia intelectual. A visão crítica da realidade proporcionada pelo curso traz impactos em sua vida que vão muito além das paredes da academia. 

“Pra mim, enquanto sujeito, o debate sociológico precisa fazer sentido também fora da sala de aula. Eu estudo ao mesmo tempo em que atuo. Acho que o currículo tem muito a melhorar, tem muita literatura europeia. Tem pouco Lélia Gonzalez, Milton Santos… Os autores que eu citei, inclusive, foram pessoas que eu procurei fora do curso, mas foi o curso que me proporcionou autonomia intelectual para pesquisar sobre eles” 

Maicon Diego da Rosa

O estudante reflete sobre os critérios de “praticidade” colocados quando se questiona a importância de cursos como Ciências Sociais e Filosofia. Lembra das políticas [para educação] recentes que propunham retirar do currículo da educação básica essas matérias.

“Essas disciplinas dão a possibilidade de o sujeito debater sobre seu contexto. Por isso eu defendo muito as Ciências Sociais. São áreas do conhecimento que não podem ser utilitárias; é o que possibilita criar a partir disso. Dá o instrumental para olhar pra realidade e tomar uma atitude mais autônoma sobre a sua vida, e sobre a vida da sociedade como um todo.”

Ele lembra ainda da frase de um amigo seu que afirma que os departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia são cemitérios. Afinal, diz, nada de novo sai de lá, as mudanças ocorrem nas praças e nas ruas. Maicon, porém, acrescenta: “Como todo cemitério, é um espaço sagrado. E precisa ser defendido. E eu acho que, pros alunos que são anticoloniais, a ideia é colocar os mortos pra dançar a dança da realidade concreta que estão vivendo. Dançar com nossos ancestrais e ver o que a gente tira pra mudar esse mundão aí em que estamos vivendo”.

Aplicando a teoria na prática 

Maicon participa de três projetos acadêmicos diferentes. Primeiramente, é bolsista no Programa de Educação Tutorial (PET) de Ciências Humanas, um espaço em que os estudantes promovem cursos e debates com o público de fora da Universidade. O PET tem passado por um período de não recebimento de verbas para pagar as bolsas. Mesma situação do PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Docente), por onde Maicon também já passou: “Eu também fui ‘pibidiano’, foi ali que eu me encontrei enquanto licenciatura. Quero ser pesquisador também, mas professor nunca vou deixar de ser. Foi incrível a experiência; mesmo com as contradições do mundo, a gente se encanta com a possibilidade de transformação que a educação tem”. 

A segunda atividade é o programa de extensão Movimentos Sociais e Serviço Social, que atua junto a cursinhos populares. Além disso, Maicon também é bolsista voluntário no Núcleo de Sociedades Indígenas e Tradicionais da Antropologia.

Além de compor o centro acadêmico, que descreve como “um instrumento de ação dos estudantes”, Maicon propõe a alteração da realidade pela sua militância fora da UFRGS: participa do PCB (Partido Comunista Brasileiro) de Viamão e constrói o Coletivo Negro Minervino de Oliveira. Por meio dessas organizações, contribui ativamente na promoção de formações em escolas públicas, no fortalecimento de ações em territórios originários e quilombolas e, atualmente, na luta contra um projeto que busca implementar um lixão na cidade.

É nesse contexto que Maicon reitera a importância das diversas lutas que compõem o dia da Consciência Negra. 

“O 20 de novembro foi feito em contraposição ao 13 de maio, que comemora a abolição da escravatura pela Princesa Isabel. O Movimento Negro disse: ‘A gente tem que ser independente dessa data’; num movimento de subversão, e buscou a data de morte de Zumbi”

Maicon Diego da Rosa

O estudante explica, ainda, que o que podemos chamar de primeira república no território hoje denominado Brasil é justamente o Quilombo de Palmares. “Foi o primeiro espaço de oxigenação da violência colonial.” Composto não apenas por pessoas negras, o território foi um espaço que abrigava diversos outros cidadãos que fugiam das amarras coloniais: mulheres viúvas, militares escapando do serviço militar obrigatório, pessoas que fugiam do fisco e assim por diante.

“Na América, em geral”, lembra Maicon, “não se pode separar salário e raça. Raça é uma forma de controle das pessoas e salário é uma forma de controle do trabalho. A implosão da raça, assim como a implosão da sociedade de classes, é uma tarefa universal de todos nós. Pessoas negras e indígenas acabam falando mais sobre raça justamente por imposição. Genocídio, fome, desemprego, falta de saúde pública, isso também são desdobramentos do racismo. O dia 20 de novembro sela que a emancipação política deve estar atrelada à emancipação humana.” 

Ao relembrar seus dias na Universidade, onde passava a maior parte de seu tempo, Maicon invoca memórias dos momentos nos salões de iniciação científica e no Portas Abertas, falando com alegria sobre como incentivava seus (futuros) colegas: “A gente sempre tenta passar a ideia de que não é um lugar estranho. É um lugar deles. Tudo que está lá são produções de que eles podem se apropriar”. 

Entre lembranças da linha D43, dos cafezinhos e do xerox, no fim de mais um de seus caminhos está sua maior saudade da UFRGS: poder lutar, presencialmente, por uma universidade popular. “Para que um dia sejamos socialmente iguais e humanamente diferentes”, declara Maicon, citando as palavras de Rosa Luxemburgo, autora que o jovem menciona apenas pelo primeiro nome, como se fossem amigos íntimos.