Manter a rotina de treinos é uma das principais dificuldades dos atletas durante a pandemia

Esporte | Falta de perspectiva sobre a volta das competições e dificuldade de adaptar os treinamentos para evitar a transmissão do coronavírus abalam motivação dos esportistas

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Para quem treinava de cinco a sete horas por dia na reta final para a classificação olímpica, como a nadadora Viviane Jungblut, ter que suspender os treinos impacta muito. “O nosso esporte tem uma dificuldade extra, que é o contato com a água. A gente perde a sensibilidade muito rápido. Às vezes ficamos três dias sem nadar e já voltamos muito diferentes”, conta Viviane, que pegou emprestado do Grêmio Náutico União, clube onde treina, um equipamento que simula a braçada do nado – ela enfatiza, porém, que não chega nem perto da sensação de treinar na piscina. A isso, a nadadora acrescenta outras dificuldades: “Junta um pouco com a ansiedade de querer voltar logo e não saber o que vai acontecer no outro dia. A gente acaba compensando na alimentação. Então esse foi um cuidado que eu tive que redobrar, bem como a parte psicológica”. 

Por conta da pandemia de covid-19, os Jogos Olímpicos de Verão tiveram sua data alterada pela quarta vez na história. As três anteriores, em 1916, 1940 e 1944, foram cancelamentos em consequência das duas guerras mundiais. “No início, estávamos ansiosos porque não sabíamos o que aconteceria com a olimpíada e com a seletiva olímpica”, relata Viviane. Quando os jogos e a seletiva foram adiados, ambos para o mesmo período no ano que vem, o preparador físico da nadadora mandou planilhas de treino para que ela treinasse a parte física em casa, aproveitando para compensar em alguns exercícios em que tinha mais dificuldade para que, quando voltasse aos treinos, gradualmente, não acontecesse nenhuma lesão grave. “A carga de exercício, por mais que eu faça todo dia, é muito menor do que a que eu fazia normalmente, então meu gasto calórico também ficou menor”, conta.

Viviane Jungblut cai na água ao menos duas vezes por dia, com treinos que tomam em média duas a três horas, nadando cerca de 80 quilômetros por semana. Promessa olímpica, as provas que prefere disputar são as longas, sendo que atualmente treina principalmente para 800 e 1500m livres (Fotos: Flávio Dutra/JU)

Em ressonância com a maior competição esportiva do mundo, outros campeonatos esportivos foram adiados ou cancelados. No judô paralímpico brasileiro, por exemplo, não existem competições de pequena escala: pessoas cegas e com baixa visão teriam a primeira oportunidade de participar de um campeonato no Grand Prix Internacional ou Grand Prix de Judô Paralímpico, de modo que esses torneios são fundamentais para os atletas.

Para o judoca Anderson Wassian, que conquistou o quinto lugar no Parapan de Lima em 2019, a pandemia chegou no momento em que ele se recuperou de uma lesão no ombro que o impediu de treinar por três meses. Convocado para a seleção brasileira de judô paralímpico nos últimos quatro anos, ele estava se preparando para competições decisivas que foram suspensas com a pandemia. “Neste ano eu tinha a expectativa de me dedicar bastante. Essa competição [cancelada] em São Paulo era bastante importante porque treinadores da seleção estavam lá observando, e isso poderia significar uma ida minha às competições classificatórias para a paralimpíada”, conta.

Agora, ele treina em casa, mas é difícil manter a mesma periodicidade. Seu irmão, que é graduando em Educação Física, transmite os exercícios que o treinador orienta. As adaptações são muitas: uma meia simula o deslize do tatame, uma barra feita com cimento por ele e o irmão ajudam na musculação, outro irmão usa o kimono de Anderson para que ele possa treinar alguns golpes contra um oponente.

Mesmo com todo o esforço, o Anderson ressalta que não é a mesma coisa. Uma vez por semana ele participa das aulas por vídeo com os colegas da equipe fazendo o uchikomi, um treino tradicional do judô que consiste na repetição de alguns golpes, e o “treino sombra”, realizado pelo atleta sozinho. Apesar das dificuldades, o judoca segue se dedicando, com a esperança de colher o resultado no futuro: “No final, tudo isso vai ser o diferencial quando chegar uma competição. Talvez esse possa ser um ponto positivo pra mim”.

Anderson Wassin, 20, é atleta do judô desde 2014. Começou a perder a visão ainda criança, por conta da síndrome de Stevens-Johnson. Ainda que com a visão muito reduzida, conseguiu concluir sua formação em escolas regulares e agora pretende cursar Educação Física (Fotos: Flávio Dutra/JU)

Além das dificuldades técnicas inerentes a qualquer atividade presencial que tenha sido adaptada a plataformas digitais, como o domínio da tecnologia e o acesso à internet, a equipe paralímpica de judô da ACERGS/UFRGS, ligada ao projeto de extensão Bugre Lucena e formada apenas por pessoas cegas e com baixa visão, enfrenta alguns percalços adicionais, segundo o treinador Gustavo Schumacher. 

“Eu gosto muito de ver a realidade de um deficiente visual para se comportar. Cada vez que a gente os coloca em uma situação diferente, nos surpreendem, mas a gente também tem uma noção das novas dificuldades que eles enfrentam.”

Gustavo Schumacher

Ele exemplifica: “Quando eles estão com o celular na mão, eles têm um controle muito grande, porque sabem manejar o celular muito bem. Só que quando eles fazem o exercício, eles têm que largar o celular em algum ponto e, no momento em que eles perdem o contato manual com o celular, eles perdem um pouco da noção de onde ele está. Essa foi uma novidade em termos de dificuldade que nós encontramos”.

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O treinador ressalta que a pandemia é um momento difícil para os atletas se manterem motivados para treinar, sobretudo os iniciantes e amadores. Por isso, ele tenta manter o grupo engajado, motivando a equipe a treinar em casa. Desde a suspensão das atividades presenciais pela Universidade, em março, os professores do projeto encaminham exercícios em vídeo para que os alunos os façam a distância. 

Mas nem só os atletas menos experientes se sentem desmotivados. Crissia Castro, que já foi a maior pivô do estado e ganhou inúmeros campeonatos de basquete, participa do time de basquete feminino do clube Caixeiros Viajantes. Ela, que também é professora de educação física da rede estadual, conta que agora não tem mais a mesma disposição para treinar com regularidade. Antes da pandemia, a jogadora fazia musculação, corria e jogava basquete semanalmente. Sua equipe estava se preparando para vários campeonatos, mas agora participam apenas de uma copa virtual. “Dá quase mais trabalho do que jogar basquete”, ironiza, ressaltando que, na quadra, o jogo tem uma duração específica, já na disputa virtual a dedicação acontece o dia inteiro.

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Professora de Educação Física na rede pública do estado, Críssia Castro joga basquete desde criança. Alta, atua como pivô: “é a função que mais ‘apanha’ em quadra, porque tá sempre perto da cesta. Mas a gente aprende a se defender”, conta, se divertindo. Com os tendões dos pés lesionados, pensa em se tornar técnica (Fotos: Flávio Dutra/JU)

No Grêmio Náutico União, clube no qual Viviane é associada, a volta aos treinos está acontecendo de maneira gradual, segundo o protocolo de segurança da entidade. 

“O mais importante é realmente redobrar a atenção e os cuidados já que, ao sair de casa, estamos colocando em risco não apenas nós mesmos, mas também nossas famílias, as pessoas que estão em contato com a gente.”

Viviane Jungblut

Na piscina, numa raia que antes era dividida por quatro ou cinco pessoas, nada apenas uma. Esses cuidados têm uma dupla função: prevenir a proliferação do coronavírus e evitar que, após meses sem treinar da mesma forma, os atletas se lesionem. “Agora, sem previsão de competição, não adianta querer dar 100%. Tem que voltar a construir, tijolinho por tijolinho, para chegar ao objetivo”, Viviane comenta.

“Estamos tentando, dentro da segurança, aproveitar a oportunidade de estar conseguindo treinar porque, pela situação que o Brasil está enfrentando, são pouquíssimas as equipes que estão treinando”, completa. Apesar disso, Viviane reitera a importância de não se descuidar com a prevenção ao vírus. A nadadora é ciente de que mais importantes do que lutar pela sua classificatória nas Olimpíadas são os cuidados para que esses esforços não sejam em vão.