Marcelo Rubens Paiva

Arte: Rochele Zandavalli
Vestibular | O depoimento de uma geração em Marcelo Rubens Paiva

“Que loucura, o que está acontecendo? Eu aqui, deitado, sem poder me mexer. Essas pessoas que nunca tinha visto antes, esse lugar, o que é tudo isto afinal? A única certeza que tenho é de que estou vivo e muito lúcido. Consigo me lembrar perfeitamente do acidente, do meu passado, de tudo, enfim. Minha cabeça está a mil por hora, e eu aqui paralisado: não poderia ter acontecido algo tão sério assim, será?”

Trecho do livro Feliz Ano Velho

É com a transparência e a confiança de quem conta a um grande amigo seus mais íntimos segredos que Marcelo Rubens Paiva detém, desde a primeira página, a atenção do leitor de Feliz Ano Velho. Publicado em dezembro de 1982, quando o autor tinha apenas 23 anos, o livro foi um dos mais vendidos da década, tornando-se um marco na literatura brasileira contemporânea. Este ano, passou a integrar a lista de leituras obrigatórias do vestibular da UFRGS, ao lado de outras 11 obras que representam diferentes períodos e gêneros literários.

A narrativa, tão pulsante quanto é a juventude, traz a verdadeira história do autor, que, aos 20 anos, subitamente se vê em uma situação inimaginável: após pular de uma pedra em uma lagoa rasa, bate a cabeça, esfacelando uma vértebra e perdendo os movimentos do corpo. As intermináveis horas no hospital o levam a revisitar o passado, revelando experiências pessoais que se mesclam a acontecimentos marcantes na história do país. Para Antônio Sanseverino, professor do Programa de Pós-Graduação (PPG) em Letras da UFRGS, a obra é uma autobiografia e também o testemunho de uma geração.

Antônio aponta para o entrelaçamento de diferentes aspectos ao longo do livro. “Tem o fio pessoal, de superação do acidente em que ele fica tetraplégico e da independência que ele ganha a partir disso, mas tem coisas que cruzam com o fio geracional, como o Arrigo Barnabé [compositor], o primeiro festival da TV Cultura, o Premeditando o Breque [banda], que era bem importante. Isso acaba dando uma confluência e um destaque muito fortes para a obra, porque ela não fica só no quadro da superação do acidente, ela se expande”, explica.

Relato de juventude

Outra característica comumente ressaltada é o forte teor sexual presente nos relatos que, com muita franqueza, o autor faz sobre seus relacionamentos. O professor Homero Vizeu Araújo, também integrante do PPG em Letras da Universidade, frisa a repercussão que isso teve à época. “Ler isso em 1983, que foi quando eu li, era impressionante, pela qualidade da prosa, a capacidade que ele [o autor] tem de se inserir, uma certa segurança quanto a isso. Contar como é a vida sexual, naquele momento, de forma tão aberta, libertária, e ao mesmo tempo tensionada pela tragédia que se abate sobre ele, é muito impactante”, comenta.

Antônio observa que o distanciamento do autor do seu cotidiano, por causa do acidente, possibilita uma dimensão reflexiva. “Ele passa a olhar para as coisas que fazia de outro ângulo. A experiência de morte é um ponto de reflexão que não é comum aos 20 anos. Ter a consciência do limite físico e da mortalidade, saber que o que se tem não é um futuro completamente aberto. E acho que a história é essa mesmo: uma vida que se transforma radicalmente pelo acidente. Ele tem que produzir sentido em algo que é por acaso, que ele não escolheu, que não é culpa dele”, sintetiza.

Memória da repressão

Para Homero, Feliz Ano Velho surge em um momento de avaliação da ditadura militar. O período, que se iniciou em 31 de março de 1964, com o golpe que derrubou o governo do então presidente democraticamente eleito João Goulart, e durou quase duas décadas, tinha um forte caráter autoritário, marcado por perseguições políticas, censura e tortura. No livro, o regime militar fica evidente no relato do que pode ser considerado o primeiro grande trauma da vida de Marcelo: o sequestro do pai. Levado por militares de dentro da própria casa em janeiro de 1971, o deputado Rubens Beyrodt Paiva nunca mais voltou.

“Acho que essa dimensão política é algo que ele quis trazer à tona, porque a atuação política da família é forte”, avalia Antônio. Segundo o docente, a possibilidade de o autor dar esse depoimento e ser escutado, sem ser censurado, é muito significativa. “A quebra da censura lhe permite falar do próprio pai, falar do que o episódio da sua prisão e desaparecimento representou não só pessoalmente, para ele e para a família, mas também politicamente.”

Homero salienta, ainda, o fato de que, no ano do aniversário de 55 anos do golpe, é fundamental a presença de Feliz Ano Velho na lista de leituras obrigatórias. O professor acredita ser essencial que, neste momento, as memórias dos tempos da ditadura sejam retomadas: às vésperas do dia 31 de março, o presidente da República determinou que a data fosse celebrada em unidades militares “Estamos falando de negação da história, de apagar a memória e eventualmente humilhar e chamar de bandido quem resistiu à ditadura. É grotesco”, critica.

Olhar de Repórter

Falar sobre Feliz Ano Velho foi um desafio: voltar aos anos 1980 – onde nunca estive – e pensar a cultura, a política, os costumes daquela geração, exigiu muito mais do que uma rápida leitura. É claro que Marcelo Rubens Paiva muito facilitou o meu trabalho: com certeza, o melhor desta pauta foi lê-lo. No entanto, ir além de suas páginas, pensá-lo junto a quem viveu a época, como o professor Homero, ou quem recém o havia revisitado, como o professor Antônio, tornou a experiência muito mais interessante. Das magias da literatura: seus inúmeros significados, os ricos encontros que proporciona.

Natalia Henkin

Estudante de Jornalismo da UFRGS