Márcio Bolzan: inspiração e mágica

Câmpus Centro | Estudante de Música destaca a história e o ambiente do Instituto de Artes e fala sobre sua prática artística e as estratégias para driblar as limitações da pandemia

*Foto de capa: Márcio Bolzan, sugerida por Flávio Dutra

Quando se friccionam as cordas no braço de madeira, o contrabaixo acústico produz um som grave que preenche a atmosfera de um lugar: é assim que se expressa Márcio Bolzan, bacharelando em Música pela UFRGS, um devoto do instrumento desde 2014. A forma serena, ao mesmo tempo eloquente e temperada, na qual discorre sobre sua atuação artística condiz com as roupagens que o músico desenvolve em suas performances que borram as linhas entre o erudito e o popular. Márcio teve seu primeiro contato com a Universidade em cursos de extensão no Instituto de Artes, quando conheceu o professor Alexandre Ritter, docente com vasta experiência como músico de orquestra e pesquisador do campo. Após anos de estudo, Márcio ingressou como aluno de graduação, aproximando seu talento inato para a exploração da linguagem musical com a instrução acadêmica.

A mais recente empreitada do contrabaixista de 29 anos envolve a experimentação audiovisual. Em seu perfil no Instagram, Bolzan se desdobra em vários para criar música em conjunto de uma maneira a não ferir os protocolos sanitários em vigência desde o início da emergência da covid-19 – um pequeno truque de edição que sobrepõe, em uma mesma imagem, diferentes excertos reproduzidos pelo artista. Para o Repertórios da Quarentena, projeto da Rádio da Universidade, Márcio multiplicou-se para compor um quarteto de contrabaixos constituído apenas por si próprio: “Fica algo meio cômico, meio lúdico, eu gostei. Pelo menos a gente consegue fazer um quarteto de contrabaixos sem precisar juntar pessoas, sem precisar aglomerar”, diz ao se referir à performance de seus “quatro gêmeos” de um trecho da obra Ária, de Radamés Gnattali, notório compositor e pianista porto-alegrense.

De barbas fartas que contrastam com a silhueta miúda do rosto, Márcio preza pelos prazeres singelos de uma vida melódica: gosta de caminhar pelas ruas do Centro entre os câmpus da Universidade, frequenta concertos no Salão de Atos, participa de festivais da cidade. Ademais, o músico é mais formiga do que cigarra, dividindo-se em diversas atividades extraclasse, como aulas de instrumento, gravações, gigs de jazz e apresentações de orquestra, tudo para gerar uma renda confortável quando se trata de pagar as contas com a arte. “Cada um desses momentos requer um conjunto de habilidades diferentes, as quais temos que aperfeiçoar para poder executar um trabalho de qualidade. Então, seja dentro da Universidade ou fora, estamos sempre envolvidos com música a qualquer dia e hora”, reflete sobre o labor da carreira artística. 

A harmonia dos dissonantes

O prédio rosado de oito andares na rua Senhor dos Passos carrega uma aura mítica. É ali que estudantes aprendem a articular sua vocação artística, competência que costuma se manifestar pelas paredes e corredores do centenário Instituto de Artes. O espaço, outrora habitado por vários artistas de relevância histórica, é um dos xodós de Márcio Bolzan. Os sonidos que vazam das salas de ensaio são a trilha sonora de sua experiência universitária.

“O Instituto de Artes tem uma mágica, né? Tanta gente importante que passou por lá, sejam os professores, sejam os músicos, compositores. Isso passa uma mágica pra gente e passa um pouco de inspiração para todos os alunos que passam por ali”

Márcio Bolzan

O destino do estudante de sétimo semestre, todavia, aponta como uma bússola para o norte. Márcio foi um dos aprovados no concurso público para contrabaixo de fila na Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, em Belém, no Pará. Foram meses de preparação, ensaios e estudos dos excertos que fariam parte da audição. Hoje em vias de graduar-se, o músico destaca o currículo do curso como um dos fatores que o permitiu alçar voos aos palcos mais ornamentados do país: “No curso de contrabaixo, a gente tem um enfoque muito grande em excertos de orquestra, e isso faz com que a gente acabe conhecendo muitos trechos que vão cair em concurso, por mais que no início, quando a gente entra na universidade, a gente toque aquele excerto sem entender muito bem como as coisas funcionam”, salienta, mencionando também o amparo dos professores no processo de aprendizado.

Ainda há uma pendência de Márcio com suas raízes gaúchas: o Recital de Graduação, o trabalho de conclusão de curso do bacharelado em Música. O Auditório Tasso Correa, uma das mais tradicionais salas de música do Rio Grande do Sul, é o local em que o contrabaixista pretende dedilhar seus últimos arranjos como membro da UFRGS. “Acho que a gente como aluno da UFRGS não consegue pensar em outro lugar pra fazer um recital do que o Tasso Correa, onde nós tivemos aulas de música de câmara e fizemos concerto com a prática de orquestra. Eu acho que é um lugar muito legal do qual com certeza eu sentirei muita falta”, ressalta em um tom saudosista costumeiro às despedidas. 

Foto: Márcio Bolzan/ Arquivo Pessoal
Virar-se para dentro: o silêncio pandêmico

De repente, a música parou. Os ruídos se calaram, as palmas pararam de ressoar. A pandemia do novo coronavírus impactou vigorosamente aqueles que faziam da performance artística o seu ganha-pão. “Quando começou essa história da pandemia, eu pensei assim: ‘E agora, o que eu vou fazer? Como é que eu vou trabalhar?'”, recorda Márcio, enquanto salienta o apoio da comunidade acadêmica aos seus desassossegos. “Nisso a própria UFRGS ajuda, a gente conversa com os professores e os professores falam ‘pois é, são momentos que a gente tem que trabalhar, tem que viver, tem que repensar'”. O caráter prático das aulas da graduação em Música teve de ser refeito aos moldes do ensino remoto. A energia do “ao vivo” foi substituída pela apresentação em vídeo, o que ofereceu aos estudantes um segundo momento de avaliação da própria performance. 

Quando inquirido sobre as mudanças que o período pandêmico provocou em sua relação com a arte, Bolzan explica: “Pra mim, foi um momento de literalmente virar pra dentro e pensar na arte, no que eu quero fazer na arte, qual produto que eu quero passar para as pessoas, como é que eu quero me expressar para as pessoas”. O confinamento serviu para promover um instante de introspecção no qual, longe do frenesi cotidiano, o artista pode repensar o que antes era automatismo: “Me desenvolvi tanto tecnicamente quanto musicalmente, sabe, de conseguir me expressar melhor com o instrumento, de conseguir trabalhar melhor minhas dificuldades – que eu tenho com o estudo – e, além do estudo específico do instrumento, de conseguir criar materiais”.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: