Maria Firmina dos Reis

Arte: Luan Dresch
Vestibular | Representatividade negra em Maria Firmina dos Reis

“Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras.”

Trecho do romance Úrsula

“Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor.” É assim que Maria Firmina dos Reis abre o romance Úrsula, que data de 1859. Nascida na ilha de São Luís, no Maranhão, no ano de 1825, a autora é pioneira ou até mesmo revolucionária em diversos aspectos, não só na literatura brasileira, como na vida em sociedade da época. Foi a primeira mulher a ser aprovada em concurso público para o cargo de professora do primário. Mais ainda: era mulher, e mulher negra, em um período marcado pelo regime escravocrata e pelo paternalismo. Sustentava-se sozinha, tinha espaço nos jornais da época com seus escritos e publicou o romance que é uma das leituras obrigatórias da UFRGS desde 2019.

Com tanto protagonismo e história, por que então Maria Firmina dos Reis é tão pouco estudada na literatura, principalmente dentro das escolas, e fica de fora do cânone? Ademais, o que poderia significar esse prefácio que denomina a própria obra como “mesquinha”? – ainda que, no prosseguimento da abertura, Maria Firmina expresse a intenção de “dar a lume” o romance independentemente do “indiferentismo glacial de uns” e do “riso mofador de outros”.

Resgate

A professora Régia Agostinho, do Departamento de História da Universidade Federal do Maranhão, relata o esquecimento da escritora após sua morte, ainda que reconhecida por figuras do período em seu estado. A relativa “perda” da obra de Maria Firmina é um dos fatores que contribui para o seu desconhecimento no país. “Em 1975, Nascimento de Moraes Filho e Horácio de Almeida, o qual encontra Úrsula num sebo do Rio de Janeiro em 1962, preparam uma edição fac-similar. Em sua pesquisa descobrem que uma maranhense – como estava assinado no livro – era Maria Firmina dos Reis. A partir desse período, ela retorna para os estudos acadêmicos para ter a merecida notoriedade”, conta a docente.

De acordo com Régia, a permanência em solo maranhense pode ser outro motivo para que Maria Firmina não tivesse maior alcance: “Escritores como Gonçalves Dias e Castro Alves, ambos nordestinos, mudaram-se para os grandes centros: São Paulo e Rio de Janeiro”, complementa a professora. Ela aponta, também, o fato de a escritora ser mulher e negra – algo que Roberta Flores Pedroso, mestra em Literatura pela UFRGS, afirma ser o principal motivo para o seu apagamento por todo esse tempo. Para ela, é também o que norteia a interpretação do prefácio. “Não tem como não levar em consideração a vida dela: é uma mulher fora daquele século. Sua capacidade intelectual ultrapassa o comum da literatura daquele momento, que consistia em apenas apresentar um prólogo. No prefácio, para mim, há uma forte ironia”, declara Roberta. É provável, seguindo esse raciocínio, que abrir Úrsula dessa maneira fosse um subterfúgio linguístico de sofisticada ironia para quem conhecia muito bem seu espaço e seus leitores.

À frente de seu tempo

Os registros dos jornais do Maranhão evidenciam a presença da obra, com congratulações à mulher por tê-la escrito, porém sem análise consistente; há, portanto, certo distanciamento por parte do círculo masculino de literatos.

Algemira Mendes, professora na Universidade Estadual do Piauí e doutora em Letras pela PUCRS, entende o romance como “um contraponto ao que era escrito na época, aos modelos de romantismo até então”. Ainda que tenha a presença da religiosidade e do nacionalismo, desprende-se do tradicional final feliz. “O livro é romântico pelo fio condutor, do folhetinesco entre Úrsula e Tancredo, mas com uma nova proposta de término da trama. Há quem diga que seria um romance gótico, mas é discutível”, analisa Algemira.

A professora tematiza a forma como Maria Firmina dá voz ao negro – diferente de obras consideradas abolicionistas, como Navio Negreiro, de Castro Alves. Está em discussão, inclusive, se o romance Úrsula seria escravista ou abolicionista. Já Roberta Pedroso diz que, independentemente de algumas questões técnicas, como a classificação do romance – gótico, romântico ou realista –, importante é que, hoje, “Úrsula tem leitores. E leitores negros”. “Maria Firmina traz as rememorações da mãe Susana e do pai Antero, que vieram direto da África, nessa figura do griô, que é o personagem sábio de mais idade. Essas personagens, somando-se a Túlio, em minha opinião, são as verdadeiras protagonistas do romance”, afirma.

Úrsula mostra-se uma obra de humanização do escravizado. Roberta ressalta a “autonomia das personagens negras no sentido de falarem suas experiências sem o intermédio de um narrador”, numa época em que os leitores eram majoritariamente brancos.


*Texto originalmente publicado na Edição 214 (Julho 2018) e na Edição Especial de Leituras Obrigatórias de 2018 (Novembro).

Ricardo Santos

Estudante de Jornalismo