Maria Flávia: integração e coletivo

Câmpus do Vale | Estudante de Engenharia da Computação relembra sua rotina recheada de alegrias

*Foto: Flávio Dutra/JU

Integração é uma das palavras que definem a história de Maria Flávia Tondo na UFRGS. A estudante de Engenharia de Computação costumava acordar às 6h da manhã para ir ao Câmpus do Vale e lá passava o dia inteiro, se dividindo entre estudar, participar de empresa júnior, fazer monitoria, bolsa de extensão e dar aula no Colégio Aplicação.

Natural de Osório, o Câmpus do Vale é seu xodó. Lá ela sente o mesmo aconchego de quando ia ao Morro da Borússia, na sua cidade natal. “Quando começou o curso, fui pra Porto Alegre e fiquei na minha tia. E era muito bom tu sair da cidade e ir pro Vale, parecia que era um respiro, um lugar mágico. Porque tu saía da cidade grande e tinha esse refúgio”, explica. Para ela, que voltava de um intercâmbio quando começou a quarentena, foi um baque não conseguir retornar ao lugar que lhe deu tantas alegrias.

Sua maior saudade? Os pequenos problemas do dia a dia ou aquilo que achava que eram problemas.

“Enfrentar a fila do RU, pegar o ônibus… Sempre que eu pegava o ônibus, encontrava algum colega e ia conversar. Fiz amigos na fila do RU. Acho que são muitos detalhes que fazem a diferença no presencial, me fazem sentir muita saudade da UFRGS”

Maria Flávia Tondo
Trajetória

Maria Flávia teve uma caminhada inusitada até chegar à Engenharia da Computação. Quando pequena, sonhava em fazer Arquitetura, porém na época de escola começou um curso técnico em informática que despertou seu desejo por fazer programação. No final do ensino médio entrou num dilema: seguir seu sonho de criança ou se juntar aos amigos na computação?

No ano do vestibular, receosa pela nota, escolheu cursar Engenharia Metalúrgica por um semestre, onde fez amizades que duram até hoje. No semestre seguinte, pediu transferência interna e, finalmente, foi para a computação. “Eu sempre quis a UFRGS e fiquei muito feliz quando passei. Estar na Engenharia da Computação não é tão fácil quanto achei que seria, mas tá sendo legal a experiência”, conta. 

Como todo estudante que sai do ensino médio e entra na faculdade, Maria Flávia estava confusa com as dinâmicas do ensino superior. “Na primeira aula, que era de cálculo, eu quase bati na porta pra perguntar pro professor se eu podia entrar. Entrei e tinha uns 60 alunos. Sentei lá no fundo e só fiquei olhando aquele quadro cheio de coisas. Não estava entendendo nada. Daí pensei: ‘Nossa, será que isso vai ser a faculdade por 5 anos?'”, lembra ela, que já encontrou a resposta: é mais ou menos isso. 

Desconfiada de como seria o ambiente de Ensino Remoto Emergencial (ERE), a estudante decidiu fazer apenas uma cadeira em 2020. Ela brinca que, apesar de estudar computação, não se considera muito tecnológica. Então, no ano passado, acabou usando a pequena experiência que teve no ERE para se organizar para o semestre 2020/2.

“Quando começou a quarentena, eu consegui dar uma relaxada e pensar: ‘Vamos voltar com calma, eu não preciso abraçar o mundo’. E tem essa questão de tu respeitar tua a saúde mental. É muito importante para conseguir concluir o curso”

Maria Flávia Tondo
Coletivo

Dentre as diversas atividades que fazia, participar do grupo Program.ada – coletivo formado por alunas dos cursos de Engenharia e Ciência da Computação – foi a mais realizadora. A iniciativa foi criada no final de 2016, partindo da percepção de que, por haver poucas meninas nos cursos de computação, precisavam se unir para conversar sobre determinadas questões. Nesse sentido, uma das primeiras ações do grupo foi realizar uma pesquisa de opinião, perguntando: “Você considera o Instituto de Informática machista? Mas você se considera machista?”. O resultado a que elas chegaram foi de que a maioria achava que havia machismo no Instituto, mas que essa mesma maioria não pensava ser machista. “Onde tá esse problema?”, questiona Maria Flávia.

A pesquisa foi apresentada na Semana Acadêmica da Informática. Ela conta que o grupo recebeu diversos comentários anônimos muito pesados e que isso chegou até a emocionar alguns professores. Após essa ação, o Program.ada foi chamado pra ajudar nas escolhas dos professores para formar uma comissão de relacionamento. “Agora a gente tem essa comissão onde os alunos podem se sentir mais à vontade para denunciar algum caso que tenha ocorrido com eles. Não só mulheres, pode ser qualquer aluno. A comissão é pra relacionamento mesmo. Então acho que foi uma das vitórias que como grupo a gente conseguiu.”

Na visão da estudante, um dos momentos mais gratificantes do Program.ada foi quando participaram do Portas Abertas. Ela conta que várias meninas falaram que o coletivo ajudou a se sentirem seguras para escolher a área da computação, porque, graças ao grupo, vão ser acolhidas. “A gente também tenta criar essa rede dentro do próprio Instituto, porque acontece às vezes de tu ser a única menina da turma. Criar essa rede de apoio, portanto, é um dos pequenos passos que vão mudar o cenário.”


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: