Matheus Almeida: de quase militar ao IFCH

Perfil | Estudante de História relata experiências adquiridas durante a época de colégio militar até a aprovação – em dois anos seguidos – para o curso do IFCH

*Foto: Rochele Zandavalli/Secom

Do quase ingresso na carreira militar à participação em projetos voltados às questões sociais, é assim que pode ser brevemente definida a mudança pela qual Matheus Almeida passou nos últimos anos. Desde 2019 na UFRGS, o estudante de História, constantemente ocupado em função de aulas, trabalho e participação em coletivos, não esconde a vontade de voltar a ter aulas presenciais no Câmpus do Vale.

“Eu gosto de estar no ambiente de sala de aula, eu gosto de ver o professor escrevendo no quadro. Isso me facilita”

Matheus Almeida

Filho de pai militar, Matheus estudou do sexto ano do Ensino Fundamental até o terceiro ano do Ensino Médio em colégio militar de Porto Alegre. Ele conta que teve uma experiência muito proveitosa durante esses anos ao conhecer pessoas de outros estados com perfis das mais diferentes realidades Brasil afora. Além disso, reconhece que o ensino recebido na instituição teve papel importante para a aprovação no vestibular da UFRGS por dois anos consecutivos.

Em 2017, quando estava no último ano de colégio, Matheus passou na UFRGS, mas não chegou a iniciar o curso. Ainda no mesmo ano, pensou em seguir a carreira militar e chegou a fazer cursinho para entrar na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, fez a prova da AMAN, mas acabou não sendo chamado. Ao mesmo tempo, prestou novamente vestibular na UFRGS, foi aprovado e, dessa vez, não hesitou. “Vida de militar não era para mim, vou seguir dando aula.”

Antes acostumado com a disciplina e a postura que fazem parte da carreira militar, o estudante, hoje com cabelo descolorido e barba por fazer, percebe que à época anterior ao ingresso na Universidade, quando não tinha muito contato com a política, o cenário era mais complicado, ainda que naquele período não tivesse essa percepção. Mesmo assim, lembra com carinho dos anos de Colégio Militar.

Foram os melhores anos da minha vida. Ao mesmo tempo que a gente tinha professores muito mais abertos a vários tipos de debates, a gente tinha aqueles professores que eram mais conservadores. Até aula de química virava debate político.

Matheus Almeida

Sempre de bom humor, ele revela que resolveu cursar História por dois motivos: o primeiro, como geralmente ocorre, foi porque sempre gostou da disciplina e tinha facilidade com ela. O outro, um tanto curioso, envolve um professor do Ensino Médio. “No terceiro ano do Ensino Médio, eu estava em recuperação em Física. O meu professor de História, que era o coordenador dos professores, costumava ‘pegar no pé’ de quem estava em recuperação. Ele falou para mim que não adiantava eu passar na UFRGS e reprovar em Física porque não poderia entrar na faculdade. Então eu fui lá e passei nos dois”, brinca.

Ainda em 2017, prestes a se formar no Ensino Médio, o discente participou de um seminário com uma professora no Colégio Militar e depois fez uma palestra com ela sobre ‘as mulheres no samba’. Pesquisar sobre o tema mostrou a Matheus que o que ele queria era seguir na licenciatura.

ERE, pandemia e projetos sociais

A exemplo dos demais estudantes, Matheus teve sua rotina alterada com o início da pandemia de covid-19. Durante dois semestres, o estudante frequentou o Câmpus do Vale, época que relembra com evidente saudade durante sua fala no quarto onde hoje realiza suas atividades virtualmente.

Matheus cita que no Ensino Remoto Emergencial (ERE) as aulas se diferenciaram daquelas outrora lecionadas presencialmente. Um dos aspectos com que ele já tivera experiência antes de entrar na Universidade foi o contato com o Moodle, visto que no Colégio Militar essa plataforma também era utilizada para atividades educacionais.

Virou outra universidade a partir daquele momento [de ERE], não era mais aquela que a gente tinha. No ERE é só o texto e o professor falando. Tem vezes que a gente quer participar da aula, mas a aula foi gravada. Em outras vezes, a internet cai.

Matheus Almeida

Além da faculdade e do trabalho, é acrescida à rotina do estudante de 22 anos a participação em diversos projetos sociais, nos quais atua desde a sua entrada na UFRGS. Entre eles, estão o Coletivo Alicerce e a Frente Quilombola, bem como o Projeto Negro e Popular, em que os militantes se direcionam às escolas e mostram a realidade do Brasil e a situação do povo negro, explicando, por exemplo, conceitos como o ‘racismo estrutural’ aos alunos.

Durante a pandemia, ele menciona que percebeu de perto a situação do Quilombo dos Machado, situado na zona norte de Porto Alegre. Constantemente sofrendo especulação imobiliária, a comunidade convive por vezes com a falta de insumos básicos, como a falta de luz, de água e de vacinas contra o coronavírus, no momento de que mais se necessita. Como bom quase-historiador que é, Matheus alia as referências lidas durante a faculdade à vivência nos projetos nos quais participa. “É a realidade da pandemia: quem não tem dinheiro tem que sair para trabalhar. E faltou vacina, então a gente reforçou muito [com o pessoal do Quilombo] que, na verdade, a gente não estava pedindo favor para ninguém, a gente estava apenas cobrando nossos direitos.”