Medidas procuram minimizar dificuldades de estudantes durante isolamento social

Inclusão | Plano de assistência extraordinário e mapeamento de alunos cotistas são ações que buscam colaborar para a criação de ambiente mais adequado a ensino remoto emergencial

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Há 13 anos, Anderson Rodrigo Antunes mora no bairro São João, na zona norte de Porto Alegre. Ele é aluno do curso de bacharelado em Filosofia da UFRGS e, assim como é comum ocorrer a muitos estudantes, não consegue precisar exatamente em que semestre está, mas à pergunta responde: sétima etapa. Aos 35 anos de idade, ele mora sozinho, e seu filho, Dionísio, de 15 anos, vive em Tramandaí. Ambos se visitam de vez em quando, ainda que agora menos em função do isolamento social. 

Em março, assim que as aulas foram suspensas em virtude da pandemia, um de seus professores tentou dar sequência aos conteúdos de sua disciplina enviando por e-mail textos e questionários para serem respondidos e devolvidos pelos alunos via correio eletrônico. Depois propôs um encontro virtual às sextas-feiras pela manhã, mas a proposta não foi adiante. No caso de Anderson, como segue trabalhando alguns dias pela manhã, não seria possível participar desses encontros virtuais, até porque o curso de Filosofia tem suas aulas nos turnos tarde e noite. Outro impedimento seria a questão do acesso à internet, pois, como não tem o serviço em sua casa, teria que usar a internet de dados de seu celular. 

Assim como Anderson, estima-se que um grande número de alunos da UFRGS não tenha infraestrutura suficiente para participar de forma adequada de um modelo de ensino remoto emergencial para o qual a Universidade vem se organizando. Nesse sentido, a Pró-reitoria de Assistência Estudantil (PRAE) e a Coordenadoria de Acompanhamento do Programa de Ações Afirmativas (CAF) têm buscado alternativas no âmbito tanto de assistência quanto de apoio acadêmico para possibilitar que os estudantes possam acessar suas disciplinas de maneira remota e serem atendidos pelos setores de apoio ao aluno. 

Anderson Rodrigo Antunes é aluno do curso de bacharelado em Filosofia da UFRGS, ele mora no bairro São João e ainda não tem internet em casa onde vive sozinho. Ele diz que vai se inscrever nos editais extraordinários da PRAE para aquisição de tablet e auxílio inclusão digital (Foto: Flávio Dutra/JU)
Plano de Assistência estudantil extraordinário 

De 13 a 20 de julho, os alunos participantes do Programa de Benefícios da Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) poderão solicitar o auxílio de R$ 360,00 (parcela única) para aquisição de tablet ou assemelhados. Essa iniciativa faz parte do plano de assistência estudantil extraordinário destinado a alunos de graduação em situação de vulnerabilidade, lançado na última sexta-feira, dia 19. A iniciativa disponibiliza ainda auxílio emergencial para alimentação de 300 reais mensais por um período de três meses prorrogáveis por mais três meses. Pelo mesmo período, esse grupo de estudantes poderá solicitar ainda o auxílio Inclusão Digital, no valor de 70 reais mensais, para viabilizar seu acesso à internet. As adaptações do Programa de Benefícios são extraordinárias e transitórias e estão detalhadas em portaria publicada no site da PRAE.

Os estudantes que não são beneficiários PRAE, mas que ingressaram na Universidade como cotistas de renda (modalidades L1, L2, L9 e L10), poderão solicitar o auxílio emergencial de 200 reais mensais por três meses prorrogáveis por mais três meses. O período de solicitação desse benefício começa na próxima segunda-feira, dia 29 de junho, e vai até o dia 9 de julho, conforme edital também disponível no site da PRAE. Para esse auxílio, há um limite de atendimento de mil estudantes, que é o total que o orçamento comporta. O plano antecipa as demais estratégias para a retomada das atividades da graduação que estão sendo elaboradas na Universidade, visando à implantação do ensino remoto emergencial, e que serão apreciadas pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE). 

Segundo Suzi Camey, pró-reitora de Assuntos Estudantis, serão mantidos os demais benefícios disponibilizados pela PRAE: auxílio material de ensino para estudantes que não optarem pelo auxílio emergencial Inclusão Digital (tablet); auxílio moradia; auxílio alimentação final de semana para moradores das casas ou quem recebe auxílio moradia temporário; distribuição das quentinhas para os moradores das casas do estudante; auxílio creche; auxílio saúde; e o programa de bolsas PRAE. 

Quando Anderson soube dos novos editais da PRAE, ficou entusiasmado, pois em seu caso pode acessar os diferentes benefícios. 

“Esses valores estão adequados e chegam em boa hora”

Anderson Rodrigo Antunes

Mas reconhece que, para seu curso, não é necessário ter equipamentos mais potentes, pois “só usamos para ler, escrever. Pra nós é suficiente um tablet e internet”. Por outro lado, o estudante de Filosofia reclama de não ter encontrado em seu aplicativo de compras o app do Tua Ufrgs para baixar e, quando foi ao site do aplicativo no portal da UFRGS, encontrou poucas informações: “São vários processos pra gente chegar aos locais certos e fazer os pedidos”, justifica. 

Em Porto Alegre desde 2018, há um semestre Gabriel Candido é aluno de Ciências Contábeis e morador da Casa do Estudante localizada no Câmpus Agronomia. Diferentemente do curso de Anderson, para as atividades demandadas em Ciências Contábeis, Gabriel diz que um tablet para ele precisaria no mínimo de uma configuração de 500 gigas de HD e 4 gigas de memória RAM. Mas como ele tem seu computador, esse não é o problema. O que atualmente mais preocupa o morador da casa é a dificuldade de manter uma conexão mais prolongada, como exige o ensino remoto. 

Mapeamento revela concentração de cotistas no centro de Porto Alegre

Conforme o mapeamento de localização dos alunos cotistas divulgado na semana passada, aproximadamente 50% dos estudantes dessa modalidade da UFRGS residem nos bairros do Centro Histórico. “A ideia de que os cotistas estão num bairro distante não se comprova”, comenta a professora Denise Jardim, coordenadora do estudo. Segundo ela, a periferia é outra coisa: um lugar desequipado de serviços, no qual muitas vezes sequer chega o serviço de internet. “Na verdade, não é uma carência das pessoas, é o abandono do poder público e também o desinteresse de empresas de estender wi-fi de qualidade para alguns bairros”, argumenta.

De acordo com o levantamento que foi gerado a partir do registro de matrícula do portal do aluno, dos 22.523 alunos matriculados este ano na graduação, 9.270 são ingressantes por reserva de vagas com vínculo ativo. Desses, 5.519 residem em Porto Alegre e 3.751 moram em outras cidades dentro e fora do estado. Denise afirma que esse é o primeiro mapa gerado pela equipe interdisciplinar composta por servidores da própria Coordenadoria de Ações Afirmativas em parceria com a Secretaria de Educação a Distância (Sead), a Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (Prae), as comissões de graduação, docentes, e também com o apoio acadêmico dos estudantes do Centro Estudantil da Escola de Engenharia e do Diretório Acadêmico da Faculdade de Farmácia. Os envolvidos irão atuar em conjunto em diferentes etapas, sendo a primeira correspondente à mobilização discente para a atualização de dados no Portal do Aluno.

Bairros em que os estudantes cotistas de Porto Alegre se encontram (Imagem: Ações afirmativas/UFRGS)

Quanto a estudantes que se encontram na região metropolitana e no interior do estado, de acordo com extração no portal do aluno, temos 3.751 estudantes que residem fora da região de Porto Alegre. Destes, 3.645 residem nos demais municípios da região metropolitana e em outros municípios gaúchos. Temos também 106 estudantes cadastrados como residentes fora do estado do Rio Grande do Sul. Primeiramente, sobre os estudantes que se encontram em municípios da região metropolitana ou no interior do estado, contamos com um cenário de 197 municípios. 

Estudantes que moram fora do município de Porto Alegre (Imagem: Ações afirmativas/UFRS)

Denise salienta que essa foi a primeira etapa do trabalho, pois o estudo pretende gerar outros mapeamentos. “Ele foi só o início de muitas perguntas que estamos consolidando para uma localização por regiões para coincidir com a ação institucional.” Uma das metas do georreferenciamento dos estudantes é criar uma rede de parceiros nos bairros, especialmente em de associações de bairro, onde os estudantes tenham um local com internet e equipamento para acompanhar o ensino remoto. Segundo a professora, os próximos mapas deverão contemplar ainda os beneficiários PRAE e os alunos indígenas. Nesse sentido, ela reconhece que existem muitas dificuldades. “Nossa principal dificuldade é o mapeamento dos indígenas sobre o lugar em que estão na pandemia”, acentua. 

Para quem vive nas comunidades indígenas

Marcos Vesolosoquzki é aluno do curso de Direito. A previsão é concluir o TCC no segundo semestre deste ano, independentemente do coronavírus. Desde março, quando começou o isolamento social, ele retornou à casa de sua família na Terra Indígena de Nonoai, na região norte do estado. Por duas vezes na semana, quando abrem as portas da escola da aldeia, ele tem a alternativa de fazer suas atividades acadêmicas fora de casa, onde precisa disputar o fraco sinal de internet à rádio com mais seis pessoas, os pais e quatro irmãos. “O sinal aqui é bem complicado, e é assim em todas as comunidades indígenas. Por ser interior, não tem infraestrutura instalada”, acrescenta.

Assim como ele, quase a totalidade dos estudantes indígenas regressou para suas comunidades. Entre Nonoai e duas outras terras próximas, Guari e Votouro, retornaram cerca de 15 estudantes indígenas da UFRGS. Todos respeitam o isolamento social imposto pelo coronavírus, e, por isso, Marcos diz que seguem em contato apenas via whatsapp, buscando manterem-se informados tanto sobre o que está acontecendo em suas aldeias quanto sobre o que está sendo discutido na Universidade. Embora a grande maioria desses estudantes esteja concentrada no interior do estado, existem aqueles que vêm de localidades mais longínquas, como os estados de Pernambuco e Amazonas, e esses também voltaram para suas comunidades. 

“A gente está tentando, dentro dessa realidade, fazer parte desse modelo de ensino remoto, mas a questão vai muito mais além dessas dificuldades de estrutura” 

Marcos Vesolosoquzki

Já perto de se formar, Marcos garante que, para o estudante indígena, é fundamental o acompanhamento pedagógico – aspecto que considera ser um dos grandes desafios no ensino remoto, uma vez que já o é para o ensino presencial. Quanto a procurar nas cidades próximas um local onde possam dispor de computadores e sinal de internet para as aulas e estudos de ensino remoto, Marcos acredita ser improvável. “É um dilema muito grande e antigo as relações entre indígenas e não indígenas. Dificilmente vão aceitar nossa presença nas cidades”, justifica. Para ele, a soma desses fatores pode contribuir para a evasão dos estudantes indígenas que, segundo ele, já é bem grande. “A perda do vínculo (com a universidade), a falta de acompanhamento, não sei como vão se dar.”

Beneficiário PRAE, Marcos, quando está em Porto Alegre, mora na casa do Estudante CEU, no Câmpus Centro. Logo que iniciou a quarentena, o professor de uma das duas disciplinas eletivas nas quais ele está matriculado perguntou à turma o que achavam de continuarem as aulas no sistema EAD. Embora a maioria tivesse condições estruturais para adotar a ideia, acabaram não levando adiante. “Já havia um grande abismo, para estudantes indígenas, negros e de cotas sociais, imagina agora. É um desafio para todos nós pensar um modelo de ensino remoto que contemple a todos”, diz.