Mesmo com baixo custo e eficiência comprovada, invenções encontram barreiras para chegar ao mercado

Inovação | Inventos esbarram no desconhecimento da indústria sobre o conhecimento inovador gerado na Universidade e na falta de habilidades de negociação por parte dos pesquisadores. Iniciativas da UFRGS procuram melhorar a conexão entre academia e setor fabril

O desenvolvimento de conhecimentos e de soluções para problemas reais não parou na Universidade durante a pandemia do coronavírus. Entre as invenções que surgiram nos últimos dois anos, estão um ventilador pulmonar de uso hospitalar e um ultrafreezer para armazenar vacinas a 150 graus negativos. Além da pandemia, a UFRGS segue atenta a outras problemáticas sociais: um exemplo disso é o sistema de tratamento de água à base de luz solar desenvolvido por pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Microbiologia Agrícola e do Ambiente.

Essas invenções possuem características em comum: têm baixo custo inicial, eficiência testada e comprovada, manutenção e uso simplificado. Elas, entretanto, ainda não conseguiram espaço no mercado, ou seja, esses produtos não viraram nota fiscal. Entre as barreiras encontradas para a inserção de produtos e serviços no mercado está a falta de cultura de setores da indústria em reconhecer o conhecimento da universidade como gerador de economia e transformação de realidades sociais. Outra questão é a necessidade de os representantes da academia dominarem mais a habilidade de negociação.

Uma espécie de antessala para a inovação acessar a porta do mercado é o setor de propriedade intelectual. A concessão de patente acontece quando um conhecimento é considerado uma atividade inventiva, nova e capaz ser aplicada na indústria – em resumo, na hora em que se dá o confronto da pesquisa com a realidade do mundo. Conforme o chefe do Setor de Propriedade Intelectual da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico (Sedetec) da UFRGS, Felipe Brandão, o número de concessões de patentes saltou de 15, em 2018, para 55, em 2021, no Brasil.

É preciso, no entanto, levar em conta o projeto de combate ao Backlog estabelecido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com base nas resoluções n.º 240/19 e 241/19, que visavam à redução do número de pedidos de patente de invenção com exames pendentes de decisão no período de dois anos. “Esse movimento acelerou a análise dos pedidos depositados no INPI, o que levou ao maior número de patentes concedidas, ou seja, de pedidos transformados em patentes de fato. Claro, se foram concedidas, isso se deve, principalmente, ao mérito dos resultados de pesquisa protegidos e à gestão e manutenção desses pedidos junto ao INPI por parte da Sedetec”, explica Brandão.

Na porta de entrada dessa antessala, o movimento de depósitos de patentes caiu quase na mesma proporção no período. Em 2018, foram 46 pedidos de propriedade intelectual no país; já em 2021,14. Felipe Brandão entende que o movimento nos pedidos de depósitos e concessão de patentes pode ser um termômetro para verificar o grau de produção do conhecimento e da sua aplicação na solução de demandas reais, embora não seja obrigatório ter registro no INPI para uma inovação estar no mercado. “Vai depender do tipo de patente, do tipo de produto, do mercado, de quem vai investir na comercialização. Tem indústrias que não vão dar um passo sem a patente ou sem a possibilidade de fazer esse depósito de patente. Outras vão preferir manter o segredo industrial, por entenderem que a patente atrapalha o negócio”, acrescenta.

“No geral, podemos afirmar que a fase da patente é um passo antes de entrar para o comércio, desde que compreendamos que ainda tem chão pela frente e que, para algumas tecnologias, pode não ser o melhor caminho”

Felipe Brandão

Para que um projeto de inovação dê certo e tenha aproveitamento no mercado, não há uma resposta única nem existe uma ciência exata, pontua o coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Engenharia Criativa (Gepec), José Alberto Azambuja. Conforme o professor, que coordenou a criação do ventilador pulmonar de baixo custo, pode-se falar de inovações tecnológicas e, nesse caso, algumas premissas são fundamentais: elas precisam ser atendidas num processo de concepção, desenvolvimento e difusão da solução tecnológica no mercado.

Elaborado a partir de dados da Sedetec, gráfico apresenta a quantidade de pedidos de depósitos de patentes (como são chamadas as patentes antes da concessão) apresentados nos últimos 20 anos por pesquisadores da UFRGS. Os pedidos de 2022 ainda estão em andamento e, por esse motivo, não constam do gráfico

Entre as premissas citadas pelo pesquisador está a importância de a invenção tecnológica trazer benefício perceptível a quem vai adquiri-la, no sentido de as vantagens suportarem os custos de aquisição, operação, manutenção e – eventualmente – descarte do produto. A segunda é a disponibilização da solução para difusão. Nesta etapa, se ela não tiver uma ação mercadológica eficiente, as chances de sucesso são limitadas, porque ninguém pode comprar uma coisa que não está disponível. O terceiro item fundamental é a viabilidade financeira do projeto.

“Muitas iniciativas boas não se viabilizam por falta de suporte financeiro para cumprir todas as fases, da ideia à distribuição no mercado, considerando-se também o tempo para a conquista do mercado. Nesse sentido, a universidade tem uma atuação limitada. Ela pode ir da concepção à realização física de uma ideia, mas não consegue transformar uma invenção em uma inovação. Para isso, ela precisa de parceiros que se interessem pela invenção – ou até mesmo pela ideia inicial – e a desenvolvam até a disponibilização do produto no mercado”

José Alberto Azambuja
Equipamento com benefícios perceptíveis e disponíveis para uso, mas sem incorporação no mercado

Em abril de 2020, quando Azambuja assistia às notícias vindas da Itália sobre a falta de ventiladores para pacientes com covid-19, surgiu a ideia de desenvolver um ventilador pulmonar, que recebeu o nome de Ventila. “Percebendo aquela situação, propus-me a desenvolver um ventilador de baixo custo que pudesse mitigar o impacto da pandemia aqui no Brasil. Reuni o meu grupo de pesquisa e falei da proposta. Todos apoiaram e aderiram na mesma hora. Depois agregamos outros professores e profissionais de fora da UFRGS para capacitar nosso grupo em áreas em que não tínhamos expertise”, lembra o professor.

Nas orientações para a produção do Ventila, todas as peças já deveriam estar fabricadas em grandes volumes e nas prateleiras, nada poderia ser fabricado sob encomenda; a funcionalidade do ventilador deveria ser a mesma de um [produto] comercial moderno; ele deveria ter um custo significativamente menor que dos ventiladores comerciais; a manutenção não deveria exigir mão de obra ou componentes muito sofisticados. Como tudo foi contemplado no projeto, o ventilador se diferencia, enfim, daqueles encontrados no mercado.

O equipamento foi avaliado e testado em hospitais, mas, a partir desse ponto, era necessário encontrar uma empresa privada que se interessasse em desenvolver a invenção para produção comercial. “Entramos em contato com várias empresas, porém, ainda não encontramos um parceiro para esse desenvolvimento. O próximo passo, então, é justamente a produção do aparelho em escala industrial para ser usado no tratamento de pacientes em hospitais”, constata Azambuja.

O custo inicial de desenvolvimento do protótipo foi coberto com uma parceria entre UFRGS e Ministério da Educação, complementada com doações de pessoas físicas e jurídicas. O total consumido pelo projeto, nessa etapa, foi de R$ 133 mil. Em 2021, o grupo participou de outro projeto em rede com PUCRS, Unisinos e Feevale para desenvolver os componentes de ventiladores pulmonares. “Neste momento, desenvolvemos um protótipo de um sensor de oxigênio e de um misturador de gases para o nosso ventilador pulmonar. O custo foi de R$ 35 mil”, ressalta. Mesmo sendo seguro, mais barato – cada ventilador custa em torno de R$ 20 mil, enquanto comercializados no mercado podem custar até R$ 150 mil a unidade –, de fácil montagem e manutenção, até o momento não há parceiros comerciais.

Destino parecido aconteceu com a geladeira portátil capaz de armazenar vacinas em baixas temperaturas desenvolvida pelos pesquisadores do Instituto de Física da UFRGS. O projeto começou no final de novembro de 2020, e o primeiro protótipo já ficou pronto no início de fevereiro de 2021. “O freezer consiste em uma garrafa térmica criogênica (superisolada termicamente), onde é inserido nitrogênio líquido. A esta garrafa fica acoplada uma câmara de vacinas, que usa o nitrogênio líquido para se manter fria: em temperaturas de 150 graus negativos por dois a três dias; temperaturas de 80 graus negativos por cinco a sete dias; e em 25 graus negativos por até 15 dias. No protótipo que criamos aqui poderíamos armazenar cerca de 1,5 mil doses de vacina”, detalha o professor adjunto do Instituto de Física Milton André Tumelero, um dos responsáveis pela iniciativa.

O invento é capaz de agilizar acima da média a difusão da vacinação contra covid-19 por ser portátil, usar insumos com ampla disponibilidade no Brasil (como o nitrogênio líquido) e oferecer diferentes controles de temperatura das vacinas. Outra vantagem é o custo, estimado em R$ 500 a 800 para a câmara de vacinas e em R$3 mil a R$ 5 mil para a garrafa térmica criogênica. Essas vantagens, no entanto, não foram suficientes para a invenção encontrar interessados na iniciativa privada. Tumelero avalia que, entre as razões do ultrafreezer não ter se efetivado no mercado, estão a demora da imunização contra a covid-19 e atenuações das condições de manutenção das vacinas, o que tornou o protótipo menos necessário para a imunização.

Apesar das dificuldades de transformar as invenções em inovações, José Alberto Azambuja afirma que o desenvolvimento do respirador comprovou dois pontos: primeiro, que a UFRGS tem capacidade de criar soluções tecnológicas mais sofisticadas, contando com recursos humanos de alta qualificação. Segundo, que a Universidade precisa se integrar de modo efetivo às forças atuantes na sociedade se quiser ter sucesso em seus esforços de desenvolvimento de novas tecnologias que beneficiem a todos.

“Outras universidades, em todo o mundo, já vêm operando sofisticados e poderosos sistemas de integração de seus esforços com os da sociedade. São esses sistemas que permitem que as universidades possam contribuir de modo ainda mais efetivo para o desenvolvimento social”

José Alberto Azambuja

A falta de uma cultura do setor produtivo brasileiro de enxergar o conhecimento como principal ferramenta de desenvolvimento econômico e de transformação social atrapalha a implementação de inovações, aponta Felipe Brandão. Segundo ele, grande parte da pesquisa e das invenções são realizadas nas universidades públicas e muitas empresas privadas – com exceção das áreas farmacêutica e agroindustrial – sequer têm estrutura e recursos humanos para fazer um intercâmbio qualificado entre a universidade e o mercado.

“A maioria se limita a dizer que o setor público é burocrático e demorado, como se no outro lado não fosse necessário cumprir legislações e princípios éticos para apresentar um serviço ou produto qualificado à sociedade”

Felipe Brandão
Tratamento de água com raios solares

Outro invento desenvolvido na UFRGS não é uma solução diretamente aplicada na saúde, mas pode resolver a causa de muitas doenças que vêm da falta de água tratada para consumo, como dengue, cólera, leptospirose, hepatite A e disenteria bacteriana. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Unicef, há cerca de 2 bilhões de pessoas, ou um terço da população mundial, que não têm acesso à água potável – e as diarreias são responsáveis por 829 mil mortes por ano, principalmente em países em desenvolvimento. Essa foi a realidade que motivou o pesquisador moçambicano Beni Chaúque, que ingressou no Programa de Pós-graduação em Microbiologia Agrícola e do Ambiente (PPPGMAA) da UFRGS em 2018 e desenvolveu um método de desinfecção de água com luz solar.

A técnica desenvolvida por Chaúque consiste no tratamento da água com luz solar em fluxo contínuo. A forma mais usual limpa um litro de água a cada seis horas, utilizando garrafas PET transparentes colocadas sob o sol. Na estrutura criada pelo moçambicano, com espelhos, o tempo cai para um minuto e meio, ou seja, 240 vezes mais rápido. O diferencial da tecnologia desenvolvida na UFRGS é que ela aquece e esteriliza água com os raios solares trabalhando de maneira constante, o que permite alcançar um maior volume de água tratada. O equipamento também pode ser instalado no local de captação da água sem necessidade de energia elétrica e a baixo custo, sendo ainda bastante adaptável, tanto em dimensões como na forma de instalação.

Em 2020, os cientistas do PPGMAA obtiveram o depósito da invenção. Com isso, o INPI reconheceu o primeiro pedido de patente verde solicitado pela UFRGS que se enquadra na modalidade de “Tecnologia Verde”. “Isso foi um fato relevante conquistado pela Universidade no período de pandemia. Por um lado, tivemos a diminuição dos pedidos, mas, por outro, conseguimos trabalhar para ter conquistas históricas. Por exemplo, esse primeiro pedido de patente verde”, destaca Felipe Brandão. Ao ser questionado sobre se a tecnologia poderia ser usada para grandes volumes de tratamento de água, como no caso das companhias de saneamento, Felipe responde que “sim, certamente. Pode ser usada em pequena, média e grande escala. Pode ser usada sozinha ou junto com os sistemas que já existem”.

Universidade e sociedade

Para sintonizar mais a realidade da Universidade com a do mercado, Azambuja ressalta que a UFRGS vem, gradativamente, criando estruturas para as ideias que surgem nas mentes dos professores, pesquisadores e alunos se transformem em produtos no mercado. “A primeira dessas estruturas é a Sedetec, que está envolvida com todos os processos de patente e oferta ao mercado das soluções desenvolvidas aqui. Temos também o Parque Científico e Tecnológico (Zenit) e uma rede de incubadoras de startups. Além disso, foi criada a Pró-reitoria de Inovação e Relações Institucionais (Proir) para integrar e coordenar essas estruturas”, cita o professor.

Conforme a Sedetec, esses setores de interações com a sociedade oferecem suporte na elaboração de contratos, convênios, termos e acordos de cooperação e avaliam todos os aspectos para assegurar que as cláusulas referentes à transferência de tecnologia e à propriedade intelectual estejam de acordo com a legislação e as decisões da UFRGS. De 2021 a abril deste ano, foram analisados 280 instrumentos de interação (contratos, convênios, termos de cooperação, termos aditivos).

Para a professora do Instituto de Química da UFGRS Michèle Oberson de Souza, entre os fatores que representam o dinamismo da Universidade estão as atividades e ações de inovação que foram intensas no uso de ferramentas digitais para não parar durante a pandemia. “Rapidamente todos os setores se organizaram e se adaptaram para trabalhar eficientemente. As atividades programadas, eventos, aulas foram imediatamente adaptados ao modo virtual, permitindo oferecer à comunidade interna e externa as oportunidades de formação e os serviços na área de empreendedorismo e inovação previstas. Nesse período, teve depósito de patente, lançamento de editais para incubar, graduação de empresas incubadas”, relata a professora.

Apesar das dificuldades, Michèle entende que o cenário está evoluindo e que, cada vez mais, teremos exemplos bem-sucedidos de inserção de produtos ou serviços no mercado oriundos da academia. “Temos que entender que isso é um processo longo e que necessita de uma mudança cultural para todos os atores da universidade, docentes, discentes e técnicos administrativos”, destaca. Segundo ela, a mudança está acontecendo: ela lembra que a Sedetec foi pioneira na criação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), sendo modelo para diversas universidades. “Para que uma invenção chegue ao mercado, são muitas as etapas a serem vencidas. Muitas vezes, quem deu origem à inovação não possui as habilidades e os conhecimentos para vencer essas etapas”, pondera.

Habilidades para o mercado

As habilidades a serem dominadas para a realização de um processo completo de invenção e a sua inserção no mercado são as mensuráveis (hard skills) e as sociocomportamentais (soft skills). “Resumidamente, as primeiras são relacionadas à formação acadêmica, à técnica do indivíduo e, principalmente, ao currículo. As segundas são habilidades mais complexas e são relacionadas muito à vivência do indivíduo, suas percepções da sociedade, seu poder de liderança, capacidade de análise, adaptação ao contexto”, explica Michèle. É o conjunto dessas habilidades que, muitas vezes, serão encontradas em equipes capazes de levar a inovação ao mercado.

Assim se torna evidente que dentro da Universidade é necessária a formação de conexões para que equipes qualificadas para enfrentar todas as etapas se formem. “Precisa-se, portanto, criar espaços transversais que facilitem a formação dessas conexões. Isso não somente entre os setores da Universidade, mas também entre a universidade e a sociedade”, conclui Michèle.

Em 2012, a Sedetec criou um grupo de trabalho com o objetivo de disseminar a cultura empreendedora na comunidade da UFRGS. Com isso, foi formado o Núcleo de Empreendedorismo Inovador (Nuempi), do qual a Faculdade de Ciências Econômicas participa e no qual atua através de atividades que introduzem noções de empreendedorismo e inovação a estudantes de diversos cursos, levando iniciativas que conectem os alunos à inovação.

A professora do Curso de Ciências Contábeis da Faculdade de Ciências Econômicas Wendy Beatriz Witt Haddad Carraro classifica o atual momento como desafiador. “O caminho para levar um produto ou serviço ao mercado é desafiador, principalmente porque há uma grande diferença entre desenvolver uma proposta de produto ou serviço e uma proposta de negócio a partir de um produto ou serviço”, analisa. Segundo a profissional, na formação acadêmica, o foco ainda é no desenvolvimento das hard skills e, ao longo da formação, a pessoa precisa desenvolver as soft (ou people) skills. Dentro do ecossistema de formação e de inovação da UFRGS, durante a pandemia, um dos principais eixos de atuação foi conectar as pesquisas científicas e tecnológicas com o mercado, observa Wendy, estimulando os pesquisadores a buscarem transformar pesquisas e tecnologias em modelos de negócios. No site do Programa de Empreendedorismo é possível encontrar todas as atividades oferecidas ao longo do ano.