Mesmo sendo maioria na população brasileira, negros ainda têm baixa representatividade no meio acadêmico

Ciência | Embora existam avanços no acesso ao ensino superior e à pós-graduação, pesquisadores negros diagnosticam causas e apontam contradições que fazem com que sua presença na academia represente realidade contrária ao percentual da população brasileira

*Foto: Cabeça, Mestre Cida Lima. Cerâmica (Flávio Dutra/JU)

Cursando o terceiro ano de doutorado em Comunicação, o jornalista e servidor da Faculdade de Educação da UFRGS Wagner Machado da Silva tem no radar de sua pesquisa entender o fator estrutural que mantém o racismo nos ambientes acadêmico e profissional, analisando a pouca presença dos doutores negros na comunicação. “Entre as expectativas da tese está a intenção de confirmar ou refutar que há (in)visibilidade dos doutores negros na comunicação gaúcha e que isso ocorre pelo fator estrutural e pela manutenção do racismo nesses ambientes, hegemonicamente brancos”, observa. Em paralelo, propõe a descolonização da comunicação para garantir a pluralidade do conhecimento e a convivência equitativa e respeitosa entre distintas corporeidades, racionalidades e estéticas. 

Os dados confirmados pelo acadêmico mostram que, nos doutorados em Comunicação de quatro universidades do Rio Grande do Sul – UFSM, Unisinos, PUCRS e UFRGS –, entre 2015 e 2020, dos cerca de 400 que terminaram ou estão em fase de conclusão, somente 30 são negros (ou seja, 7,5% dos estudantes). O percentual é inversamente proporcional à quantidade de pretos e pardos no Brasil, que corresponde a 56,2% da população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  No Rio Grande do Sul, um estado majoritariamente branco, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD-Contínua), os negros representam 18,2% da população. 

Nessas mesmas universidades, há 81 professores formando mestre e doutores, mas apenas dois são negros. Muitas vezes a ciência reivindica supostas características de neutralidade, objetividade, universalidade, imparcialidade e racionalidade, mas o corpo docente demonstra que a teoria não está alinhada à prática à medida que há uma narrativa hegemônica por parte de quem dissemina o saber.

Wagner Machado da Silva

Um levantamento de junho de 2020 feito pela Liga de Ciência Preta Brasileira mostra que, dentre os alunos de pós-graduação, 2,7% são pretos, 12,7% são pardos, 2% são amarelos, menos de 0,5% é indígena e 82,7% são brancos. A análise aconteceu a partir de dados da Plataforma Lattes, serviço do CNPq que reúne informações curriculares, grupos de pesquisa e instituições das áreas de ciência e tecnologia no Brasil.

Segundo Wagner, o dado fica ainda mais acachapante quando se amplia o olhar para fora da pós-graduação. “Há somente 20 professores negros que atuam nos cursos de Comunicação no Rio Grande do Sul. Ou seja, dos 754 docentes, apenas 2,65% são pretos e pardos”, cita. No Brasil, conforme dados divulgados pela revista Pesquisa, da FAPESP, dos 80.115 doutores e mestres formados em 2020, 9.909 são pardos e 2.746 pretos.

Os dados se avultam ao se saber que o Brasil é o segundo país do mundo em população negra, ficando atrás apenas da Nigéria, no continente africano. No entanto, mesmo constituindo a maioria dos brasileiros, o desejo de branqueamento ainda inviabiliza a presença de pessoas pretas em diversos campos da sociedade, inclusive na educação, ressalta Wagner. “É fundamental o fortalecimento efetivo da educação antirracista, assim como o reconhecimento da relação entre o silenciamento da história e das culturas africana, afro-brasileira, indígena e o eurocentrismo do conhecimento”. Para combater o preconceito e a pouca presença do negro na ciência, aponta o pesquisador da comunicação, “o ideal seria fomentar o desejo de mudança quanto à relação entre a inferiorização da identidade negra e a falsa ideia de superioridade branca”. 

Além de tudo, destaca o jornalista, a história relatada nos livros não conta que o povo negro conseguiu se libertar da escravização, ainda que tenha sido conduzido às periferias da sociedade, impulsionando o processo de marginalização que hoje resulta em vários índices do país. Ele enumera que o negro tem mais chances de ser assassinado, é maioria no sistema carcerário, tem remuneração menor e menos acesso a serviços de saúde e educação que os brancos. “O resultado é o racismo estrutural – termo usado para descrever sociedades alicerçadas no privilégio de algumas raças em detrimento das outras”, resumindo que, quanto mais a pele for clara, maior a tendência de ascensão. “Com isso, as pessoas negras ficaram, por muito tempo, e ainda hoje estão, à margem da ciência. Não há um pertencimento dessa etnia nas universidades, e os poucos que conseguem adentrar esse espaço de poder, muitas vezes, são subjugados”, salienta.

Fatores de desequilíbrio

Barreiras culturais, baixa visibilidade e falta de estatísticas da atuação de pessoas negras na pós-graduação estão entre os fatores de desiquilíbrio apontados pelos pesquisadores. A pesquisadora membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Física, da Associação Brasileira de Pesquisadoras Negras (ABPN), integrante da National Organization of Gay and Lesbian Scientists and Technical Professionals e professora da Universidade Federal da Bahia Katemari Rosa lembra que a questão racial é algo muito recente, no sentido de coleta de dados, no Brasil.

Em relação à comunidade acadêmica, foi em 2013 que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) colocou o box “raça” no currículo Lattes, onde são coletados os dados dos pesquisadores e pesquisadoras do Brasil e, segundo Katemari, “por onde a gente constrói os censos da comunidade científica brasileira”. No final de 2015, foi a primeira vez que o CNPq teve dados em que a questão racial estava presente.

Ainda somos poucos na ciência, sem dúvida, particularmente nas universidades públicas. O que dificulta bastante é que não temos nem como contar mais precisamente quantos somos, porque não há um censo histórico estruturado na área.

Katemari Rosa

Wagner analisa os números já existentes e reforça a necessidade de que haja uma inquietação por mudança e de que se perceba que é preciso se fomentarem discussões sobre as relações étnico-raciais, com a intenção de romper o silêncio que ainda existe nos currículos acadêmicos sobre as populações minorizadas. Isso porque a educação tem papel central para a compreensão do processo de reconfiguração das relações sociais no Brasil, sobretudo no que se refere à superação do modelo exclusivista, fator que compõe um dos expressivos indicadores da desigualdade racial. “Sem dúvida, há um desequilibro conveniente. Há poucos negros na academia e pouca visibilidade das pesquisas produzidas por eles. Muito dessa indiferença, acredito, se dá pela dificuldade de quebrar estigmas, ascender e sobreviver a esse conjunto de práticas que nega, dificulta e elimina a produção de conhecimento construída por pessoas negras.”

Invisibilidade existe, embora os negros estejam por tudo. “Estamos em muitos espaços, mas em geral não ocupamos postos de poder nem estratégicos. É urgente que se mude essa realidade, afinal somos a maioria neste país”, avalia Katemari. Além disso, a professora ressalta que, sendo a minoria no ambiente acadêmico – muitas vezes única em um espaço rodeado por brancos –, todo debate étnico-racial recai sobre essa população.

Imagina se a gente pudesse só se dedicar ao foco da pesquisa, não ficar discutindo questões raciais. Isso nos sobrecarrega muito e é algo com que um pesquisador branco não precisa ser preocupar, por exemplo.

Katemari Rosa

Katemari também cita as barreiras culturais enfrentadas pelos negros na ciência. “Em geral, não temos acesso ao capital cultural porque ainda somos as primeiras gerações do movimento na pesquisa. Falar outras línguas, como o inglês, não é natural nem fácil para nós.” O ambiente de pesquisa e a relação com as pessoas não negras são outros obstáculos. “Ser arrogante é um jeito de ser na ciência, assim como se abster das relações pessoais. São formas de ser já naturalizadas no meio acadêmico, sendo muito diferentes das relações interpessoais que as pessoas negras vivem no cotidiano. Na minha área, que é a física, tem-se uma cultura – sobre o que pessoas não negras falam em tom de piada e com honra – do isolamento e da negação das relações interpessoais, o que acaba sendo um choque para a gente”, relata. Diante disso, ela se pergunta: “Como navegar nesse meio com naturalidade?”.

Racismo estrutural e resistência

O racismo estrutural por séculos garantiu aos brancos o controle dos espaços de poder no Brasil: na política, na economia, na produção intelectual e na mídia.

A representação dos afrodescendentes nessas esferas ainda não valoriza a heterogeneidade da população brasileira. Sobretudo pela ideologia do branqueamento, baseada nas perspectivas europeia e estadunidense, resultando na baixa autoestima de muitos pretos. Porém, proporcionalmente poucos, existimos e resistimos. Estamos espalhados, fazendo ciência e combatendo o racismo acadêmico.

Wagner Machado da Silva

Nesse caminho, um dos exemplos de união é a ABPN – Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. A organização propõe-se a congregar os pesquisadores negros brasileiros que trabalham com temas de interesse direto das populações negras no Brasil e a possibilitar publicações de teses, dissertações, artigos, revistas de interesse direto dessa população.

Katemari, que também é membro da ABPN, destaca que a organização reúne pesquisadores de excelência em várias áreas e cresceu muito nos últimos anos. “Ela vai além da referência na área científica, tem um diferencial e uma singularidade especial: é muito acolhedora e faz com que o negro se sinta em casa. O clima é muito bom, só quem é negro entende. Ou seja, é uma outra forma possível de se pensar e de fazer ciência a partir de outras formas de se organizar e de se relacionar com o fazer da pesquisa e com a produção de conhecimento.” Nesse contexto, o objetivo é que a ciência e a universidade busquem uma sociedade mais empática no sentido global. “Que nós, enquanto seres humanos, consigamos ter mais empatia, pensar no outro, independentemente de quem seja o outro”, projeta a pesquisadora.

Exemplos como esses potencializam a forma de fazer ciência e ajudam a reparar entraves históricos e barreiras culturais enfrentados pelos negros na academia, como a homogeneização do pensamento científico, a desqualificação do conhecimento produzido pelos negros, a inferiorização intelectual e a deslegitimação da pessoa negra como produtora do saber. Sem superar essas limitações, a ciência seguirá sendo um reduto de pessoas brancas e de não valorização do saber de outras etnias, argumenta Wagner. “No âmbito acadêmico, muitas vezes as referências bibliográficas são apresentadas a partir do olhar eurocêntrico, e isso abre poucos precedentes para se conhecerem outros autores importantes para a formação, apagando o conhecimento de outros continentes.” O pesquisador também acrescenta a dificuldade de ingresso e de escolha do tema de pesquisa por parte dos pós-graduandos negros, pois ainda são escassas as linhas de pesquisa que contemplem questões étnico-raciais, bem como orientadores que se interessem por esses temas.

Conforme Katemari, nos Estados Unidos as políticas raciais estão mais avançadas, talvez não tanto na cultura e no pensamento, mas nas ações. Lá a população negra é de cerca de 10%, e a discussão das pautas raciais na área da física está muito melhor do que aqui. “Há recursos financeiros disponíveis, e você vê que nos projetos há pessoas negras e trans, por exemplo”, observa, ressaltando que eles forçam a mudança na ação. “É possível que os estadunidenses não estejam tão mais avançados na forma de pensar, mas têm práticas efetivas para enfrentar o problema, o que força a mudança. Aqui isso ainda tem pouco, aí a situação é mais difícil de mudar.” No Brasil, há o entendimento de que o ensino fundamental é para todos, porém, no superior, o acesso deve ser limitado e privilégio de poucos.

Avanços

Apesar de todas as contradições e limitações apontadas, as conquistas e os avanços com as ações afirmativas são motivos para comemoração e esperança no Novembro Negro. A geóloga e mestranda do Instituto de Geociências da UFRGS Maysa da Silva Sobrinho de Lima lembra que não foram raros os momentos em que era a única presença negra em dado lugar, mas vem percebendo que isso vem mudando nos espaços acadêmicos que compartilha, o que a deixa motivada e com senso de pertencimento. “Vários fatores que contribuíram/contribuem para essa mudança no meio científico, como as discussões acerca do assunto e a representatividade, que saíram do campo das humanas e se espalharam por todas as áreas, estando presentes desde a minha graduação até pós. A política de cotas é outro ponto fundamental nesse processo, na medida em que diminuiu a desigualdade de acesso aos jovens negros no campo científico. Apesar de hoje estarmos melhores que ontem, ainda há muito o que ser feito e mudado para tornar nosso mundo igualitário”, relata.

“Percebo que temos razões para comemorar o mês de novembro, pois, ao longo dos anos, ocorreram muitos avanços na perspectiva das ações afirmativas e do acesso de pretos e pardos ao ensino superior e à pós-graduação.  Ao mesmo tempo, mais que comemorar, o Novembro Negro precisa ser um momento de reflexão e também um sinal de alerta para ficarmos atentos aos retrocessos dessas mesmas políticas de inclusão que possibilitaram o aumento de pessoas negras no âmbito da pesquisa”, pondera Wagner. Ao mesmo tempo que se ressaltam as conquistas, entretanto, é preciso entender que o cenário atual está longe do ideal.  “As conquistas e a busca por um maior espaço de representação ocorrem pela luta de negros e negras e também de pessoas que disponibilizaram a branquitude para buscar maior equidade na sociedade brasileira. Nada pode ser visto como benevolência, mas, sim, como justiça social.”

A Lei de Cotas que estabeleceu que 50% das matrículas de institutos e universidades federais devem ser destinadas a estudantes de escolas públicas é uma política que contribuiu para melhorar o acesso de negros e indígenas à educação. Em artigo publicado em 2019 (O perfil discente das universidades federais mudou pós-lei de cotas?), o sociólogo Adriano Souza Senkevics e a economista espanhola Ursula Mattioli Mello avaliam o impacto da mudança do perfil dos estudantes na graduação. Eles cruzaram dados do Censo da Educação Superior e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e compararam características de quem ingressou entre 2012 e 2016, considerando critérios como procedência escolar, autodeclaração de cor e raça e renda domiciliar per capita.

No estudo, os autores sustentam que a política de cotas foi responsável por mais de 50% do aumento da presença de negros e indígenas no ensino superior do país, embora reconheçam que a ampliação de vagas nas universidades e a oferta de cursos em período noturno também produziram mudanças no perfil do aluno. Para Katemari, há razões para comemorar, mesmo que as conquistas sejam tardias e pequenas. Ela acredita que a organização e os movimentos negros, ao longo das décadas, foram fundamentais para a implementação das políticas de contas raciais.

O Estatuto da Igualdade Racial, que completou uma década de existência no ano passado, também é citado como ponto relevante para o avanço da inclusão da população negra na sociedade, apesar das ressalvas. “Ainda ocupamos postos de trabalho mais precários, somos mais assassinados que as pessoas brancas, vivemos em condições piores e temos menos acesso à educação. Acredito que esse abismo racial segue existindo, apesar do dispositivo legal que é o estatuto, porque o racismo ainda é uma questão mal resolvida no Brasil. Embora seja crime, há pouca penalização. E, quando ocorre, recai em discriminação e preconceito, que tem menor poder de punição”, analisa Wagner.

Aliás, ele enfatiza que é preciso entender que o racismo é uma ferida aberta na sociedade e que também se trata de um problema de pessoas não negras. “É hora, portanto, de promover a presença real de negros e negras no mercado de trabalho, nas universidades. O reflexo será positivo, e esse esforço de inclusão oportuniza não apenas a carreira ou a vida pessoal desses comunicadores, mas amplia a diversidade nos espaços profissionais”, conclui o doutorando. Na mesma linha, Maysa acrescenta: “Temos um longo caminho a percorrer, mas o importante é que já começamos a andar em direção a um mundo mais igualitário e representativo. Sonho com o dia em que todos os espaços sejam a real representação da nossa sociedade, sem distinções ou estranhamentos”.

Como síntese da luta, da resistência e da esperança, Wagner traz a música Eu sou, de WD:

Eu sou
A voz da resistência preta
Eu sou
Quem vai empretar minha bandeira
Eu sou
E ninguém isso vai mudar
Tudo começou dar certo
Quando eu aprendi me amar