Mestre Paraquedas, o clínico geral do Carnaval

*Foto: Flávio Dutra/JU

O primeiro contato que Eugênio Silva de Alencar, o Mestre Paraquedas, teve com a UFRGS sintetiza em boa medida seu estilo. Ele descansava no Parque da Redenção durante o intervalo do almoço quando foi interpelado por Andrea, uma moçambicana estudante da Universidade, conhecida sua das noites na Cidade Baixa. Eram os primeiros tempos de discussão sobre as cotas em universidades. “Paraquedas”, disse ela, “tu é pintor letrista, né?” Na época, Paraquedas trabalhava como pintor letrista na loja Rainha das Noivas. “Nós queremos fazer uma faixa pra botar na frente da UFRGS e temos o pincel, temos as tintas, temos a faixa, temos tudo, mas nem sabemos ainda o que queremos escrever.” Paraquedas, de imediato, topou ajudar e seguiu para o pátio da reitoria onde estava “a meninada toda sentada”.

Na indecisão sobre o que escrever, ele ouviu a música que tocava em seu radinho de pilhas. Era “Cadeira Vazia”, um samba de Lupicínio Rodrigues. Foi aí que teve o estalo e sugeriu: “Por que a gente não troca ‘casa’ por ‘causa’ no verso ‘Entra, pode entrar, a casa é tua’?”. Dito e feito. Na manhã seguinte, passando de ônibus por ali, viu a faixa pendurada no muro: “Entra, pode entrar, a causa é tua”. A música, o apoio às causas que considera justas e a disposição para ajudar e compartilhar seus saberes com os mais novos marcam uma vida dedicada ao Carnaval e à arte.

O “clínico geral” do Carnaval na Universidade

Paraquedas é um monumento, um “clínico geral” do Carnaval porto-alegrense. Compositor, letrista, carnavalesco, desenhista, alegorista e Mestre Griô. Já foi premiado mais de trinta vezes com distinções de “Melhor Samba” e “Melhor compositor”. Em 2014 e 2015, foi campeão do Carnaval com a Tribo Comanche, que ajudou a fundar. Comandos do Morro, Unidos da Conceição e Samba Puro são algumas das escolas em cuja fundação ele esteve envolvido.

O apelido, Paraquedas, vem do tempo em que serviu no Núcleo de Divisão Aéreo Terrestre, no Rio de Janeiro, onde era paraquedista. “Eu saí daqui Cabo e lá cheguei a 3.º Sargento”, diz ele. O quartel onde ficou era localizado entre o rancho Unidos de Vila Valqueire e a escola de samba da Portela, que o impressionava pela tecnologia empregada nos carros. Acostumado apenas com o Carnaval de rua de Porto Alegre, ele conta que a Portela foi sua primeira grande escola. “Eu me encantei com os carros alegóricos, com o movimento da águia da Portela – mexendo com a cabeça, mexendo com as asas. Bah, que coisa louca!” 

Sua “militância”, como diz, no Carnaval lhe rendeu um convite para participar da disciplina Encontro de Saberes na UFRGS em 2017. Foi aí que entrou na Universidade de fato, não só para ajudar os estudantes que estavam se manifestando, mas para compartilhar seus conhecimentos com os alunos. A disciplina Encontro de Saberes é oferecida desde 2016 a todos os cursos de graduação e é ministrada por mestres de comunidades populares e tradicionais. É a academia se abrindo para o popular.

“Se eu gostei…”, comenta Paraquedas sobre a sua participação, “Olha, eu chegava a contar as horas pra ir pra lá, porque, pra mim, era até um divertimento. Eu ia contar histórias, cantar, bater tambor, interagir com aquela meninada, com aquela rapaziada da Universidade…” 

A universidade subiu o morro / Gostou de lá, até disciplina virou / Aquele sambista que fazia tema pra escola desfilar / Agora dá palestras nos Saberes Popular, Eyá

Canção No Saberes Popular feita por Paraquedas sobre a disciplina Encontro de Saberes

Foi na disciplina que Paraquedas conheceu Stefania Colombo, para quem a participação na cadeira foi tão impactante que rendeu o trabalho de Conclusão do Curso de Bacharelado em Música Popular, defendido no ano passado. O estudo é uma etnografia elaborada enquanto produzia um songbook – livro com letras, cifras e partituras – da enorme obra de Paraquedas. Em artigo publicado no JU em 2021, Stefania afirmou que essa teria sido a melhor disciplina que fez dentro da Universidade.

Quando se conheceram, a estudante tinha 19 anos. Sua chegada aos 20 iria passar em branco não fosse a generosidade de Mestre Paraquedas. Ele se mobilizou e conseguiu um lugar perto de onde mora, no Morro da Cruz, na Zona Leste de Porto Alegre, para dar uma festa à amiga que acabara de fazer. “Ela trouxe uma banda, eu já trouxe outra banda. Já convidou o pessoal da faculdade. Quando vimos foi um festão. ‘O festão’ que saiu nos 20 anos da Stefania”, relembra. Sobre a relação entre ambos, ele é taxativo: “Uma coisa que me deixou uma marca muito importante”.

Foto: Flávio Dutra/JU
Crescendo na folia

Paraquedas nasceu na churrascaria Mascarello, no centro de Porto Alegre, em 1933. Seus pais tinham saído para jantar fora e não deu tempo de alcançar o hospital. O registro no cartório, porém, só veio em 1937 e ainda teve que ser feito com outro nome. Não pôde ser registrado como Darcy, o nome pelo qual fora chamado a vida toda, porque era nome de mulher. A primeira-dama da época, inclusive, era Darcy Vargas.

Eugênio cresceu no Carnaval. Ele conta que seu primeiro desfile foi aos cinco anos, vestido de marinheiro, “na cacunda do pai”. O desfile foi pelo bloco Os Aratimbós, que tinha seu pai, Sizenando Lopes de Alencar, como um dos fundadores. O bloco foi batizado em homenagem ao navio Aratimbó, que fazia a costa brasileira e atracava muito no cais de Porto Alegre. 

A fantasia de marinheiro que usou para desfilar foi feita pela mãe. Dona Augusta Nunes da Silva era costureira e trabalhava para o Exército, costurando fardamentos. Também ela era afeita às festas de Carnaval. Junto com algumas amigas, criou a tribo carnavalesca As Iracemas. O grupo era um protesto pela proibição de mulheres na tribo Os Caetés, outra agremiação de que participava o marido. “Até a bateria era mulher”, conta Paraquedas. A competição entre os blocos virou uma humilhação. Por dois anos os Caetés foram atropelados pelas Iracemas. No terceiro, eles não esperaram para ver o resultado do Carnaval e abriram o grupo para a participação feminina.

Aos 84 anos, a conversa de Paraquedas é pausada, mas o raciocínio é fluido e organizado como a avenida em dia de desfile. É rara a história que, contada por Paraquedas, não seja absolutamente precisa quanto à localização em que se passou. Isso porque, aos 14 anos, Paraquedas foi trabalhar como carteiro nos Correios. Tinha como colegas Alceu Collares, Pedro Homero e Nilo Feijó. Este último, aliás, dá nome ao Centro de Referência do Negro de Porto Alegre.

Outro traço característico de sua fala é a referência constante a músicas ou a sons de instrumentos. Quando conta a história da relação de seu pai com o pandeiro, isso fica claro. “Para afinar, tu tinha que fazer um fogo no chão e passar o pandeiro; aí o som que estava ‘pum, pum, pum’ ficava ‘tac-tic-tac-tic-tac’. Bem afinadinho.” Mas a sonoridade de uma pele mais seca e esticada – logo, mais aguda – durava pouco. “Tomava o sereno da noite um bocadinho aí já tava ‘pumk-tic-pumk-tic-pumk-tic’ de novo.”

Expressão premiada

Suas músicas – desde a primeira, feita por volta dos 10 anos em homenagem a uma namoradinha atropelada num acidente com caminhão – são frutos de uma necessidade de manifestar o que pensa. “Nunca fiz uma música pensando em gravar. Não. Eu sempre fiz pra descarregar alguma coisa da minha cabeça”, revela.

Nunca tive um jornal, nunca tive uma televisão, nunca tive um rádio como veículo de expressão minha. Então o que eu faço? Faço música de expressão minha, boto no Carnaval. Aí eu falo o que eu quiser falar.

Mestre Paraquedas

Sua necessidade, por vezes, flui em forma de samba. Por vezes, ainda, esse samba se torna campeão do Carnaval de Porto Alegre. É o caso, por exemplo, de “É Morro, É Favela, É Gueto, É Quilombo”, samba-enredo da Academia de Samba Puro, que foi campeã do Carnaval de 1989. 

A história desse samba ilustra a coragem de alguém que vive na luta contra opressões de todo tipo. A Censura Federal proibira que outro samba seu fosse usado no Carnaval. O trecho que incomodou o censor era assim: “Só pegando no cano se ganha a parada”. O oficial questionou se aquilo era um incentivo ao uso de armas para defesa de direitos. Respondeu Paraquedas: “Olha, eu não falo por parábolas. É isso aí que o senhor leu mesmo”. 

O samba seguinte, então, dizia: “No dia que o doutor compreender / que quem vive lá no morro / também tem direito a viver. / A viver. Viver com dignidade, sem opressão, sem maldade / Então tudo vai mudar. Vai mudar /”. E concluía: “Enquanto esse dia não vem / Sou o grito, sou a luta, sou a voz de quem não tem / É morro, é favela, é gueto, é quilombo / É samba, é quizomba, meu povo”.

Samba “É Morro, é Favela, é Gueto, é Quilombo”, composto por Mestre Paraquedas para o carnaval de 1989. O intérprete é Igor Goulart e da Academia Samba Puro