Meu lugar na UFRGS: Nino Gouveia

*Publicado na Edição 228 do JU

Foto: Flávio Dutra/JU

Ligo para o Instituto de Letras, no Câmpus do Vale, atrás de Luis Carlos Mendes Goveia. A pessoa do outro lado da linha hesita alguns segundos. “Ah, você quer falar com o Nino?”, pergunta. O porteiro do prédio, um dos poucos concursados – função hoje executada por terceirizados–, explica que desde criança é conhecido por Nino. “Na primeira vez em que fui homenageado pelos alunos na formatura, os professores ficaram surpresos ao saber que meu nome é Luis; todos me conhecem por Nino. “Minha avó costumava me chamar de ‘menino’ o tempo todo, e minha mãe não gostava, aí acharam melhor Nino.” Ao total, o servidor já foi homenageado quatro vezes, reconhecimento digno de sua dedicação ao instituto.

Com 35 anos de Universidade, onde iniciou como obreiro, seguindo os passos do pai, que também foi funcionário da instituição, Nino já passou por diversos setores – inclusive fez parte do grupo de desenhistas que projetava os edifícios das unidades –, mas é na Letras e como porteiro que se sente realizado. A sensação de pertencimento é percebida pela naturalidade com que usa o pronome possessivo: “É o meu prédio, são os meus alunos”.

O servidor, hoje com 53 anos, não pretende se aposentar. “Sou hiperativo”, justifica, gesticulando o tempo todo. Acorda às 6h e sai de sua casa, na vila Agrovet, bem próxima ao câmpus e onde moram vários funcionários da UFRGS. “Às 7h15 abro a porta. Se está chovendo ou fazendo frio, abro mais cedo para o conforto de todos.” A relação com os estudantes é marcada por um tom de brincadeira e amizade: “Quando chegam atrasados, eu pego no pé”. Nos dias em que está mais inspirado, anuncia falsas provas-surpresa só para ver o espanto nos corredores. “Depois, todos riem, mas, de vez em quando, é verdade”, ressalta. Durante o expediente, não é raro escutar as lamentações e os anseios depois das provas. “Estou sempre aberto a quem quiser bater um papo”, afirma.

Para Nino, o melhor da Letras é a vista do elevador no segundo andar. “Tenho uma aluna com deficiência, já sei os horários em que ela chega, então fico esperando no andar de cima, analisando a paisagem, até ela aparecer. Aí abro a porta para ela”, conta. Ele diz que lá de cima consegue enxergar o movimento do câmpus: os alunos chegando e indo embora;  as grandes árvores, secas no inverno e verdes no verão. Como um zelador de condomínio, observa cada cantinho dessa que é a sua segunda casa. “Faço a manutenção do meu prédio.

Por exemplo, os alunos e professores estavam reclamando da falta de cortinas. Eu abri chamados para arrumar, só que nada aconteceu.” Aí ele mesmo pegou jornais e colou nas janelas. “Ficou quase um ano assim; tive que dar meu jeito”, afirma. Em outra ocasião, lutou para que uma das portas do instituto fosse fechada para a segurança dos alunos. “Estou sempre alertando as gurias para se cuidarem no câmpus, porque é perigoso. Sou meio paizão.”

Seu único arrependimento é de não ter estudado inglês. “Olha onde eu trabalho! Recebo muitos alunos estrangeiros aqui. Seria melhor se eu soubesse uma língua estrangeira.” Segundo ele, as professoras já tentaram lhe ensinar, mas Nino não conseguiu acompanhar. E é justamente a diversidade do lugar, com tantos estudantes do mundo todo, o que ele mais gosta. “Aprendi tanto! Antes de trabalhar como porteiro aqui, tinha muitos preconceitos enraizados. Hoje, vejo que tudo era besteira. A Letras me ensinou que amor é amor e que a cor das pessoas não faz diferença.
O ambiente me abriu a cabeça.”


Bárbara Lima

Estudante de Jornalismo da UFRGS