Meu lugar na UFRGS: Zeli Pinheiro da Cruz

Foto: Flávio Dutra/JU
Colégio Aplicação | De volta aos estudos

Sentada no corredor de entrada do Colégio de Aplicação da UFRGS, Zeli Pinheiro da Cruz, de 80 anos, é abraçada por um adolescente que segue para a aula. Transitando com naturalidade pelo prédio, entra no laboratório e bate um papo rápido com a professora que descansava na sala quando chegamos para conhecer o lugar. Ao caminhar pelo pátio, é cumprimentada com afeto e brinca com a professora de Educação Física: “Vieram me entrevistar, tô ficando importante”. Recebe de bate-pronto a resposta: “Tu és importante”.

Quem a vê circulando com tanta desenvoltura e familiaridade entre as pessoas e as instalações do colégio pode pensar que se trata de uma servidora, com décadas de serviços realizados, ou ao menos uma relação de muitos anos com a instituição. Mas a verdade é que Zeli cursa o Ensino de Jovens e Adultos (EJA) desde o segundo semestre de 2017.

Há dois fatores que explicam como pode se criar em tão pouco tempo um vínculo dessa magnitude com a instituição: o gosto pelo estudo e a retomada de um ciclo interrompido ainda na adolescência. Nascida em 1939 – antes mesmo da fundação do Colégio de Aplicação, que é de 1954 –, Zeli conta que abandonou os estudos aos 14 anos para se dedicar ao trabalho em uma fábrica de espirais repelentes de insetos em sua cidade natal, São Vicente do Sul. “Na época, gostei muito de trabalhar – na semana em que comecei já recebi pagamento. Depois veio o namoro, o casamento – aos 18 anos – e os filhos. Meu pai devia ter me dado uns tapas e me feito voltar pra escola, mas ele era uma pessoa muito boa”, diverte-se.

O prazer em retornar às aulas resgatou a paixão pelo ensino. Hoje ela mostra convicção em afirmar: “Meu lugar é na UFRGS. No fim do ano, devo me formar e não sei como vou viver longe desse colégio. Amo o Aplicação e os professores. Não gosto de filme nem de novela, não gosto de ficar em casa”. A afinidade é maior com as disciplinas de português e informática, ao passo que os cálculos das aulas de matemática fazem o papel de calcanhar de Aquiles de Zeli. “Venho às 18 horas [uma hora antes do início das aulas do EJA] porque estou muito fraca em matemática. Às vezes tenho reforço com o bolsista e entendo melhor.”

Foto: Flávio Dutra/JU

Zeli conta ainda que, mais do que os cálculos, precisa vencer algumas limitações na saúde para acompanhar as aulas. “Tenho asma, o que me impede de ir em algumas saídas de campo. Na verdade meu médico me proibiu de fazer aulas à noite, mas não dou muita bola. Quando está muito frio ou chove, eu fico em casa e depois pego o conteúdo com os colegas para recuperar. Mas, se estou em casa, fico muito inquieta”, afirma.

Além do prazer em frequentar as aulas e criar novas amizades com professores e colegas – muitos deles estiveram na sua festa de aniversário de 80 anos –, cursar o EJA também a aproximou dos bisnetos, que agora recorrem com maior frequência à sabedoria da aposentada: “Eles até me ensinam às vezes. Mas eu estudo sempre pra quando me fizerem uma pergunta eu não dizer: ‘Não sei’. Não gosto de me limitar a isso, quero sempre saber mais um pouco”.

Depois de ter passado tanto tempo afastada das aulas, a relação com os livros e cadernos está mais forte do que nunca e não tem data pra terminar. Para o futuro, os planos são de seguir estudando e incluem ainda a UFRGS. “Depois de me formar, pretendo tentar o vestibular para Pedagogia. Gosto muito de estudar. Enquanto minha cabeça estiver boa, lúcida, vou seguir”, completa Zeli.

Olhar de repórter

Um dos meus objetivos nos textos é manter alguma subjetividade sem necessariamente narrar em primeira pessoa, o que torna a escrita dependente das coisas que vi na apuração ou na entrevista. Na conversa que tive com dona Zeli saltava aos olhos o contraste dos gestos contidos e da velocidade comedida com a pressa e a correria das crianças brincando no recreio. Outro caminho seria lembrar o entusiasmo e a paixão nas palavras de Zeli sobre como ela ama estudar e o conforto que sente em estar no Colégio de Aplicação. Afinal de contas, o que é jovialidade se não energia, entusiasmo e vontade?

Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS