Miriam Loss: abraços e conversa de balcão

Fabico | A bibliotecária-chefe conta da falta que sente dos alunos e das conversas diárias no espaço da biblioteca da faculdade

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Se engana quem pensa que a biblioteca é apenas um lugar de empréstimo de livros dentro da Universidade. Pelo menos a que está localizada no quarto andar da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) não é. Quem diz é Miriam Loss, para quem esse espaço que abriga tantos livros é um local de encontro, acolhimento, vínculo e conversa. A servidora é bibliotecária-chefe da unidade e atua no local há 38 anos, tendo começado como bolsista em 1981. Nessas quase quatro décadas, nunca antes havia ficado tanto tempo sem o contato diário com os alunos dos cursos de Comunicação e Informação. E é desse contato que ela mais tem sentido saudades durante a pandemia. 

“O que mais sinto falta é o convívio com as pessoas, com nossos alunos”, conta. “Apesar de ser uma biblioteca, fazer o atendimento objetivo, muitas vezes a gente acabava se envolvendo em situações com os estudantes, porque eles veem na pessoa que atende alguém com quem podem conversar, questionar coisas, tirar dúvidas.” A imagem é comum a muitos fabicanos: subir as escadas até o quarto andar ou então aventurar-se pelo antigo elevador do prédio para chegar até a biblioteca e debruçar-se sobre o balcão. Muitas vezes o pedido é um livro, uma referência, um auxílio com um trabalho acadêmico. Noutras ocasiões, é apenas uma boa conversa com Miriam ou com os outros bibliotecários. 

“Tenho saudade de os alunos chegarem à biblioteca, falarem suas questões, do que estão precisando. A biblioteca sempre teve essa posição de amparar. Do aluno chegar ali, se debruçar no balcão e vir conversar com a gente”, recorda. A servidora conta que essa característica foi algo que aprendeu antes de assumir o cargo de chefia.

“Desde que comecei a trabalhar na biblioteca, sempre tive como exemplo as colegas que me antecederam. E delas sempre veio o ideal de a biblioteca ser um lugar que abriga, que acolhe e que tenta resolver as questões que estão ao nosso alcance.”

Miriam Loss
Na imagem acima, área da biblioteca da Fabico, onde a bibliotecária Miriam Loss trabalha há 38 anos. Afastada durante a quarentena, Mela segue indo “ao menos uma vez por semana” à faculdade para atender demandas urgentes de técnicos, alunos ou professores (Foto: Flávio Dutra/JU)
O acolhimento agora é virtual 

Não podendo estar com os alunos presencialmente há mais de seis meses, desde o início da pandemia, Miriam teve de pensar em uma alternativa para continuar prestando o serviço oferecido pelo setor, mesmo que de forma virtual. Como não poderiam realizar os empréstimos dos livros, a servidora estruturou um sistema em que os estudantes podem se comunicar com a biblioteca por email, tirar dúvidas, procurar auxílio para trabalhos e também solicitar capítulos de livros. Eventualmente Miriam tem ido à Fabico para digitalizar textos para alunos que estão realizando trabalhos de conclusão de curso e que não têm acesso às obras de outra forma. 

Ela confessa que muitas vezes tem enfrentado dificuldade de estabelecer um horário fixo de trabalho, porque fica “naquela ânsia, pensando se os alunos precisam de alguma coisa no final de semana”. Por isso, ela comenta que tem deixado seu computador ligado quase sempre para tentar dar retorno às mensagens que chegam e continuar cumprindo a ajuda prestada pela biblioteca. “Tenho feito isso justamente por entender que é um momento de emergência, então não posso fixar meu tempo de trabalho estritamente no horário comercial, porque as pessoas também estão assim, está todo mundo nessa mesma situação. Procuro, assim, não deixar ninguém sem resposta.” 

Tão conhecida pelo acolhimento, a biblioteca da Fabico também é reconhecida para fora dos limites da comunidade acadêmica. Miriam recorda uma situação curiosa que ocorreu durante o período da pandemia quando recebeu o email de uma aluna que ela não sabia quem era. “Como não conheço todos os estudantes, pois são muitos, respondi prontamente tentando ajudar.” Elas trocaram várias mensagens por email sobre o trabalho, normas da ABNT e outros detalhes mais, até que, em um dado momento, Miriam perguntou qual era o curso da menina. “Eu não sou da UFRGS”, respondeu. Ela havia conhecido a biblioteca em um curso presencial, uma capacitação disponibilizada a toda comunidade – inclusive para o público externo à UFRGS – sobre base de dados e apresentação de trabalho acadêmico. “Continuei a ajudá-la e fizemos até uma chamada pelo Zoom para esclarecer algumas questões”, relata a bibliotecária.

Expectativa para o retorno dos abraços

“Que saudades de estar no corredor da Fabico, encontrar os alunos no meio do caminho, abraçar, conversar um pouco.”

Miriam Loss

Por enquanto, o retorno dos abraços ainda está na dimensão da expectativa e da preparação. Nos últimos meses, a bibliotecária tem estudado, junto com outros setores da UFRGS, planos para a segurança das atividades quando o ensino presencial retornar. Uma das medidas que já é consenso é a ‘quarentena dos livros’. Ou seja, toda obra que retornar à biblioteca ficará um tempo – ainda a ser determinado – sem contato algum; só depois retornará às estantes para novo empréstimo, evitando assim a contaminação.

Enquanto os protocolos são estruturados, a biblioteca permanece nesse formato de espaço virtual. Segue acolhendo as dúvidas e demandas dos alunos, mas, por hora, sem os conhecidos abraços e conversas no balcão.