Murais provocam um impacto social no espaço urbano

Arte | A realização recente de grandes intervenções artísticas na fachada de prédios de Porto Alegre promove a ampliação do acesso à arte e leva a atenção para a preservação de obras mais antigas, como a presente na face sul do Instituto de Psicologia

*Foto: Flávio Dutra/Painel de Mona Caron e Mauro Neri, no prédio do DAER, na Av. Borges de Medeiros, em Porto Alegre

Vão-se já mais de 19 anos que o Instituto de Psicologia da UFRGS estampa em sua face sul o mural “Que mundo é este?”, realizado durante a terceira edição do Fórum Social Mundial, em 2003, pelos artistas Nestor Del Pino, Klaus Klinger, Heloisa Borsato e Zoravia Bettiol. Além dessa obra presente no Câmpus Saúde e já conhecida da cidade, outras vêm despontando na paisagem urbana de Porto Alegre.

Em 2016, as produtoras Pax Art e Artsync realizaram o projeto Medianeras – Arte Pública, um circuito de arte promovido de maneira colaborativa. O resultado foi a elaboração de três murais dos artistas Marcelo Pax, Jotapê e Motu no bairro Cidade Baixa. No ano de 2021, realizado pela produtora Pólen, o Festival Arte Salva iniciou um movimento de transformação no centro de Porto Alegre com a criação de um circuito composto por quatro murais pintados pelos artistas Bruno Schilling, Kelvin Koubik, Pati Rigon e Tito Ferrara.

Mural “Estrutura Cromática #001”, de Bruno Schilling, localizado no Ed. Despachantes Aduaneiros. (Luiza Castro/Sul21)
Mural “Quando a naturalidade se desloca”, de Kelvin Koubik, localizado no Predial Bier Ullmann. (Luiza Castro/Sul21)
Mural “Incêndio”, de Pati Rigon, localizado no Ed. Tabajara. (Luiza Castro/Sul21)
Mural “Tempo, Dor e Amor”, de Tito Ferrara, localizado no Ed. Garagem Parobé. (Luiza Castro/Sul21)

O doutor em Antropologia Social pelo PPGAS/UFRGS Jose Luis Abalos Junior ressalta a importância de iniciativas como as dos festivais, visto que essas novas intervenções artísticas causam um grande impacto no espaço urbano.

“Esse impacto vai além do visível, do estético, do paisagístico. Ele é um impacto social por meio do qual a gente percebe a cidade em que a gente mora atrelada a dimensões artísticas”, afirma. 

Jose Luis Abalos Junior

Em janeiro deste ano, a partir de projeto de Incentivo à arte urbana do Laboratório de Políticas Públicas e Sociais (LAPPUS) e em parceria com mais de 100 entidades, os artistas Mona Canon e Mauro Neri inauguraram um grande mural na lateral do prédio do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) e da Procuradoria-geral do Estado (PGR), na avenida Borges de Medeiros. Com 65 metros de altura e 15 de largura, a obra retrata a figura de uma mulher negra segurando a Justicia gendarussa, uma planta nativa da região sul.

Segundo Eber Pires Marzulo, professor do Departamento de Urbanismo da UFRGS, a produção do mural não foi apenas um processo de captação do ponto de vista político, ideológico e econômico, mas uma conquista tripla de reconhecimento de arte, gênero e raça por ser retratada a imagem de uma mulher negra.

Paulo Gomes, professor do Departamento de Arte Visuais da UFRGS, destaca que essas iniciativas que promovem a construção de obras de arte em espaços públicos possibilitam também um acesso mais democrático à arte. “A grande maioria das pessoas não frequenta museus, ela passa pelas ruas. E, evidentemente, passando pelas ruas e vendo os trabalhos, as pessoas vão incorporar isso, e isso vai fazer parte do seu repertório, vai ajudar a refletir”, completa.

A “menina sol” na fachada do Instituto de Psicologia

Quem para na esquina da avenida Ipiranga com a Ramiro Barcelos e levanta os olhos ainda tem a chance de contemplar o mural “Que mundo é este?” e refletir sobre as questões sociais que permeiam a sociedade brasileira à medida que o olho percorre a fachada do Instituto de Psicologia.

Artista visual porto-alegrense, Zoravia Bettiol conta que foi convidada pelo artista alemão Klaus Klinger para fazer parte do projeto. Ele pediu para consultar seu portfólio a fim de escolher uma de suas obras para complementar o trabalho que já havia começado a ser planejado. “Fui apresentando os meus trabalhos mais líricos, mais poéticos, e ele gostou dessa figura feminina da obra Jardim Encantado I”, conta.

Gravura “Jardim Encantado I”, de Zoravia Bettiol. (Acervo Pinacoteca Barão de Santo Ângelo/Reprodução)

Chamada de “menina sol” pela artista, a figura foi escolhida para ser usada como contraponto às mazelas sociais retratadas no mural.

“Para funcionar como contraponto, ela ficou com um tamanho físico bem maior do que o dos outros trabalhos. E aí em uma de suas mãos eu coloquei uma ave, que não ficou bem uma pomba da paz, mas é uma coisa bem positiva, e na outra uma flor”

Zoravia Bettiol

Com vinte e um metros de altura e treze de largura, o mural foi pintado em uma semana pelos quatro artistas – o tempo exíguo foi compensado pela experiência de Klaus pintando murais pelo mundo. Por ter vertigem, Zoravia trabalhou apenas na parte inferior do mural, por isso não foi ela quem pintou a figura da “menina sol”. Conta, curiosamente, que fez um esforço para, no esboço do mural, reproduzir a imagem sem a sua gestualidade própria, de forma que os outros artistas pudessem pintá-la. “Eu tive todo o cuidado de fazer dessa maneira, que deixou fácil para eles se basearem pelo meu desenho, e eu com todo o cuidado fazia a parte de baixo do mural”, recorda.

Posteriormente à execução, outros artistas acrescentaram pequenos detalhes ao mural, sem destoar do tema principal. De acordo com Zoravia, essas intervenções foram feitas com a supervisão dos quatros artistas principais para que a obra não perdesse a unidade.

Preservação material e visual

Com o passar dos anos, a paisagem urbana foi se modificando. Ao lado do Instituto de Psicologia ocorreu a construção do novo prédio do Instituto de Ciências Básicas da Saúde. Além disso, ao longo dos seus 19 anos de existência, o mural sofreu o esperado processo de desgaste por estar ao ar livre, exposto a chuva e sol. Não há, entretanto, qualquer previsão de quando poderá vir a ser restaurado.

Segundo Paulo Gomes, que também é coordenador da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes, a Universidade não tem nenhum projeto de restauro das obras de seu acervo, sejam elas externas ou internas. “Desde 2013 nós não temos restaurador no Instituto de Artes. Então não há projeto de restauro, não há recursos para isso”, explica. Ele ressalta, ainda assim, a importância de preservar os murais existentes na cidade, visto que eles são um patrimônio material de Porto Alegre. 

Zoravia, por sua vez, acredita que a preservação é uma lacuna no campo das artes no Brasil.

“É lastimável a questão da preservação no nosso país, é horrível, parece que essa palavra não existe no vocabulário: preservar. Por isso a gente tem que falar e denunciar para que haja mudanças”

Zoravia Bettiol