Nilo Piana: cinema e paixão

Câmpus Centro | Professor conta sobre sua relação com a Sala Redenção e a falta que o cinema faz na pandemia

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

O escurinho do cinema, as luzes se acendendo, o fim do filme e o começo do debate. Essa dinâmica da Sala Redenção é um dos momentos de que o professor de História do Colégio Aplicação da UFRGS Nilo André Piana de Castro mais sente falta na quarentena.

Formado em Licenciatura em História, Nilo constantemente procurou vincular sua trajetória acadêmica e profissional com o cinema. Dentro da Universidade, a Sala Redenção é o seu local de referência, espaço que idealiza desde pequeno. “A Sala Redenção é um trabalho relacionado ao prazer. Eu tô ali associando um gosto meu que vem desde a infância e desde que trabalhei com videolocadora. E ali consegui fazer minha especialização na área de História”, conta.  

Para o professor, o caráter público e democrático do espaço é uma de suas belezas. Nesse sentido, o que mais causa angústia neste momento de distanciamento social é a ausência da troca de ideias com o público.

“Do que mais sinto falta é de fazer as discussões. Porque o que rende ali não é só assistir ao filme; o legal mesmo é trocar ideias com a plateia depois. Discutir questões sobre os filmes, sobre a linguagem que foi utilizada ou sobre o roteiro”

Nilo André Pena de Castro

Para o professor, que está longe da sala há dez meses, a saudade dos ciclos e palestras é presente. As quartas-feiras à noite eram o momento de as luzes se apagarem, o escurinho tomar conta da sala e não ver as horas passarem. Mas, agora, se percebe carente desses momentos. “Fica um vazio grande. Já tem o vazio de não frequentar o Colégio e não trocar com os estudantes. Aí tu não pode tocar os teus projetos, não pode frequentar os lançamentos dos filmes. Tu tá alijado do cinema, de um cinema gratuito no centro de Porto Alegre”, lamenta. 

Com o passar dos anos, houve diversas mudanças na infraestrutura da sala – a instalação de um ar condicionado e a troca de projetores de película para digitais são algumas delas. Nesse sentido, Nilo recorda da experiência que teve ainda como estudante. “Quando eu era aluno de graduação, a Sala Redenção ainda exibia filmes em película. Alguns clássicos do cinema acabei assistindo ali, tipo Lawrence da Arábia. Coisas que tu jamais ia encontrar num cinema comercial naquela época.” O que não muda na sala é a receptividade dos funcionários à presença dele e de seus projetos.

“Sinto saudade das pessoas. Às vezes tu tá no centro fazendo alguma coisa na Reitoria e passa ali pra ver o que tá passando na sala. Tem uma parte formal e uma parte informal muito agradável dentro desse trabalho”

Nilo André Pena de Castro
Professor cinéfilo

Em 2003, passou no concurso para professor de História do Colégio de Aplicação e, desde lá, buscava trazer o cinema para a sala de aula. De 2006 até 2011, costumava levar semanalmente os estudantes à Sala Redenção. Segundo ele, até pais de alunos marcavam presença nas sessões. Além disso, também convidava professores de outras disciplinas para acrescentarem nas discussões pós-filme.

Lecionar a distância está sendo uma tarefa estranha para Nilo. Como professor, dá aula para dois extremos do ensino básico: o quinto ano do fundamental e o terceiro ano do médio. Tem como um dos métodos de ensino utilizar filmes para explicar acontecimentos históricos. Fazia leituras em tempo real dos filmes, pausando e explicando, buscando provocar comentários e opiniões dos estudantes. 

Atualmente, de longe, faz recomendações de filmes como complemento às aulas. Ele percebe que, com Ensino Remoto Emergencial, tem uma dificuldade maior com os alunos mais novos.

“Com os pequenos, eu sinto bastante dificuldade, porque ali depende de uma aula um pouco performática. Tu tem que criar um interesse pra eles, e o pouco do interesse vem da tua figura” 

Nilo André Pena de Castro

Em meio aos desafios, a saudade do Colégio e das trocas com colegas e alunos cresce a cada dia. “A gente acaba ficando saudoso de tudo com essa limitação de espaço. Saudoso do cotidiano, do trabalho e das partes prazerosas dele”, conclui.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto JU-UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: