Novos profissionais no Litoral Norte

*Publicado na Edição 228 do JU

Bacharelado interdisciplinar| Com formação em cursos que enfocam a pluralidade, estudantes buscam espaço no mercado de trabalho
Jassen, Horrana (no alto) e Lucas são alguns dos alunos pioneiros no Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BI), oferecido no Câmpus Litoral da UFRGS. A decisão por cursarem o BI, além das quatro terminalidades disponíveis, também levou em conta as facilidades de manterem-se perto das famílias (Fotos: Rochele Zandavalli/Secom)

No final deste ano, Jassen Rodrigues Silva será o primeiro engenheiro de serviços formado pela UFRGS. Cinco anos atrás, sem muita certeza do que encontraria pela frente, chegava ao Câmpus Litoral Norte para ingressar no Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia – ou BI, para os íntimos. Natural de Tramandaí, antes de iniciar o curso, Jassen viajava três dias na semana para comparecer às aulas na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), em Canoas, onde cursava Engenharia Mecânica. Nessa época, gastava 200 reais por mês em transporte, além das despesas com alimentação e com a mensalidade do curso, sem contar as três horas de deslocamento entre sua casa e a faculdade. “Fiquei três anos lá, mas estava querendo trocar de curso, e pensei em ir para a UFRGS fazer Engenharia de Produção. Isso coincidiu com a abertura do câmpus aqui no litoral. Quando fiquei sabendo, fui pesquisar. Vi que a Engenharia de Serviços era bem parecida com a de produção e me inscrevi no vestibular. Então já vim bem direcionado para o curso”, relembra. A partir dessa decisão, estudando perto de casa, Jassen conseguiu se dedicar à vida acadêmica de maneira mais completa.

A escolha não foi fácil, visto que, quando passou no vestibular, seu filho Bernardo tinha apenas 3 meses. Até começar a frequentar a creche, acompanhava os pais até na sala de aula. “Minha esposa, Caroline, também estuda aqui, ela faz Geografia. Entramos juntos, e foi bem complicado, porque eu tive que largar o emprego. Ela trabalhava a partir do meio-dia, então dava uma segurada, mas mesmo assim pesou bastante”, desabafa. No entanto, não parece se arrepender: “É difícil explicar o que é o BI e o que ele te passa, mas é transformador”.

No primeiro semestre do BI, os alunos têm uma visão geral do curso e das áreas oferecidas. Assim, podem escolher aquela com a qual mais se identificam para se direcionar durante o bacharelado e, posteriormente, seguir para uma terminalidade. Após os três anos do curso, os egressos têm a opção de realizar o reingresso de diplomado em uma das quatro terminalidades oferecidas: Engenharia de Serviços, Engenharia de Gestão de Energia, Desenvolvimento Regional ou Licenciatura em Geografia. Para Felipe Comunello, chefe do Departamento Interdisciplinar e professor do Desenvolvimento Regional, o mais interessante do BI é a inovação do ensino interdisciplinar: “Essas terminalidades têm especificidades próprias, mas existem também inter-relações que podem ser feitas a partir do Bacharelado Interdisciplinar”.

Aluna da segunda turma do BI e a primeira integrante de sua família a entrar em uma universidade federal, a osoriense Horrana Andreoli também será, em breve, uma engenheira de serviços. Ainda que não soubesse muito bem à época do ingresso o que esperar do BI, acreditava que não tinha nada a perder: estudar no Câmpus Litoral era a única maneira viável de se formar no ensino superior. Mesmo sem condições de estudar em Porto Alegre, sempre teve em mente que faria uma faculdade. “Minha mãe sempre me incentivou. Sempre disse que não teve essa oportunidade e que ia fazer de tudo para que eu tivesse, porque é importante. Querendo ou não, conhecimento é a única coisa que fica com a gente, e ela sempre deixou isso muito claro pra mim”, relembra.

A história de Lucas Wolker é um pouco diferente. Natural de Canoas, ele reside no Litoral há mais de uma década. Por dois anos, morou em Porto Alegre, onde trabalhava em uma terceirizada da CEEE. Chegou inclusive a prestar vestibular em diferentes instituições para estudar na capital, mas quando descobriu a Engenharia de Gestão de Energia no Câmpus Litoral não teve dúvidas de que era aquilo a que queria se dedicar. “Eu sempre quis fazer um curso de Engenharia voltado para essa parte de energia, mas me interessei pela parte de gestão também. O curso é novo, mas também não é. A proposta é nova, mas as disciplinas são as mesmas do Câmpus Centro. O diferencial é mais a parte da gestão mesmo. Aqui tem o curso de energia que lá não tem, com a parte de auditorias, de regulação de mercado. Isso é o que eu acho que falta para eles… Claro que a técnica é muito importante, mas a parte da negociação, para mim, vale muito mais. Tu tem que saber todo um contexto para poder fazer as coisas de engenharia”, avalia.

Cooperação

Como se trata de um curso novo e de caráter interdisciplinar, sua dinâmica e suas diretrizes estão mais suscetíveis a mudanças. Lucas relata que ajustes foram feitos à medida que os alunos avançavam no BI, mas reconhece a importância do processo, pois foi uma oportunidade para, além dos professores, os alunos também apontarem onde identificavam lacunas. “No meio do curso, foram sendo notadas carências de algumas disciplinas. Eu, por exemplo, no oitavo semestre tive que me inscrever em uma cadeira do segundo. No semestre passado, tivemos que fazer dois laboratórios que tinham ficado para trás”, relata.

“Uma das áreas de atuação em que eu me vejo no futuro é a parte de consultoria. Isso é muito importante na região, porque ela é voltada para o turismo.”

Horrana Andreoli

Horrana conta que, no início do BI, esteve mais envolvida com o Desenvolvimento Regional, área em que chegou a realizar pesquisa de iniciação científica. Sua opção pela Engenharia de Serviços se deu mais tarde, até porque, quando entrou, ainda não havia disciplinas dessa terminalidade. Para ela, o início dos estudos no câmpus foi uma experiência de construção do curso junto com os professores. Confessa que, no começo, discentes e docentes não sabiam como seria a graduação e a passagem para as terminalidades. No entanto, acredita que os alunos que estão entrando agora conseguem ver e entender melhor como funciona o curso.

Um dos primeiros estudantes do câmpus, Jassen faz questão de conversar com os novos universitários sobre sua experiência na academia e os desafios de ser um profissional com competências ainda pouco conhecidas. “Até participei de algumas disciplinas que explicam cada terminalidade.
Os professores me convidam pra ir, eu vou, converso com o pessoal”, conta orgulhoso. Horrana ressalta que a relação dos alunos com os docentes é de troca e cooperação: “A gente tem uma conversa muito frequente com os professores em relação aos cursos. Tipo: ‘ficou ruim esse horário’. Assim conseguimos alterar a grade”.

Para a professora e diretora-geral do Câmpus, Liane Ludwig Loder, o ambiente pequeno e com um número limitado de alunos é propício para um atendimento mais individualizado. “A gente se conhece, sabe das histórias dos alunos, então os professores têm condições de ajudá-los melhor do que a um estudante que caiu de paraquedas em uma sala de aula da Engenharia com 50 alunos”, ressalta. Para o docente Felipe, o diferencial do câmpus é o ensino interdisciplinar, para além do BI. “A área de Gestão de Energia tem estas duas dimensões: a energia e a gestão. A gestão é uma área em que as pessoas podem atuar nos mais diversos âmbitos, sejam governamentais ou privados, no setor energético, mas também na gestão que tem a interface com a Engenharia de Serviços, que é focada na economia dos serviços. E está relacionada também com a terminalidade de Desenvolvimento Regional, que forma gestores públicos”, enfatiza.

Perspectivas

Felipe aponta a importância da interdisciplinaridade em um mercado de trabalho competitivo. “Esse contexto é propício a profissionais que tenham a flexibilidade que o BI tem, que é o conhecimento em diferentes áreas”, afirma. Contudo, por ser um curso com modalidades novas, o desconhecimento da indústria para com esse profissional resulta na falta de vagas específicas. Para Liane, é uma questão de cultura, de tempo, para que se entendam e se apreendam as qualidades dessas novas áreas. “Os cursos tradicionais, como Engenharia, Direito, Medicina, estão mais na cabeça das pessoas. É difícil a gente criar essa nova cultura. Todas as instituições que têm essa modalidade do BI relatam dificuldades de as pessoas entenderem. Então não é diferente a nossa dificuldade, ainda mais aqui na região, de fazer as pessoas entenderem que é um curso com muitas possibilidades”, diz.

Tanto Engenharia de Gestão de Energia quanto Engenharia de Serviços são cursos novos. Deles, sairão profissionais com qualificações e especialidades que ainda não possuem muita demanda no mercado. Para Jassen, o empecilho maior é a falta de conhecimento das empresas sobre o que esse profissional pode fazer: “Tu identifica essa falta de profissionalismo na questão de serviços aqui do litoral, tem um campo muito grande para trabalhar, mas tu vai ter que mostrar por que isso é importante, o que eles podem desenvolver aqui. Acho que a gente vai ter que trabalhar bastante pra conseguir abrir as portas para a Engenharia de Serviços aqui no litoral”.

Horrana tem a mesma preocupação. Para ela, a falta da exploração das potencialidades desses novos profissionais que estão chegando ao mercado de trabalho dificulta o ingresso dos formandos. “Uma das áreas de atuação em que eu me vejo no futuro é a parte de consultoria. Isso é muito importante na região, porque ela é voltada para o turismo. Só que, mesmo assim, não utiliza todas as potencialidades de turismo que poderia. Por exemplo, em uma rede de hotéis, criar um convênio com alguma empresa de turismo, todas essas coisas um profissional da Engenharia de Serviços poderia ajudar a fazer acontecer”, explica.

Para Liane, é importante que a comunidade reconheça o método de ensino como algo inovador e que responde às demandas da região nas áreas de energia, desenvolvimento e serviços. “Estamos sempre discutindo, refletindo sobre os cursos. Estamos evoluindo e ocupando todos os espaços que a Universidade tem como missão: formação de graduação, formação de pós-graduação, extensão. Para a comunidade local nos conhecer, nos entender, para saber o que a gente está fazendo”, enfatiza.

Recepção no mercado de trabalho

“O Lucas é o primeiro e por enquanto o único aluno do Câmpus Litoral Norte a estagiar na prefeitura de Imbé, mas sem dúvida a apresentação feita sobre o curso e as possibilidades de aplicação do conhecimento que ele propicia foram fundamentais para definir sua lotação”, revela Maria Luiza Morerzsohn Gonçalves Ramos, Secretária Municipal de Administração de Imbé. Lucas conseguiu uma vaga na sua área apenas no fim da graduação devido às dificuldades de conciliar os horários das disciplinas com as horas exigidas no estágio, mas, sobretudo, em função da falta de demandas específicas para a sua função: “Quando entrei, fiz um projeto para o edital de licitação das luminárias. Quando terminei, comecei a fazer a ata de preços de materiais. Essa ata já existia, só que não estava formatada de acordo com a norma. Esse trabalho é muito importante porque, na hora de comprar o material, evita que se comprem coisas erradas”.

Quando Jassen conseguiu um estágio na sua área, foi preciso mais do que descrever sua formação acadêmica. “No meu currículo, não basta ter ali que eu fiz o BI e a Engenharia de Serviços. Tenho que anexar sempre uma explicação do que é o curso”, revela. Ele lembra que, ao se candidatar para um estágio em uma empresa em Santo Antônio da Patrulha, precisou se inscrever como engenheiro de produção e, no dia da entrevista, explicou o que era a Engenharia de Serviços e as competências que cabem a esse profissional. “Mercado para engenharia aqui no litoral é bem complicado, não tem muita oportunidade”, desabafa.

No primeiro semestre deste ano, Horrana teve a oportunidade de fazer uma consultoria para o Hotel Mares do Sul, em Tramandaí, por meio de uma parceria entre a empresa e o Câmpus Litoral Norte. Claudia Matias, funcionária do hotel, conta que os alunos fizeram projetos sobre orçamentos e viabilidade de implantações e padronização de imagem tanto de uniformes quanto da identidade visual. “Achamos bem interessante o olhar mais abrangente dos estudantes que nos visitaram. Acho importante que as empresas da região recebam os alunos durante o curso, até para entender onde o mercado pode absorver esse profissional depois de formado”, enfatiza.


Karoline Costa e Natalia Henkin

Estudante de Jornalismo da UFRGS