Nutricionistas da UFRGS acompanham alunos beneficiários da assistência estudantil na organização de uma rotina alimentar saudável

Saúde | Núcleo de Assistência Nutricional já recebeu 300 solicitações de atendimento nesta quarentena e busca auxiliar e controlar compulsão alimentar relacionada à ansiedade

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

A necessidade de isolamento social imposta pela pandemia de coronavírus mudou a rotina alimentar de muitos brasileiros. Uma pesquisa do Ministério da Saúde revelou que quase 40% dos entrevistados tiveram falta ou aumento de apetite neste período, motivo que levou ao aumento da demanda por atendimento nutricional na UFRGS. Por semana, pelo menos três novos pedidos de acompanhamento chegam ao Núcleo de Assistência Nutricional (NAN), que já soma 300 solicitações nesta quarentena.

Oferecidas presencialmente desde outubro de 2018, ano em que o NAN foi criado, as consultas com as nutricionistas passaram a ser realizadas por videochamada em abril para atender às recomendações de distanciamento social. O serviço pode ser solicitado por qualquer um dos cerca de 4 mil alunos com direito à assistência estudantil da Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (Prae). Entre estes estão os estudantes que ingressaram na instituição pela cota de restrição de renda ou pelo Processo Seletivo Especial para Indígenas, os que se declaram quilombolas e os que se encontram em situação de baixa renda ou refúgio

Embora o atendimento nutricional já estivesse à disposição desses discentes, em junho, as quatro nutricionistas do NAN que realizam o serviço decidiram divulgá-lo por e-mail para todos. Como resposta, receberam cerca de 250 solicitações imediatas e, desde então, novos pedidos têm chegado semanalmente. Coordenadora do núcleo, a nutricionista Stéfani Almeida Schneider conta que a ação de divulgação foi motivada pelas notícias de impacto negativo da pandemia na alimentação, como o aumento da compulsão alimentar relacionada à ansiedade. Também em junho, uma pesquisa divulgada pelo Instituto Ipsos mostrou que os brasileiros eram os que mais sofriam de ansiedade por causa do período de isolamento social entre moradores de 16 países. 

“Muitos alunos relataram aumento de peso nessa quarentena porque estavam comendo demais. Isso pode ter relação com a depressão, a ansiedade e a falta de rotina. Também têm aqueles que comem por tédio, porque ficar em casa facilita o hábito de ficar ‘beliscando’ o dia inteiro. É o comer pelo emocional”

Stéfani Almeida Schneider

Com horário para 16 consultas semanais, o NAN tem atendido estudantes pela ordem de chegada das solicitações. Em geral, os alunos recebem alta depois de seis meses de acompanhamento, após conseguirem adotar hábitos alimentares saudáveis, mas alguns casos são prolongados. Por causa da alta demanda durante a pandemia, há consultas marcadas até abril de 2021. “O atendimento online nos permitiu chegar em alunos que talvez não tivessem disponibilidade de ir até a Casa do Estudante do Centro, onde eram realizadas as consultas presenciais, como os que estudam no Litoral Norte. Temos atendido também alunos que, por causa da suspensão das aulas presenciais, voltaram para a casa dos pais em outras cidades e estados”, conta Stéfani. 

Enquanto esperam atendimento, alunos podem fazer perguntas ao NAN pelas redes sociais do blog Laranja na Colher, onde as nutricionistas têm realizado lives sobre diversos temas relacionados à alimentação. No Instagram, elas também criaram a ação “Nutri Responde”, onde abrem caixas de perguntas para os seguidores. “Também estamos estudando criar grupos de atendimento online para diminuir a fila de espera. Presencialmente, já realizamos encontros com vegetarianos que tiveram ótimos resultados, porque as dúvidas são muito parecidas e há uma troca muito interessante entre os participantes. Pessoas com restrições alimentares, como intolerantes à lactose, também podem formar grupos, por exemplo”, relata a nutricionista.

Alunos melhoraram a autoestima após mudarem a rotina alimentar

Graduanda de Administração, Andressa Reis dos Santos conta que procurou o atendimento do NAN porque a pandemia “bagunçou” a rotina alimentar sua e do marido. “Passamos a pedir muito fast food, e eu comecei a comer várias vezes ao dia por ansiedade”, relata.

Com o acompanhamento nutricional, descobriu que estava com o colesterol ruim (LDL) alto e com o bom (HDL) baixo. “Nos dois primeiros meses, foi bem difícil criar uma rotina alimentar, porque eu estava com baixa autoestima, acima do peso e sem vontade de cozinhar. Não tinha horário para acordar, tomar café ou almoçar”, conta.

A partir das orientações da nutricionista, Andressa estabeleceu horários para as refeições, passou a substituir as tele-entregas de lanches por pratos feitos em casa e a fazer caminhadas duas vezes por semana com o marido. 

“A nutricionista manda receitas por e-mail com alimentos que eu gosto, como sardinha. Isso me motivou a cozinhar. Também não tinha hábitos de comer vegetais; hoje sinto falta se não tem no prato. Já perdi 10 quilos e estou com a autoestima muito mais elevada”

Andressa Reis dos Santos

Outro ponto positivo foi economizar com a alimentação, já que o delivery de alimentos prontos é mais caro do que a compra dos ingredientes no mercado ou na feira. Entre as receitas que aprendeu com a nutricionista, diz que virou fã do requeijão caseiro.  

Andressa Reis dos Santos, estudante do curso de Administração, faz consultas regulares com as nutricionistas do NAN e tem seguido na medida do que lhe é possível as prescrições. Aponta o acompanhamento frequente e disponível como uma das qualidades dos profissionais do serviço (Fotos: Flávio Dutra/JU)

Estudante de Artes Visuais, Lucas Alves de Farias também procurou atendimento do NAN na pandemia. Após a morte do pai, ele conta que desenvolveu uma compulsão alimentar, o que resultou no aumento do peso e na baixa da autoestima. Sem vontade de cozinhar, acostumou-se a comer lanches ou comidas ultraprocessadas de rápido preparo, como macarrão instantâneo. Na pandemia, também começou a passar as noites acordado e “beliscando”.

“A nutricionista compreendeu as questões por que eu estava passando e ensinou passo a passo como melhorar, com metas para eu cumprir. Tem uma didática excelente. Gostei muito da metáfora que ela usou de que era preciso chegar às ilhas nadando aos poucos”

Lucas Alves de Farias

O graduando conta que entre as principais mudanças está a substituição do refrigerante e dos sucos de saquinho por sucos das frutas in natura e a redução dos alimentos processados e ultraprocessados da dieta, o que contou com a ajuda do aplicativo “Desrotulando”, indicado pela nutricionista. “Você escaneia o rótulo e ele te mostra se o alimento é muito ou pouco processado, ensina a escolher a opção mais saudável. Com o app, pude ver o quanto alimentos que eu comia muito, como ketchup e mostarda, são ultraprocessados e piores para a saúde”, explica.

Lucas também passou a fazer caminhadas frequentes e conta que tanto o sono quanto a autoestima estão melhores. “Passei a dormir mais cedo após a adoção desses hábitos mais saudáveis. Se tenho vontade de comer fora de hora, deixo uma salada pronta”, diz o estudante, que também passou a acompanhar as redes sociais do Laranja na Colher. “O NAN democratiza e populariza os saberes”, elogia.

Estudante procurou atendimento para resgatar o autocuidado

Após um 2019 frenético, com os turnos ocupados pelas aulas e pelo estágio obrigatório do curso de Serviço Social, a graduanda Tiele Leote da Silva viu no novo ano uma oportunidade para resgatar o autocuidado. Solicitou atendimento no NAN em fevereiro, um mês antes da suspensão das atividades presenciais da UFRGS, mas começou a ser atendida na pandemia, por videochamada.

Vegana há quatro anos, ela já procurava levar uma alimentação saudável e sustentável, mas tinha pouco tempo para cozinhar em casa. Por isso, era uma “grande consumidora dos restaurantes universitários”, como se definiu, pois almoçava no RU do Câmpus Centro e jantava no RU do Câmpus Saúde. Na pandemia, o atendimento do NAN a auxiliou a preparar as refeições, armazenar alimentos e complementar a dieta baseada em frutas e vegetais com mais sementes e oleaginosas.

“A quarentena foi uma possibilidade para eu cuidar mais de mim e do que fosse comer. O atendimento do NAN desmitificou o pensamento que eu tinha de que a nutricionista seria rígida e iria dizer ‘corta isso e corta aquilo’. Ela foi muito compreensiva e me ensinou a adicionar alimentos que eu não comia na rotina, como a chia, a linhaça e as castanhas” 

Tiele Leote da Silva

A graduanda conta que gosta muito de receber os e-mails do NAN com receitas e que também indicou sites de culinária vegana para a nutricionista. “Ela foi sempre respeitosa, indicando adaptações das receitas para contemplar o vegetarianismo estrito”, completa.