O andamento das pesquisas e a saúde mental de pós-graduandos durante o isolamento social

Ciência | Atividades suspensas, pressão por produtividade e cortes nas bolsas têm afetado acadêmicos

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Muitos pós-graduandos estão habituados a longas jornadas de trabalho na produção científica teórica, nos laboratórios e nas pesquisas de campo. Entretanto, com a suspensão das atividades presenciais por causa da pandemia de coronavírus, somada à situação de isolamento social, muitos não estão conseguindo produzir suas teses e dissertações ou prosseguir com seus projetos de pesquisa, o que gera atrasos nos trabalhos.

Antes da quarentena, Carolina Girardi, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular, passava a maior parte do tempo na bancada do Laboratório de Bioquímica da UFRGS. Agora, não está realizando experimentos que seriam essenciais para a fase atual da sua pesquisa. Segundo a ela, neste período de isolamento social, é importante que as agências de fomento à pesquisa e as instituições encontrem formas de flexibilizar os prazos, de manter as atividades e de avaliar alunos e professores de forma justa.

“Eu deveria estar fazendo experimentos, mas como não posso estar lá estou atrasando várias coisas. Tenho medo de isso me prejudicar. A gente já estava em um cenário de desmotivação e sem saber como ficaria a questão de desenvolvimento de ciência no país. Agora, as coisas estão um pouco mais incertas do que eram antes.”

Carolina Girardi

O funcionamento dos laboratórios é definido pelos institutos aos quais estão vinculados. O Laboratório de Bioquímica, onde Carolina realiza seus experimentos, manteve-se aberto apenas para experimentos com animais ou de longa duração que já estavam em andamento e cuja interrupção representaria um prejuízo significativo. Por isso, técnicos e terceirizados estão em regime de revezamento, para minimizar a quantidade de pessoas no espaço. Aos pesquisadores, a orientação foi de que fossem ao laboratório apenas para atividades indispensáveis.

Carolina, que estuda como uma substância usada contra o câncer atua sobre células do sistema nervoso, não está realizando experimentos (Foto: Flávio Dutra/JU)

A maior parte das atividades da pós-graduação também foi suspensa. Na UFRGS, as bancas presenciais de teses e dissertações foram interrompidas por 60 dias e algumas apresentações estão sendo realizadas virtualmente, conforme recomendação da CAPES. Já para reduzir o impacto do isolamento sobre as aulas, a decisão da Universidade é de que as atividades de ensino podem ser aplicadas na modalidade Ensino a Distância (EaD), desde que com aprovação das respectivas comissões de pós-graduação, o que tem sido um desafio para alunos e professores. No grupo de pesquisa de Carolina, seminários com grupos e reuniões com os orientadores estão sendo realizados de forma remota.

Associação de estudantes pede flexibilização de prazo

Estudar, ler textos científicos, escrever e analisar resultados são algumas das atividades que os pesquisadores conseguem realizar em casa. Jaqueline Silinske, coordenadora geral da Associação de Pós-graduandos da UFRGS (APG), salienta que é necessário ter cuidado com as demandas produtivas excessivas e afirma que esse período acaba prejudicando o processo de reflexão dos estudantes na escrita de suas teses e dissertações. Ela recomenda que os pesquisadores se mantenham atualizados sobre seus objetos, mas com o cuidado de não cair na insegurança por não estar conseguindo avançar na pesquisa. 

“É importante levar em conta o contexto em que estamos vivendo e ter uma análise reflexiva: o que eu consigo fazer diariamente e o que são pressões externas?”

Jaqueline Silinske

Por causa do isolamento social, a APG pede que a Pró-reitoria de Pós-graduação (Propg) prorrogue todos os prazos dos programas de pós-graduação de modo uniforme na Universidade. Até o momento, Jaqueline explica que a decisão de adiamento ou não está sendo tomada de modo isolado por cada programa. 

Para a pós-graduanda, unificar a medida é essencial para preservar a saúde mental dos pesquisadores, um dos fatores decisivos na produção científica. Uma pesquisa realizada em 2018 pela Universidade de Brasília (UnB) mostrou que os estudantes de pós-graduação têm uma rotina que gera, para muitos, ansiedade, estresse, desânimo, pensamentos de autocobrança excessiva e até mesmo ideação suicida, entre outras condições que afetam a saúde mental. 

Sentimentos que têm se agravado durante o isolamento social, conforme Jaqueline. Por isso, ela argumenta que, durante a quarentena, é ainda mais importante manter o equilíbrio entre o trabalho acadêmico, a saúde física (com exercícios) e a mental (com acompanhamento psicológico, se possível). E tudo sem esquecer a principal função do distanciamento: “É importante que os pós-graduandos fiquem em casa e tenham os cuidados necessários, cuidem de si e da família”, acrescenta.

Cortes afetam programas de pesquisa

Enquanto os prazos preocupam os estudantes no final da pesquisa, alguns nem tiveram a oportunidade de começá-la. Em março, a Portaria 34/2020 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) restringiu o número de bolsas em programas de pós-graduação das instituições de ensino superior. Na UFRGS, mais de 200 bolsas de mestrado e doutorado foram suspensas, inclusive de alunos que já tinham assinado o contrato do benefício. A Universidade se manifestou defendendo a revogação da portaria.

Jaqueline afirma que o auxílio permite que o estudante consiga realizar com dedicação o mestrado e o doutorado. “A origem dos pesquisadores é, em geral, de uma classe de trabalhadores que entra na universidade por meio de uma política de ampliação do acesso ao Ensino Superior e que necessitam da bolsa para poder se manter e executar seu trabalho. Um dos papéis do pós-graduando é fazer pesquisa voltada à tentativa de descobrir algo para conter esse vírus e contribuir com diferentes iniciativas para atuar na saúde pública”, completa a estudante.

Ciência auxilia no combate ao coronavírus

– No Brasil, 80% das pesquisas em ciência e tecnologia estão ligadas a programas de pós-graduação, dos quais 4 em cada 5 pertencem a instituições públicas.

– Em meio à pandemia de uma doença que não tem cura nem remédio, a pesquisa científica parece ser o refúgio onde a sociedade deposita suas esperanças.

– A UFRGS, por exemplo, está realizando testes de coronavírus em profissionais da saúde, para que eles não tenham de ser afastados do trabalho quando apresentam os sintomas da covid-19.

– Pesquisadores da Universidade também estão participando de outras iniciativas que contribuem para combater a pandemia, como a produção de álcool em gel e equipamentos de proteção individual.