O desafio da escolha

Depois de se apaixonar por televisão ainda criança, Victor Sander busca uma vaga no curso de Jornalismo (Foto: Gustavo Diehl/Secom)
Ensino Superior | Ao entrar na universidade, os estudantes precisam pesar diferentes aspectos entre a formação e a carreira

Depois de perambular por diferentes opções de curso – de Teatro a Relações Internacionais –, Rodrigo Ferreira decidiu prestar vestibular para Relações Públicas. Aluno, no ano passado, do cursinho oferecido pelo Projeto Educacional Alternativa Cidadã (PEAC), o estudante conta que, por algum tempo, almejar uma vaga na UFRGS era uma realidade distante, mas, após conhecer pessoas que estudam na instituição, ele percebeu que ter o diploma na área pode abrir portas num segmento em que já vem atuando. Dúvidas como as de Rodrigo são partilhadas por parte dos jovens assim que concluem o ensino médio e projetam o ingresso no ensino superior. Esse momento pode envolver uma diversidade de fatores pessoais. Não obstante, é possível fazer a seguinte reflexão: o que motiva essa escolha é uma razão imediata e instrumental, ligada a uma preparação mais direta para exercer certa profissão; ou se, além dessa finalidade, há também espaço para idealizar uma formação que contemple aspectos éticos ligados ao exercício da profissão.

Professora da Faculdade de Educação da UFRGS (Faced), Simone Bicca Charczuk alude à formação como um processo de constituição do sujeito mais abrangente do que a profissionalização. “Na minha concepção, ela inclui uma dimensão ética que vai além da aprendizagem de ferramentas, recursos e estratégias de intervenção de uma profissão. Já a profissionalização, entendo-a como algo diretamente voltado a uma dimensão mais técnica. Não são processos excludentes, pois estão imbricados, podendo um se sobressair em determinados contextos e situações formativas”, pondera.

Diante dessas perspectivas complementares, é forçoso pensar como o ensino superior se apresenta para diferentes públicos, especialmente sob um recorte socioeconômico. Para Victor Sander, que comenta ter se apaixonado por televisão já aos 11 anos de idade e decidiu concorrer a uma vaga no curso de Jornalismo, a busca pelo ensino superior vem revestida tanto de uma motivação instrumental como de uma busca por prestígio e capital cultural. “É um meio de crescer na vida, uma forma de evoluir. Na minha família ninguém tem diploma de nível superior”, relata o estudante que também frequentou o PEAC no ano passado. Ao mesmo tempo, espera que a universidade possa ajudá-lo a ser um profissional competitivo. “Vejo que muitas pessoas não conseguem o que querem no mercado. Nesse caso, apenas uma formação não basta; é necessário um direcionamento profissional”, emenda.

Ceticismo

No caso de Rodrigo, o percurso que o levou a tentar uma vaga em Relações Públicas ajuda a tecer a trama das motivações que influem na sua decisão. Em sua atuação como promotor de eventos em algumas agências, sente-se limitado, realizando tarefas simples. Ele almeja poder criar, resolver problemas, participar dos bastidores. “Eu quero me formar e abrir portas para novas possibilidades”, reforça.

O cientista social Henrique Costa alerta, no entanto, que isso pode resultar em uma armadilha. Ele revela que essa trajetória do jovem que já se encontra no mercado de trabalho era comum entre os estudantes que participaram de sua pesquisa de mestrado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo – um estudo com bolsistas do Programa Universidade para Todos (Prouni) no estado de São Paulo. O que ele constatou entre esse público foi um ceticismo em relação ao ensino superior, como um esforço que não traz retornos para suas vidas. “O problema é que, na maioria das vezes, esses jovens já fazem o curso trabalhando, mas o diploma não garante sua permanência no emprego, muito menos garante que consigam subir na carreira. É muito difícil atualmente, só com a formação universitária, principalmente se realizada em universidades privadas de baixa qualidade – caso dos prounistas –, almejar algo muito além de um cargo mediano. O investimento de tempo sem um retorno é muito frustrante”, pontua.

Henrique acrescenta que, entre os jovens que acompanhou, a expectativa em relação às universidades públicas é muito baixa, mesmo com a política de ações afirmativas. “Muitos já não veem vantagem, porque precisam ficar dois anos ou mais tentando entrar”, afirma. Segundo ele, o jovem de periferia tem que fazer um cálculo muito elaborado para avaliar se vale a pena passar um ano fazendo um cursinho. “Conversei com muitos que diziam que não precisavam fazer a universidade, pois aprendiam tudo o que necessitavam pela internet; então, o diploma se torna um obstáculo, não algo que almejassem ou considerassem como fator que alavancaria sua condição de vida. Muitas vezes a universidade é algo até doloroso, já que trabalham e estudam ao mesmo tempo – é uma rotina cansativa.”

A professora Simone Bicca Charczuk, psicóloga e doutora em Educação pela FACED, pondera que a falta de reconhecimento e a não garantia de retorno financeiro de algumas profissões são elementos que contribuem para produzir a desilusão para com o ensino superior. “Formar-se não se esgota na colocação no mercado de trabalho, porém, como a nossa organização social demanda que tal colocação (no mercado formal ou informal) seja a garantia da subsistência, o engajamento em processos formativos pode ser colocado em segundo plano.”

Ela entende que, num recorte socioeconômico, a maior oportunidade de fazer investimentos na formação pessoal está ao alcance de alunos das classes mais favorecidas economicamente; a necessidade de ganho financeiro no geral mobiliza o jovem de classes populares a se envolver em processos mais pragmáticos de profissionalização. “Infelizmente, alguns estudantes possuem urgências econômicas que exigem engajamento em cursos mais rápidos e instrumentais, com a expectativa de construírem recursos que garantam um emprego.” A docente frisa, porém, que isso não significa que a situação econômica seja uma barreira definitiva.

“…ter um diploma não basta; o aprendizado só faz sentido se compartilhado com a população que realmente precisa.”


Josana Gomes

A formação como garantidora de uma dimensão ética, complementar ao caráter mais técnico da profissionalização, pode ser encontrada no relato da caloura da graduação em Políticas Públicas Josana Gomes, para quem a universidade, mais do que o lugar em que é possível conquistar uma carreira, é onde se podem adquirir conhecimentos para mudar a realidade do local em que se vive. “Me interessei pelo curso porque na periferia as coisas são mais difíceis de conseguir, e essas dificuldades nunca são combatidas. A gestão pública é precária. Acho que, quando uma pessoa que sofre essa realidade chega a um lugar como a universidade, ela pode ser ouvida e pode trazer melhorias”, afirma. A estudante acredita que ter um diploma não basta; o aprendizado só faz sentido se compartilhado com a população que realmente precisa.

Perspectivas

Se, por um lado, muitos jovens fazem um cálculo elaborado para avaliar a viabilidade de frequentar o ensino superior como forma de melhorar sua colocação profissional, há também estudantes que chegam ao final da graduação e não conseguem vislumbrar o futuro. Mestranda em Psicologia, Adriana Malheiros Sacramento explica que, para conceber um planejamento de carreira, o estudante precisa realizar uma busca por autoconhecimento e por informações sobre a sua área de formação, a profissão e o mercado de trabalho.

“Os estudantes podem começar por uma reflexão sobre o que procuram realizar com o seu trabalho, quais as suas prioridades, os seus valores e os seus interesses profissionais”, propõe. Se parecer difícil identificar com o que gostariam de trabalhar no futuro, um modo de começarem, sugere Adriana, é pensar nas experiências vividas ao longo da formação, observando o que despertava maior interesse. Após compreenderem o que desejam, devem traçar seus objetivos e estabelecer o que é necessário para alcançá-los, para, assim, se prepararem adequadamente. “Todo este preparo”, adverte a psicóloga, “deveria idealmente estar presente em toda a formação para que o aluno aproveite o tempo na universidade para explorar diversas experiências, como estágios, atividades de extensão e iniciação científica, cursos e eventos.”

Esse foi o percurso realizado por Tallis Fernando Mendes, que se formou recentemente no Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BICT) – ofertado no Câmpus Litoral Norte – e ingressou no mestrado em Ciência de Materiais. “A partir da bolsa de monitoria presencial de uma disciplina, comecei a gostar de estar em frente ao quadro ensinando e explicando o conteúdo aos colegas. Depois, comecei a dar aulas particulares em casa para conseguir dinheiro e percebi que era isso mesmo o que eu queria. O curso me ajudou na decisão de seguir a carreira acadêmica. Ao concluir o BICT, aproveitei a oportunidade de realizar a prova para o mestrado e, assim, dar início a minha carreira acadêmica. Espero seguir para o doutorado e, um dia quem sabe, me tornar professor da UFRGS”, revela.

Já Kalil Hakihito Schu, também formado no BICT, segue examinando suas alternativas de carreira. “Confesso que meu futuro no mercado de trabalho ainda é meio misterioso para mim”, revela. Isso se deve, em parte, ao fato de que, entre as opções disponibilizadas aos egressos do BICT, ele optou por se especializar na área de Desenvolvimento Regional, curso que está sendo ofertado pela primeira vez no Brasil em nível de graduação e recentemente recebeu o reconhecimento do Conselho Regional de Administração. “Sei que o futuro é promissor”, garante o estudante.

A mestranda Adriana Malheiros Sacramento, enfatiza que é importante ter um planejamento de carreira para fazer a transição para mercado de trabalho. Outro ponto importante é estabelecer uma rede de contato com profissionais que se apoiem mutuamente, fazendo inclusive indicações para vagas de emprego. “A maioria das oportunidades surge por meio das redes de contato, e não de anúncios. Além disso, é importante entender que a colocação do profissional de nível superior no mercado de trabalho pode demorar alguns anos. Tal situação não deveria ser vista como um fracasso, e, sim, como um percurso comum na trajetória de muitos profissionais que conquistam o seu espaço.”

No entanto, não se pode ignorar, retornando à argumentação do cientista social Henrique Costa, que muitos jovens não podem se dar ao luxo de esperar esse tempo; tampouco têm acesso facilitado a uma rede de relacionamentos com pessoas em posições influentes. “A forma como o sistema educacional, o mercado de trabalho e a ideologia contemporânea estão estabelecidos, tudo dificulta para que a vontade de atingir um ponto maior na carreira se concretize”, esclarece.

Uma graduação peculiar

Kalil Hakihito Schu diz que escolheu cursar o Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BICT) por acaso: não conhecia sua proposta e optou por ele porque era ofertado no Câmpus Litoral Norte, região em que mora. “Hoje fico muito feliz pelo acaso, pois é um ótimo curso, com uma dinâmica interdisciplinar que forma um profissional muito versátil e permite contato com muitas áreas do conhecimento. No BICT, os engenheiros têm aula de filosofia, e a galera das humanas assiste a aulas de matemática, o que dá um novo formato e perspectiva de mundo para esse profissional; é genial!”, exalta. Agora que está formado, vai seguir para o Desenvolvimento Regional, uma das quatro terminalidades – curso que é uma espécie de continuação do bacharelado, enfocando área específica e que garante um segundo diploma aos egressos do BICT – disponíveis para quem conclui o primeiro ciclo. As outras são Licenciatura em Geografia, Engenharia de Gestão de Energia e Engenharia de Serviços.

Diferentemente de Kalil, Luiza de Souza Ferreira, que ingressou no bacharelado no ano passado, diz que conhecia a proposta e já entrou com a intenção de se formar em Engenharia de Serviços. “O curso vem me surpreendendo de uma forma positiva, o que abre caminhos e acaba modificando a visão profissional que imaginamos ao entrar na graduação”, revela.

Para muitos alunos do BICT, a existência do câmpus em Tramandaí foi decisiva para o ingresso na Universidade (Foto: Ramon Moser/Arquivo Secom)

Uma das responsáveis pela construção do projeto pedagógico do BICT, a professora Liane Ludwig Loder, atualmente diretora-geral do câmpus, comenta que a vantagem dessa graduação é que o aluno entra sem a necessidade de ter uma definição exata do curso que deseja fazer, dispondo de tempo para identificar como irá se desenvolver. Além disso, por ser de curta duração – pode ser concluído em três anos –, o jovem tem como se colocar rapidamente no mercado de trabalho. A maior parte dos egressos, no entanto, opta por seguir uma das terminalidades, principalmente na área de Engenharia. “Uma vez que o estudante se define por uma linha de formação, num período em que faria qualquer outro curso da Universidade (por volta de cinco anos), ele tem a possibilidade de ter dois diplomas”, pontua.

Apesar dessas vantagens, o BICT ainda tem uma procura muito baixa e enfrenta dificuldades para preencher todas as suas 180 vagas anuais. Liane comenta que, nas atividades de divulgação do curso em escolas da região, tem observado uma alta evasão do ensino médio e muitos jovens que buscam diretamente o mercado de trabalho, pois consideram que a universidade não está em seu horizonte de possibilidades. Ainda que, faz questão de registrar, haja uma diversidade muito grande de situações.

Entre as pioneiras na criação de bacharelados interdisciplinares no Brasil estão a Universidade Federal da Bahia e a Universidade Federal do ABC, no estado de São Paulo. Nesta, fundada em 2005, a modalidade de graduação é a única opção de ingresso. Segundo a Assessoria de Comunicação da instituição, já existe um conhecimento maior dos cursos na sociedade, o que faz com que não tenham problemas para preencher as vagas. Ainda assim, a universidade mantém a divulgação dos bacharelados, especialmente aos vestibulandos. Entre as ações realizadas está o projeto UFABC nas Escolas, que atende alunos do ensino médio – cerca de quatro mil por ano –, oferecendo palestras nas escolas e colégios da região ou visitas monitoradas nos câmpus da Universidade.

Olhar de repórter

A pauta, que surgiu bem perto do fechamento da edição, teve início numa conversa da qual saiu nossa pergunta: o que guia a escolha de curso pelos estudantes? Será que é mais determinante uma razão prática de se encaixar logo no mercado de trabalho? Ou haverá um imaginário da universidade como local de acumulação de capital cultural? A questão vinha também da dificuldade de compreensão de alunos do ensino médio sobre o Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia oferecido no Câmpus Litoral – por isso, ele é discutido no final da reportagem. A construção do texto final foi um desafio, pois buscamos diversas entrevistas e nos demos conta de que corríamos o risco de ser conduzidos por uma tese nossa. Então, voltamos às entrevistas e deixamos as fontes conduzirem a construção da matéria – isso fez, por exemplo, que os vestibulandos, que originalmente viriam no fechamento, trocassem de lugar com o BICT, que acabou se tornando a retranca (trecho à parte no final da reportagem).