O fim da Era Merkel e o futuro da Alemanha

Artigo | Doutorando no PPG em Estudos Estratégicos Internacionais, Guilherme Thudium avalia as posturas adotadas pela primeira-ministra frente a diferentes crises em um cenário de déficit de lideranças e consensos regionais europeus

*Por: Guilherme Thudium
*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

A eleição federal de 2021 na Alemanha, ocorrida na última semana de setembro, simbolizou o fim da Era Merkel. Após 16 anos ocupando a posição de chefe de governo, Merkel se tornou a primeira chanceler na história política alemã a não buscar reeleição. Paradoxalmente, contudo, ela permanece incumbente. Isso porque o vencedor, o Partido Social-Democrata (SPD), de Olaf Scholz, não atingiu a faixa de votos necessária para formar um novo governo de maneira autônoma – o que é comum no sistema eleitoral alemão.

Iniciaram-se, assim, as complexas tratativas de formação de uma coalizão governante. No último pleito federal, em 2017, esse processo durou cerca de quatro meses. É nesse cenário que partidos menores que tiveram bom desempenho, como os Verdes e o Partido Democrático Liberal (FDP), adquirem importância. A União Democrata-Cristã (CDU), partido de Merkel liderado pelo pouco carismático Armin Laschet, teve seu pior desempenho na série histórica da aliança CDU/CSU, apesar do alto nível de aprovação da chanceler.

Ao que tudo indica, Merkel não elegerá um sucessor. Isso não desmerece, contudo, o seu legado pessoal e político. Em uma conjuntura internacional polarizada e imprevisível, Angela Merkel virou sinônimo de estabilidade e pragmatismo.

A Era Merkel é paradigmática por vários motivos, mas vale ressaltar que, além de se tornar a primeira mulher a assumir o posto de chanceler na história da Alemanha, ela foi também a primeira líder oriunda da Alemanha Oriental a ocupar o cargo após a reunificação em 1990. Apesar de ela ter nascido em Hamburgo, sua família mudou-se para o leste quando ela tinha menos de um ano, em 1954. Com passagens pela Universidade de Leipzig e pela Academia de Ciências da RDA, tanto sua formação acadêmica como sua juventude política remontam à antiga Alemanha Oriental – tendo sido premiada por sua fluência na língua russa e por sua tese doutoral em química quântica.

Por esse motivo, como nos lembra o historiador austríaco Philipp Ther, a sua ascensão foi significativa para alterar estereótipos interalemães, ajudando a equilibrar assimetrias e desigualdades entre o leste e o oeste que se mantêm desde a queda do Muro de Berlim. Sua trajetória política, para tanto, teve de ser conduzida com flexibilidade, predicado que marcou também a sua postura internacional.

O longo governo Merkel, em especial o segundo (2009-2013) e o terceiro (2013-2017) dos seus quatro mandatos como chanceler, foram marcados por uma multiplicação de crises na União Europeia (UE): em 2009 houve a crise do Euro; em 2015 a intensificação da crise migratória; e em 2016 o referendo para a saída do Reino Unido do processo de integração. Se a crise do Euro revelou também uma grave crise social, e não somente da dívida pública, a crise migratória teve, por outro lado, contornos políticos significativos para além do problema humanitário, com a ascensão de movimentos populistas e forças políticas eurocéticas por toda a Europa.

As crises colocaram pressões adicionais sobre o já fragilizado processo de integração, tornando a Alemanha de Merkel sua principal articuladora. A indisputada superioridade econômica do país passou a ser acompanhada de pressões para que assumisse responsabilidades políticas equivalentes, reafirmando sua centralidade no tabuleiro europeu. Ainda que aparentemente hesitante em desempenhar um papel de maior responsabilidade internacional, Merkel se viu forçada, mais pelas circunstâncias do que por política de poder, a tomar uma posição de liderança continental.

A Alemanha foi pouco afetada pela crise do Euro – sua economia, pelo contrário, foi reforçada durante o período, em boa medida graças à diversificação das suas relações exteriores com economias emergentes distantes das matrizes financeiras anglo-americanas que deram origem à crise financeira global. Foi no contexto da crise que a Alemanha se tornou o maior credor dentre os países-membros da Zona do Euro, fator que conferiu à administração Merkel poder de decisão sobre o futuro monetário de outras nações soberanas, porém devedoras.

Já a resposta política ao fenômeno migratório foi observada, por exemplo, na ascensão de partidos de extrema-direita por toda Europa, como o Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland – AfD), que se destacou nas eleições de 2016 (estaduais) e 2017 (federal), porém caiu da terceira para a quinta posição em 2021. Ainda que passível de críticas, argumenta-se que a política de portas abertas de Merkel – a “mulher forte da Europa” – foi a única abordagem proativa proposta de dentro da UE para a crise em um contexto de déficit de lideranças e consensos regionais.

Se a crise do Euro e a crise migratória elevaram a posição regional alemã, a crise do Brexit ajudou a fortalecê-la. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que significou um retrocesso institucional para a integração que a Alemanha busca salvaguardar acima de tudo, a saída do Reino Unido tornou necessária uma coesão ainda maior dos membros remanescentes que fortaleceu a posição de liderança alemã.

No contexto da pandemia, o último desafio da gestora de crises Angela Merkel, o bloco europeu, encabeçado pela Alemanha, liderou o concerto diplomático no âmbito da Organização Mundial da Saúde (OMS), buscando fixar-se como um ator estabilizador do sistema internacional.

É notável que o papel da Alemanha na política internacional tenha sofrido considerável transformação nas últimas duas décadas, conforme escreveu o ex-ministro de relações exteriores e depois presidente Frank-Walter Steinmeier – e precisa, portanto, acompanhar a evolução da sua posição regional e global. Se há uma crítica a ser feita ao governo Merkel, seria justamente o fato de ela não ter se aproveitado da ascendência política adquirida para formular uma estratégia alemã mais assertiva e de longo prazo, para além da retórica civil-normativa.

Em um contexto de multiplicação de crises, arrefecimento da aliança transatlântica com os Estados Unidos e ascensão do Indo-Pacífico, as engrenagens diplomáticas alemãs precisam estar munidas de uma visão de longo prazo para articular seus interesses e enfrentar os desafios que circundam o projeto de integração europeu – o que o debate público alemão vem chamando de Zukunftsfähigkeit, ou, em uma tradução livre, a capacidade de enfrentar o futuro.


Guilherme Thudium é doutorando pelo PPG em Estudos Estratégicos Internacionais da UFRGS e pesquisador do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (NERINT).