O projeto teatro, pesquisa e extensão em tempos de pandemia

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Estamos enfrentando desafios sem precedentes diante da crise sanitária instaurada pela pandemia de covid-19. Nesse contexto, foram atingidas especialmente as artes presenciais, como o teatro, a dança e o circo, agravando uma ferida há tempos aberta pela recorrente falta de incentivos governamentais. Sabemos que o teatro, enquanto arte coletiva e efêmera, só se realiza em sua totalidade pelo encontro vivo entre artistas e público. 

Os espaços teatrais foram os primeiros a fechar as suas portas e certamente serão os últimos a voltar, seguindo com responsabilidade as recomendações dos órgãos de Saúde. Todas as apresentações, ensaios, temporadas, festivais, circulações, encontros, congressos, etc. – em suma, todo o circuito criativo e produtivo responsável pela maior parte do sustento conceitual e financeiro dos artistas e demais profissionais –, tudo isso foi cancelado em larga escala, sem aviso prévio e sem previsão de retorno nos próximos meses. 

Milhares de profissionais e empresas culturais no Brasil e no mundo estão parados, com suas atividades suspensas e sem suas fontes de renda, vendo-se dependentes quase exclusivamente do apoio emergencial dos governos. 

Como manter viva essa parcela expressiva da economia local e global, que emprega e gera renda a tantas pessoas e suas famílias? Como garantir a sobrevivência das pessoas que dedicam seu trabalho e suas vidas a uma atividade que, embora fundamental à sociedade e ao desenvolvimento humano, está temporariamente impedida de se realizar? Como manter forte e necessária a ligação entre artista e público, entre produção e consumo, entre teatro e sociedade?    

Na universidade, o ensino de teatro também foi imensamente atingido, visto que sua natureza requer conglomerações e contato direto – entre professores e alunos, e alunos entre si –, sendo impossível a educação teatral/cênica se dar a distância em sua totalidade. 

Como ensinar e aprender um ofício que exige a proximidade física de pessoas, quando tal proximidade não é permitida? Como estudar sobre uma profissão que não se sabe de que forma poderá ser exercida em um futuro próximo? Como criar, como expressar-se em uma linguagem pandemicamente impossível, com recursos estéticos que desde sempre desafiam o isolamento de corpos e subjetividades, convivendo em um mesmo tempo/espaço? Como reinventar uma arte milenar como o teatro, redimensionando-a em sintonia com a realidade que se impõe? Esses são alguns dos nossos desafios. Restam-nos os esforços de artistas, pesquisadores, professores, estudantes e espectadores em experimentar novas formas de criação e compartilhamento, muitas vezes migrando para o meio audiovisual/virtual ou hibridizando-se com ele. 

É nesse contexto que está inserido o projeto de extensão Teatro Pesquisa e Extensão – TPE –, ligado ao Departamento de Arte Dramática do Instituto de Artes da UFRGS. Criado em 2003 pela professora Inês Marocco e contando com o incentivo de alunos dos cursos de Bacharelado e Licenciatura em Teatro, o TPE estabeleceu um espaço no qual os espetáculos produzidos pelos estudantes são apresentados gratuitamente na Sala Qorpo Santo, localizada no Câmpus Centro, todas as quartas-feiras, às 12h30 e às 19h30, para toda a comunidade gaúcha. Ao longo de 17 anos, nos tornamos a principal mostra de teatro da UFRGS. 

Espaço de Atuação da Terreira da Tribo e teatros de Arena e Renascença, fechados durante o período de distanciamento social por conta da pandemia do novo coronavírus (Fotos: Flávio Dutra/ju)

Em 2010, iniciamos parceria com a UFRGS TV, que criou o programa Efêmera Arte, sob direção de Fernando Favaretto. Em 2012, foi criado o TPE Escolas, coordenado pela professora Cristiane Werlang, levando turmas de escolas e organizações culturais e educacionais para assistir aos espetáculos, conhecer uma sala de teatro equipada e debater com os artistas questões relativas à criação teatral. Em 2019, foi criado o blog de críticas Qorpo Qrítico, coordenado pelo professor Henrique Saidel. Estabeleceu-se parceria com o curso de Libras, através do professor Tiago Coimbra Nogueira, recebendo alunos/estagiários que traduzem as peças para a linguagem de sinais. Desde 2019, contamos com a colaboração da doutoranda do PPGAC-UFRGS, crítica, jornalista e produtora Michele Rolim, que assessora a curadoria da mostra, alinhando-a a festivais nacionais e internacionais. 

E é como um dos muitos festivais de artes cênicas, dentro e fora das universidades, que o TPE se viu obrigado a suspender suas atividades e cancelar temporariamente sua programação, que seria iniciada em abril. Os artistas e técnicos dos sete espetáculos selecionados, assim como a equipe de organização, foram pegos de surpresa e ainda aguardam os próximos passos no combate à pandemia rumo à normalização das atividades culturais. 

A Sala Qorpo Santo está fechada, assim como a Sala Alziro Azevedo e o prédio do Departamento de Arte Dramática. Enquanto isso, a equipe do projeto vem oferecendo, em sua página no Facebook e no Instagram, um memorial dos últimos anos, publicando vídeos dos espetáculos, além de críticas e comentários de seus participantes, sempre às terças e quintas-feiras.

Cenas do espetáculo Santo Qorpo,  dirigida por Inês Marocco, livremente inspirado no livro Cães da Província, de Luís Antônio de Assis Brasil e em obras do dramaturgo gaúcho Qorpo Santo, que dá nome a uma das salas de teatro da UFRGS. A peça reinagurou o espaço, após reformas, em março de 2016 (Fotos: Flávio Dutra/JU)

O TPE está conectado à comunidade artística gaúcha e brasileira que, vendo-se justificadamente impedida de trabalhar e realizar seus eventos, encontra-se em uma situação delicada. E, por isso mesmo, une-se aos movimentos de reivindicação de políticas públicas efetivas para o enfrentamento da crise que atinge tão violentamente os profissionais da arte. 

No Rio Grande do Sul, a MOVE – Rede de Artistas de Teatro de Porto Alegre, uma das importantes representantes desse movimento, encaminhou, em abril, uma “Carta Proposta” aos governos estadual e municipal, requerendo a implementação de medidas emergenciais de apoio e fomento.

O documento salienta que, “da mesma forma que o setor do comércio sofre duros golpes em seus rendimentos, o setor cultural passa por dificuldades, e tanto os trabalhadores da cultura, assim como os espaços culturais mantidos por eles (teatros independentes, escolas de teatro, empresas de produção cultural, prestadores de serviços e eventos – festivais, cursos, feiras, festas, congressos) que integram o calendário artístico-cultural da cidade e do estado, hoje se encontram impedidos de evoluir em suas agendas pela determinação de não aglomeração”. A MOVE propõe medidas concretas a serem tomadas pelos governos: a garantia de uma renda básica para os trabalhadores da cultura; o cumprimento da lei do Funcultura e do Fumproarte; a ampliação do Fundo de Apoio à Cultura – FAC; e a manutenção de espaços e grupos artísticos.

O TPE está junto à MOVE e manifesta total concordância com os movimentos em prol de políticas públicas para minimizar os danos da pandemia. Clamamos ao poder público para que os auxílios sejam prestados rapidamente e para que sua estrutura jurídica e legislativa seja usada para viabilizar tais ações. Este é o momento de todas e todos se unirem. 

Viva a Arte! Viva o Teatro! Fiquem bem!


Equipe TPE 2020
Professores: Cristiane Werlang, Inês Marocco, Henrique Saidel, Michele Rolim. Alunos: Gabriel Brochier, Mariana Fernandes, Verônica Dias.