Observatórios fomentam debates a respeito de questões essenciais ao interesse público

Ciência | Ações de pesquisa e extensão multidisciplinares se dedicam a reunir e divulgar conhecimento sobre temas específicos de forma a embasar políticas públicas e promover o desenvolvimento social

*Foto de capa: Flávio Dutra/ Arquivo JU 22 ago. 2021

Ao pensar em observatórios, meu primeiro instinto era imaginar um telescópio gigantesco mirando os céus. Imaginem minha surpresa ao descobrir que na Universidade há uma gama de mirantes observando com minúcia e curiosidade os seus arredores – e não as estrelas.

Observatório, portanto, como instrumento de busca à informação, é essencial para embasar a decisão pública. Tem por objetivo potencializar a investigação, assim como a socialização do conhecimento, pelo trabalho coletivo e de múltiplas perspectivas. 

Dados de juventude e violência

De acordo com Ana Paula Motta Costa, professora do departamento de Ciências Criminais da Faculdade de Direito da UFRGS, o papel da pesquisa é essencial – não apenas para a Universidade. “Para toda decisão, é preciso pesquisa, é necessário um diagnóstico da realidade. A sociedade toda precisa da pesquisa.” 

Atualmente, a docente é coordenadora de um observatório que visa analisar a efetividade das leis de direitos humanos em situações de violência que envolvem adolescentes. Apesar de o projeto de pesquisa ter recém-completado dois anos, a pesquisadora aponta algumas tendências observadas: a idade em que há um pico de mortes vem reduzindo e há um aumento na participação de meninas em situações de violência.

O Observatório de Violência na Juventude trabalha com três linhas distintas, uma das quais acompanha dados da taxa de mortalidade de jovens em Porto Alegre. Analisando uma série histórica, o grupo estuda, também, a relação de adolescentes mortos com as políticas públicas de atendimento aos seus direitos.  

“Direitos humanos são conquistas históricas de todas as pessoas. Nós precisamos considerar a diversidade da juventude, as diversas juventudes, as diferentes realidades culturais, sociais e econômicas. Precisamos considerar quando o Estado intervém, porque o Estado nem sempre é alguém que protege direitos, às vezes intervém e os viola”, pondera.

“Para entender direitos humanos, é preciso entender a dimensão de que todos nós conquistamos direitos ao longo da história e que [esses direitos] precisam a todo momento ser afirmados” 

Ana Paula Motta Costa
O direito à cidade 

Com foco em estudos urbanos, o Observatório das Metrópoles constitui uma rede de pesquisa, reconhecida internacionalmente, que se estende pelo país e envolve pesquisadores de áreas diversas, como Sociologia, Arquitetura, Economia, Antropologia, Geografia.

A partir dessa visão multidisciplinar, o atual programa de pesquisa do Observatório, que se chama “As Metrópoles e o Direito à Cidade”, propõe um estudo para entender os desdobramentos dos processos socioeconômicos de formação das metrópoles brasileiras, compreendendo seus agentes econômicos e políticos e como eles atuam.  

De acordo com Paulo Soares, professor do departamento de Geografia da UFRGS e coordenador regional do Observatório em Porto Alegre, “esse estudo não fica recluso na academia, pois a rede sempre o considerou um conhecimento muito rico para ficar fechado em bibliotecas universitárias. Nós sempre promovemos um debate com os movimentos sociais”, avalia.

“Não adianta termos um amplo repertório de pesquisa financiado com dinheiro público, pela sociedade, e não fazermos a devolução desse conhecimento em interação com a sociedade civil. Especialmente em um país tão desigual como o nosso”  

Paulo Soares

O docente ressalta que o trabalho do Observatório vem enfrentando dificuldades, já que, desde 2016, houve uma redução grande das fontes de financiamento. “Pesquisa não se faz sem recurso, não adianta“, assevera. Outra questão que tem atrapalhado o trabalho é o clima de perseguição que os pesquisadores vêm sofrendo. “Há um discurso anticiência que está muito forte em setores da sociedade brasileira, e isso também tem nos prejudicado bastante.” 

Relações étnico-raciais

Gladis Kaercher é docente há quase 25 anos na Faculdade de Educação. Sua relação com a UFRGS, porém, começa muito antes – graduação, mestrado e doutorado, todos na Universidade. Nesse longo período de convívio, a professora diz ter desenvolvido um olhar crítico e vigilante. Ela é representante do grupo que compõe menos de 1% do quadro da Universidade: os docentes negros. Atualmente ministra a disciplina Educação das Relações Étnico-Raciais, primeiro passo da curricularização da discussão antirracista dentro da UFRGS. 

“Quando a gente fala de uma instituição, a gente não pode esquecer que ela é um organismo vivo. Às vezes, me parece que a gente se distancia dessa dimensão. Sobretudo, nos nossos esforços teóricos. Eu acho que muitas pessoas, quando falam de racismo institucional, despem a instituição de sua ‘humanidade’”, pondera.

”A instituição não é uma abstração jurídica ou administrativa, toda instituição existe materializada nos sujeitos que a integram e compõem”

Gladis Kaercher

Nesse contexto, Gladis é coordenadora do Observatório Investigativo para um Diagnóstico do Racismo Institucional, iniciado neste ano. O projeto de pesquisa visa analisar a ambiência racial da Faculdade de Educação, observando a presença de pessoas de diferentes etnias e racialidades na busca de um diagnóstico sobre a possibilidade da existência de racismo estrutural na unidade. Inspirada pelo seu trabalho junto ao Tribunal de Contas, onde observa o constante descumprimento da lei de obrigatoriedade de ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena, a professora questiona: qual o papel da Universidade perante essas realidades?  

“Temos 24 licenciaturas, somos uma referência estadual e nacional. Quando vejo um Estado fornecendo uma formação insuficiente, inadequada ou incompleta, vejo que a Universidade tem um papel muito grande em relação a isso. Nós, como instituição, temos um grande problema. Percebo que algo vai mal”, completa.