Orquestra do Instituto de Artes da UFRGS estreia nas plataformas de streaming para ampliar seu alcance

Música | Formado durante a pandemia, grupo de instrumentistas lança terceiro concerto digital sem nunca ter se encontrado presencialmente

No último dia 10, a Orquestra do Instituto de Artes da UFRGS (OIA-UFRGS) lançou pela primeira vez uma de suas gravações nas plataformas digitais de streaming. O trabalho escolhido para essa estreia também foi uma produção inédita: a primeira gravação mundial em versão para violão e orquestra do Romance Op. 40, de Ludwig van Beethoven, com arranjos e interpretação de Daniel Wolff e regência do maestro Carlos Völker-Fecher. O projeto foi todo idealizado, gravado e lançado durante a pandemia – a própria orquestra, que existe há cerca de um ano, foi formada neste período. Mesmo assim, esta já é a terceira gravação do grupo, que agora ganha as redes sociais e as plataformas digitais para ampliar o alcance e a repercussão do seu trabalho.

O maestro sabe da importância de aumentar a presença digital da orquestra para o trabalho do grupo. Ele conta que, por causa das plataformas, o recente lançamento do conjunto foi ouvido na Europa, nos Estados Unidos e por toda a América Latina. Como afirma, “é cada vez mais importante, nas relações atuais, estar atento ao uso dessas novas formas de comunicação, pois a nossa capacidade de nos relacionar em rede aumenta a visão internacional e dá confiabilidade ao trabalho. Quando utilizamos dessas plataformas e ampliamos a nossa comunicação, a gente mostra nossa capacidade de raciocínio e de trabalho em rede”.

Além de expandir as fronteiras do trabalho produzido pela orquestra, estar presente nas plataformas de streaming também aproxima o grupo das pessoas que consomem música por esses meios. Como destaca Nathalia Boeira, flautista da orquestra, “é muito importante estar nas plataformas. Hoje, quase todo mundo tem uma conta em um aplicativo de streaming, principalmente o público mais jovem. Tornar o nosso material acessível nesses canais é um convite para que mais pessoas possam conhecer a música sinfônica, e também o trabalho que se desenvolve dentro de uma Universidade, no curso de Música”.

As plataformas digitais foram inicialmente dominadas pelo público mais jovem, mas já há uma tendência de mudança desse aspecto. Como pontua o maestro, em função da atual impossibilidade de as pessoas saírem de casa para realizar atividades culturais e apreciar concertos, o público dos aplicativos de streaming tem crescido em todas as faixas etárias. “O jovem pode inicialmente ter um acesso maior, porque já estava mais familiarizado, mas também vejo pessoas mais velhas lidando muito bem com essas ferramentas. Esses espaços estão demonstrando um caminho promissor, e por intermédio dessas plataformas a gente vai estar muito mais próximo desse público e consolidar cada vez mais a Orquestra do Instituto de Artes da UFRGS como uma das mais importantes das universidades brasileiras”, ressalta Carlos.

Adaptação às circunstâncias

A OIA-UFRGS tem uma peculiaridade que talvez nenhuma outra no mundo tenha: o grupo nunca se encontrou pessoalmente. Isso ocorre porque a orquestra foi formada a partir da chegada de Carlos Völker-Fecher a Porto Alegre no ano passado, já com a pandemia em curso. Como ele enfatiza, a qualidade dos músicos e a força de vontade de todos foram fundamentais para que o projeto se concretizasse com o sucesso atual. “Quando o desejo é muito grande, a gente vence obstáculos que aparentam ser absurdos e surreais. Temos uma orquestra que tem uma formação sinfônica, temos os metais, as madeiras, instrumentos de sopro completos, temos percussão, as cordas, e nossos instrumentistas são de excelente nível. Isso facilitou a viabilização da orquestra no meio desse absurdo.”

Mesmo sem conseguir ensaiar junto, o grupo de músicos se reúne semanalmente de forma virtual. Desse modo, os participantes discutem o trabalho da orquestra, estudam as obras e seus autores, leem as partituras em conjunto e debatem interpretações e técnicas de gravação. Nathalia Boeira, que entrou na orquestra em setembro passado, destaca a relevância das atividades musicais em que o maestro propõe uma análise coletiva da obra que estão executando para que todos façam a sua gravação da melhor forma e para que o grupo tenha uma unidade sonora. “É muito interessante, porque somos uma orquestra que nunca se encontrou pessoalmente, mas que está produzindo material com bastante qualidade e se adaptando às circunstâncias.”

E como funciona o processo de finalização e gravação das músicas? A própria Nathalia explica: “Nos ensaios, o maestro passa orientações gerais de fraseado, articulação, etc. Depois ele manda um vídeo regendo, o chefe de naipe grava um primeiro áudio e passa para os colegas, e assim todos têm uma referência visual, a regência, e auditiva, a gravação. Depois disso, o áudio e o vídeo passam por um processo de edição para juntar tudo”.

O método tem funcionado. Já foram três trabalhos finalizados e lançados, mesmo com todas as limitações que a realidade impõe, o que coloca a OIA-UFRGS na posição de orquestra das universidades brasileiras que mais produziu durante a pandemia. “Já temos três gravações produzidas inteiramente em casa, com estudo, trabalho, gravação e edição feitas pelos estudantes. É um resultado surpreendente e que mostra a potência do que vem pela frente”, destaca Carlos.

O último lançamento da orquestra, a gravação do Romance Op. 40 de Ludwig van Beethoven, pode ser ouvido nas principais plataformas de streaming atuais. Para se informar sobre o dia a dia dos trabalhos da orquestra, também é possível acompanhar o seu perfil no Instagram e sua página no Facebook. “Ainda que os tempos sejam difíceis, o nosso trabalho mostra um desejo de vida, e convido a todos para estarem junto”, conclui o maestro.