Os desafios para o designer no mercado de trabalho

*Conteúdo exclusivo online

Entrevista | Professor da Universidade de São Paulo, Marcos da Costa Braga fala sobre a falta de demanda nas áreas menos exploradas do Design

Docente do Departamento de História da Arquitetura e Estética da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), Marcos da Costa Braga aborda o mercado de trabalho para o profissional do Design no Brasil. Ele explica que a interdisciplinaridade do Design pode causar uma confusão e, consequentemente, a falta de demanda em algumas especificidades da área. Marcos, no entanto, vê com otimismo o futuro da profissão no país. Segundo ele, a conscientização de quais são as competências do designer está aumentando entre os contratantes e os consumidores, principalmente em áreas específicas como Design de Games.

Como você vê o profissional de design gráfico no Brasil? Existe mercado de trabalho para esse profissional?
O mercado de trabalho existe, mas depende da área de atuação, porque o design hoje pode estar dividido em cerca de 20 profissões diferentes. Ele tem esse caráter, essa identidade multidisciplinar e interdisciplinar. Está na origem de várias profissões, inclusive recentes, como o design de games, por exemplo, ou o Webdesign nos anos 1990. Então, na verdade, existem vários designs. Com a economia do modo como está, e o processo de desindustrialização pelo qual o país passou nos últimos anos, eu diria que diminuiu um pouco a área de atuação para o Design de Produto Industrial, mas o design de atuação gráfica aplicada a mídias eletrônicas cresceu bastante. Outra área recente que tem gerado muita contratação de recém-formados é o Design de Serviços. E isso é um pouco derivado da ideia do design como uma área de conhecimento que pode ser aplicada em várias profissões. Contribuiu um pouco para isso o desenvolvimento do Design Thinking, a partir de uma matriz norte-americana que, na verdade, é o aproveitamento de metodologias clássicas do design “traduzidas” de certa forma para o marketing. Conseguiu-se, então, demonstrar às empresas como é que os métodos de raciocínio do design facilitam, inclusive, a gestão interna em vários níveis, inclusive na gestão estratégica. Eu diria que algumas áreas recuaram e outras cresceram. Então, depende do ramo, porque não há exatamente um campo único para o designer atuar.

Quais são os desafios para o profissional de design gráfico?
Eu acho que o primeiro é conscientizar o contratante e os próprios consumidores sobre a natureza do design. Muitas vezes, a sociedade, em vários segmentos, não tem uma ideia clara de para que serve o design, como é que ele pode ser aplicado, qual seria a excelência de qualidade de um designer. Então um desafio ainda constante é conseguir conscientizar as pessoas de como o design pode auxiliar na qualidade de vida delas. Em relação aos contratantes, o desafio é eles entenderem como o design pode auxiliar em relação ao produto que vendem aos seus clientes. No nosso mercado há muito imediatismo ainda; os empresários querem ter retorno muito rápido, e muitas vezes o designer, para gerar um produto de qualidade, precisa de tempo e de investimentos adequados.

Você vê um potencial nessa área no Brasil?
Sim, mas está indo devagar. É complexo para o cidadão comum entender o design, porque são vários tipos de design. Então, quando você fala em Design Gráfico, Design de Joias, fica difícil saber que profissional é esse. Na verdade, são vários tipos de profissionais, e cada um tem que, no seu campo, explicar o que faz, no que pode auxiliar, como isso pode se desenvolver. Agora ele continua sendo bastante demandado em certas áreas muito específicas. O Design de Joias tem uma competência específica, assim como o Design de Games. Nos nichos produtivos pelo menos, a consciência tem crescido. Então eu vejo isso com boas perspectivas. Pelo menos nesses cenários um pouco localizados, eu vejo a consciência crescendo, e no momento a demanda é em áreas bem específicas.

As universidades estão formando profissionais capacitados?
O ensino é um desafio. Na verdade você tem uma orientação para uma formação e uma diplomação em design. E a gente sabe que, no Brasil, de tamanho continental, muitas vezes há setores produtivos que têm mais desenvolvimento em uma região que em outras. Existem vocações produtivas regionais. O mais correto seria você estabelecer ensino de graduação em design voltado para a sua região, mas isso necessitaria voltar a ter uma permissão para estruturar cursos voltados a certas vocações regionais, e isso não tem acontecido. Esse fator torna o trabalho estrutural na graduação um trabalho difícil, porque ao mesmo tempo você tem que atender a uma demanda oficial de formação generalista, que a meu ver não é ruim – ela te dá uma visão bastante ampla em relação aos conhecimentos postulados no campo do design. Designers formados em um bom curso generalista conseguem atuar em diversos tipos de áreas. Mesmo assim, ainda é um desafio, porque quando esse graduado chega ao mercado de trabalho os campos são muito distintos e às vezes com características processuais próprias, o que torna um pouco difícil a fase de adaptação. O ensino da graduação, creio, tem passado por um desafio que é como dar essa competência de projeto, fornecer essa visão geral sobre o campo, uma visão humanista, e ao mesmo tempo dar condições a esse graduando de conseguir se adaptar a áreas específicas de trabalho que estão surgindo no Brasil.

Posts relacionados:

Karoline Costa

Estudante de Jornalismo na UFRGS