Pedindo licença aos ancestrais, Bruno Ferreira Kaingang é o primeiro indígena doutor pela UFRGS

Formação| Pesquisador defende tese que apresenta particularidades da educação indígena, como a preponderância do diálogo e o respeito aos mais velhos

*Foto de capa: Arquivo Pessoal (2014)

Com indicação de tese destaque para concorrer ao Prêmio Capes e recomendação para publicação de seu trabalho, Bruno Ferreira Kaingang recebeu conceito A no dia 4 de dezembro da semana passada, quando defendeu sua tese de doutorado no PPG em Educação da UFRGS, tornando-se o primeiro indígena a receber título de doutor pela Universidade. 

Durante as quase quatro horas de exposição do trabalho e comentários dos integrantes da banca, permaneceu na tela da atividade online a imagem do pai de Bruno, Albino, falecido recentemente. No final da cerimônia, a orientadora Maria Aparecida Bergamaschi convida Pedra para comemorar com o filho. Para os kaingang, o respeito aos mais velhos tem a ver com o conceito de ancestralidade, o conhecimento construído através dos tempos. 

O título da tese – Ũn si ag tũ pẽ ki vẽnh kajrãnrãn fã – o papel da escola nas comunidades kaingang -, além de antecipar a presença constante de palavras grafadas no idioma do autor no texto, marca o caráter coletivo de todo o percurso acadêmico dos kaingang nas universidades, pois a escolha do título foi sugestão de alunos indígenas de Bruno. Ao ingressar no curso de Licenciatura em História pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul em 1999, ele também assumia compromisso com o movimento de seu povo.

“Com a ideia de estudar pela lógica de compreensão da sociedade não indígena pra poder contribuir na construção das políticas públicas, e no meu caso a ideia era ajudar a contribuir com a política pública para a educação indígena.”

Bruno Ferreira Kaingang  

Especialista em Educação, Diversidade e Cultura Indígena pela Escola Superior de Teologia-EST e pesquisador em políticas públicas para a educação escolar indígena e em processos próprios de aprendizagem das crianças indígenas, Bruno fez seu mestrado também na UFRGS, com seu primeiro trabalho orientado por Maria Aparecida. Participaram da sua banca de doutorado dois indígenas, Gersen Luciano dos Santos Baniwa (UFAM) e Márcia Gojten Nascimento (IES-TI Nonoai), e dois não indígenas, Magali Mendes de Menezes (PPGEDU/UFRGS) e Wagner Roberto do Amaral (UEL).

Durante a defesa de sua tese de doutorado realizada na forma online, Bruno prestou homenagem a seu pai, senhor Albino, falecido recentemente

Experiência na escola não indígena

Bruno nasceu nas terras indígenas de Tenente Portela em 1966. Os cinco anos iniciais de sua escolaridade ocorreram em sua aldeia, tendo completado sua formação até a conclusão do ensino médio em escolas não indígenas nas cidades de Tenente Portela e Miraguaí. Esse período, somado à sua primeira experiência como professor, o fez desistir temporariamente da docência. Questionava-se à época sobre o fato de estar reproduzindo em sala de aula o que vivenciou em sua trajetória como estudante, que era ensinar alunos indígenas a falar português. 

Então ingressou no movimento indígena e seus companheiros lhe pediram que continuasse os estudos, prestando vestibular para um curso superior. Mas isso não era muito simples, porque havia muitas necessidades na época, especialmente porque ainda não existia a política de cotas, o que levava as lideranças a procurarem as universidades para negociar o pagamento das mensalidades, sem contar que precisavam bancar o custo do deslocamento dos estudantes, moradia e material para os estudos. 

Todo esse esforço, segundo Bruno, é porque, após a Constituição de 1988, uma das lutas passa a ser a demarcação das terras kaingang, tensionando as mobilizações no sentido de se buscar aprender sobre as leis e seus limites. “O estudante vai pra universidade com essa demanda. O movimento buscava formação pra construir as propostas”, explica. De acordo com levantamento realizado por Maria Aparecida na pós-graduação da Faced, os quatro mestres e o único doutor indígenas formados na unidade, tendo ingressado antes da implantação das ações afirmativas, são de origem kaingang, sendo Bruno o último.   

“Ainda não tinha, como tem agora reserva de vaga. Entrei sempre pela seleção que é pra todos.”

Bruno Ferreira Kaingang 

Em 2010 ele retornou para a sala de aula, agora como professor de História em uma escola indígena, na Reserva Guarita, que ocupa parte dos municípios de Tenente Portela, Redentora e Erval Seco, no noroeste do estado. No mesmo ano, o movimento indígena kaingang começou a trabalhar para ver criado o Instituto Estadual de Educação Indígena Ângelo Manhká Miguel. Na instituição, Bruno foi o primeiro professor concursado e lá trabalha até hoje. 

O Instituto fica na Terra Indígena de Inhacorá, no município de São Valério do Sul, e atende alunos de ensino médio e forma professores kaingang em nível de magistério, atuando no regime de alternância. “Trabalha com a especificidade da educação indígena. A educação kaingang tem toda uma caminhada diferente para a formação desse professor”, explica. Atualmente são cerca de 140 estudantes que estão recebendo as aulas de forma remota. 

Conceitos e temáticas

“Falar em ancestralidade é falar dos conhecimentos construídos por essas pessoas”, afirma o educador a respeito de um dos temas presentes em sua tese sobre educação indígena. Esses conhecimentos dizem respeito a questões de como lidar com a floresta, com a terra, com a água, com formas de entender e lidar com o mundo. Em seu trabalho, Bruno aponta que essas temáticas estão ausentes na escola indígena, ou seja, aquela que se pretende especialmente voltada às comunidades indígenas. Segundo ele, trazer esses conhecimentos para a escola é fator qualificador do ensino porque traz outros conceitos de educação e de compreensão de mundo.  

“Trago na minha tese de que esse mundo que vivemos, capitalista ou não, está em decadência; os conceitos que o sustentam se esgotaram”, defende. Nesse contexto, argumenta que é necessário resgatar os conhecimentos das ancestralidades para revitalizar o mundo. Embora fale a partir da escola indígena, o educador defende que tal resgate contribui também para a escola não indígena, que em sua avaliação se encontra igualmente falida e não vem conseguindo encontrar alternativas.

Outra questão que o trabalho de Bruno aponta é a diferenciação que o educador percebe entre os conceitos de “tempo espaço”, que ele defende, e “tempo ‘e’ espaço”, que ele identifica na metodologia usada na escola. Enquanto esta se baseia em uma lógica de separação das coisas, como a delimitação de períodos para cada disciplina, na educação indígena o aprendizado não se dá a partir da separação. Para exemplificar seu argumento, Bruno diz que os seres humanos não vivem à parte da natureza, eles são a natureza, “são um corpo só, são um movimento único”. 

Pedagogia da escuta 

Conhecido por contar histórias em sala de aula durante seu doutoramento, Bruno explica a Pedagogia do Silêncio a partir da descrição de uma cena em sala de aula. Em uma escola não indígena em que o professor está acostumado a gritar com os alunos e muitas vezes xingá-los, os alunos sentem-se agredidos com tal comportamento. Isso ocorre, segundo o educador, porque as crianças e jovens indígenas estão habituados a resolver as divergências a partir de aconselhamentos, de narrativas apropriadas para o momento. “Com os meus alunos de ensino médio – e tem uns que já são casados -, eu não falo pra eles ficarem quietos, ‘calem a boca!’”, mas ele diz: “Agora vocês vão me escutar porque eu sou mais velho, e na nossa cultura os mais velhos têm que ser ouvidos. Daí eles vão ficando em silêncio. É outra metodologia”. 

Esse tema ele aborda no capítulo em que trata da pedagogia kaingang. Nessa abordagem, também é observado o tempo das crianças que tendem a aprender mais à noite – característica que não coincide com o tempo da escola da cultura branca. Bruno explica que é no silêncio da noite que as crianças estão mais aptas para ouvir, como também é apropriado para escutarem histórias. Durante o dia, segundo ele, é a hora de experimentar aquilo sobre o que aprenderam na noite anterior, porque na Pedagogia do Silêncio e da escuta é necessário estar constantemente experimentando. “Quando a escola não faz isso, quando a escola traz conhecimento que é muito distante daquela realidade deles, eles não sabem como experimentar”, refere-se ao aluno indígena aprendendo com educadores a educação não indígena. 

Nesse sentido, Bruno afirma que a escola precisa partir dos conhecimentos indígenas para depois poder estabelecer relação com os demais conhecimentos. Dessa forma será mais fácil para o estudante indígena observar seu entorno e construir seu conhecimento, tendo como ponto inicial de seu processo toda a sua ancestralidade. 

Desde que se formou em História, em 1999, já são mais de 20 anos buscando cumprir o compromisso assumido com seu povo de qualificar-se na compreensão da sociedade branca a fim de poder resguardar os direitos dos kaingang e de pleitear respeito para a sua cultura. Especialmente no caso de Bruno, ele escolheu a Educação como área de produção de conhecimento e de atuação.

Faz parte dessa caminhada, conforme sua argumentação no dia da defesa de sua tese, reverter o quadro atual das escolas indígenas no estado, onde somente 13 das 55 atualmente existentes são administradas por professores indígenas. “Mesmo com as amarras burocráticas que existem numa gestão, sendo um indígena, ele vai saber fazer essa ideia do diálogo, e assim construir uma outra forma de gestão”, argumenta.

Bruno analisa em seu trabalho as práticas pedagógicas desenvolvidas em escolas implantadas nas terra indígenas kaingang, como a que aparece na foto, localizada no município de Redentora, na Terra Indígena Guarita, no noroeste gaúcho, que é uma das 55 escolas indígenas mantidas pelo estado (Fotos: Flávio Dutra/Arquivo JU – 3 de setembro 2012)