Perfil Especial: Alfredo Gui Ferreira

*Publicado na Edição 228 do JU

Foto: Flávio Dutra/JU

Seja caminhando pelo Câmpus do Vale, mostrando o prédio do Instituto de Biociências, onde estudou e depois trabalhou durante 31 anos, ou cumprimentando antigos colegas, Alfredo Gui Ferreira demonstra ser íntimo daquele espaço como se fosse a sua segunda casa. Mas seus olhos ficam marejados quando pergunto sobre o PPG da Botânica. “A maior parte da minha vida profissional e estudantil eu fiz aqui na Botânica. Sempre me envolvi muito com aquilo que eu estava fazendo”, relembra.
Essa ligação coincide com a criação do próprio PPG, pois Alfredo foi o primeiro aluno a concluir o mestrado. Para defender sua dissertação, entretanto, precisou esperar pelo reconhecimento do curso – que ocorreu em 1970, com a Reforma Universitária.

“Eu até já estava com a dissertação pronta e, assim que houve o reconhecimento do MEC, eu fiz minha apresentação e me tornei mestre”, recorda. Antes de concluir essa etapa, auxiliava em aulas práticas na Universidade, mas assume que seu maior desejo era seguir na área da pesquisa. “No departamento de Botânica, sabia que pra progredir eu tinha que me especializar, porque estava uma onda toda no Brasil pra isso”, conta.

A paixão pela natureza começou ainda na escola, no ensino médio, quando assistiu a uma aula em que o professor estava tão empolgado que ele próprio se contagiou com o tema. Natural de Porto Alegre, Alfredo confessa que nunca foi bom aluno. “Eu não era um aluno brilhante, mas se me convidassem para jogar bola eu estava sempre disposto”, ri. Mesmo assim, passou no vestibular da UFRGS na primeira tentativa e ingressou em História Natural em 1961. Conta que se tornou professor porque gostava de lecionar, mas que a sua curiosidade o levou para a área da pesquisa. “Eu não aceitava coisas prontas. Eu pensava: ‘Isso não pode ser bem assim’, então eu ia atrás verificar”, lembra. O docente ressalta que sua relação com o meio ambiente é muito forte, prova disso é que comprou um terreno em Viamão, com cerca de um hectare, para transformar em uma reserva ecológica. “Lá é cercado, evitando-se entrada de gado, e as árvores são em sua maioria nativas da região. Vou quase todos os finais de semana para lá”, conta.

Envolvido com as causas ambientalistas, o professor é sócio fundador da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), mas acabou se afastando dessas lutas devido ao trabalho. “Com as minhas saídas, eu me desliguei desse movimento. Até porque, a vida profissional é muito intensa; pesquisa e orientação tomam tempo e energia”, justifica. Mas agora, aposentado, ele retomou suas atividades na Associação: “Eu encontrei um amigo da Agapan que me convidou para voltar. Então eu fui para uma reunião que era de eleição, e me elegeram presidente”, conta sorridente. Além disso, também é membro do Conselho Editorial da Acta Botanica Brasilica: “Na revista, eu fui o primeiro redator. Fiz todo o trabalho de encaminhamento para lançar o periódico, e essas coisas me marcaram bastante”, complementa.

Em sala de aula, comenta que era duro com os alunos, cobrava bastante, mas diz que sempre foi justo: “Hoje muitos deles vêm me agradecer pelos puxões”. Revela ter uma afinidade maior com a pós-graduação, pois os estudantes eram mais experientes. “Às vezes eu ficava constrangido, porque os alunos me procuravam mesmo tendo orientador. Eu sugeria algumas coisas, mudanças. Vários fizeram isso, e eu nunca me neguei a ajudar”, ilustra. “No meu laboratório sempre tinha três ou quatro alunos. Faltava espaço. E ainda havia fila de espera. Felizmente foi assim que eu tive a oportunidade de orientar estudantes que estão espalhados pelo Brasil”, completa. Entretanto, havia desafios, o maior deles, segundo o professor, “era conseguir verbas para os projetos; a área em que eu estava precisava de muito equipamento”, relata.

Com 46 anos de pesquisa, Alfredo coleciona as homenagens que recebeu ao longo de sua carreira. Na estante da sala de sua casa, ele expõe com orgulho a honraria com a qual foi agraciado por ocasião dos 40 anos do Programa de Pós-graduação da Botânica, um ano antes de se desligar completamente da Universidade, em 2009. No entanto, o reconhecimento que mais o marcou é ter um laboratório com o seu nome na Unb, onde lecionou de 2000 a 2001. “Uma aluna fundou o Laboratório Professor Alfredo Gui Ferreira”, conta feliz. “Foi muito emocionante. São essas coisas que premiam a atividade profissional, o reconhecimento”, completa.

Retorno

A aposentadoria administrativa ocorreu em 2003, mas o professor não conseguiu se desligar da Universidade e continuou na Pós-graduação como voluntário. Mas, devido a um problema de saúde, em 2010, Alfredo se afastou completamente da academia. “Recolhi minhas coisas, até porque tinham novos professores contratados sem lugar, e eu sou só convidado, não poderia ficar usando uma sala”, recorda.

Mesmo tendo a possibilidade de dividir uma sala com outro docente, Alfredo não aceitou continuar orientando os pós-graduandos. Para ele, é preciso renovar, inserir novos pensamentos dentro da academia, e ele admite que já estava desatualizado. “Tu fica mais velho, mas os alunos têm sempre a mesma idade. A gente precisa se reciclar”, enfatiza. Depois de tantos anos na área da pesquisa e dentro de sala de aula, diz sentir-se realizado profissionalmente. “Já não estou na linha de frente, eu venci. Eu me realizei, foi uma coisa muito boa ter pertencido à Universidade”, revela.

Preocupação atual

Ainda que afastado das atividades acadêmicas, o professor acompanha preocupado a situação atual da educação e lastima a falta de incentivo ao ensino superior. “Eu acho que não é esse o caminho. A educação é fundamental para uma nação, pois, sem ela, não se consegue desenvolvimento e plenitude”. Para o docente, uma das situações que comprova esse atual descaso com a formação superior é o fato de os alunos estarem indo estudar no exterior. “Os maiores cérebros vão para fora do Brasil. Isso é bom para o estudante, mas ruim para o país”.

O professor conta que construiu sua carreira acadêmica viajando para diversas partes do Brasil e do mundo, o que lhe deu muita experiência. Foi professor convidado da Universidade de Brasília e visitante na Universidade Federal de São Carlos. Fez intercâmbio na Inglaterra e pós-doutorado nos Estados Unidos. “Nunca fui de esquentar banco”, ri.


Esta coluna é uma parceria entre o JU e a UFRGS TV. Os programas são exibidos no Canal 15 da NET, diariamente às 20h e às 23h.

Karoline Costa

Estudante de Jornalismo na UFRGS