Perfil: Flávia Ohlweiler da Silveira

* Publicado na Edição 230 do JU

Foto: Flávio Dutra/JU

“Um dia, no bonde que eu tomava para ir ao Julinho, encontrei o Erico Verissimo. Ele ficou impressionado, porque eu andava com livros nos braços. Naquela época não era tão comum uma mulher estudando”, relembrou Flávia Ohlweiler da Silveira, professora aposentada da UFRGS. Com 94 anos e vestida num traje elegante – blusa branca e saia escura –, ela recebeu a equipe do JU em seu apartamento na Zona Sul de Porto Alegre. Decidida, embora um pouco tímida, durante a conversa fez questão de definir o que deveria ficar de fora e o que entraria em seu perfil, como o encontro com o autor da trilogia O tempo e o vento, na provinciana capital do estado, em que ainda circulavam os bondes.

Foto: Flávio Dutra/JU

Nascida em 1925, ela se mudou, aos 13 anos, de Taquari para Porto Alegre. Na capital, estudou no internato Bom Conselho até ir para o colégio Júlio de Castilhos.“Quando iniciei no Julinho, queria fazer o científico, mas não havia mais vagas, então fiz o clássico, que era para quem quisesse lecionar.” Logo depois, seus pais, Anselmo e Nair, e irmãos, também se mudaram para Porto Alegre.“Uma moça não poderia viver sozinha naquele tempo”, disse.

A Porto Alegre em que passou a juventude era pacata. “Não lembro de ter bares. Eu ia aos bailes do Leopoldina Juvenil e ao cinema, em alguns dias víamos várias sessões.” Mas o que mais fazia mesmo era ler. “Sempre gostei. Lembro de alguma história que me marcou e leio a obra de novo para relembrar os detalhes”. Está relendo O crime do Padre Amaro e O Primo Basílio, ambos de Eça de Queirós.

Política e docência

No corredor que leva aos quartos, Flávia mostra o quadro com a caricatura do marido, Wilson Vargas da Silveira, político filiado ao PTB e parceiro de Brizola desde a época em que estudavam no Julinho.

Em 1964, no golpe que instaurou a ditadura militar, foi um dos primeiros deputados federais a ter seus direitos cassados. “Nunca me meti na política. Porém levei o Wilson e o Jango, quando ele foi deposto e antes de ir para o Uruguai, escondidos à casa do general Ladário Telles, na rua Dom Pedro II”.

O casal se conheceu ainda no Julinho. Quando ela estava na metade da graduação – e ele cursando Direito – casaram-se em uma cerimônia íntima e discreta e moraram um tempo em São Francisco de Paula.

Foto: Flávio Dutra/JU

Para concluir o curso superior, ela viajava à capital algumas vezes na semana. De volta a Porto Alegre dois anos mais tarde, a ideia de Flávia era ter sua própria farmácia, mas as circunstâncias a levaram para outro caminho: tornou-se professora assistente na Universidade em 1952.

“Comecei dando aula de farmácia galênica, um campo dedicado a Galeno, um dos primeiros a estudar Farmácia. Então, o diretor da unidade me indicou para ministrar a disciplina de bromatologia e disse para eu dar aula naquele dia mesmo. Meu chão parecia que tinha sumido!”, relembrou. Durante os 30 anos em que lecionou, Flávia passou por momentos conturbados: “Como meu marido era um político conhecido, alguns professores tinham até medo de me cumprimentar, com receio de represália por parte da ditadura”.

Apesar de concordar com muitas das posições políticas de Wilson, preferia não militar. “Sou de oposição até hoje. Gostei das mudanças de Getúlio em relação às questões trabalhistas, por exemplo. Mas, durante a ditadura militar, nunca falei sobre nada em aula, não era o lugar”. Quando o marido foi preso, foi com o salário da docência que ela sustentou a família. “Tive sorte: o diretor da faculdade, Henrique Oliveira, não deixou que o DOPS entrasse no prédio e ainda me avisou que eu tinha dois alunos infiltrados me cuidando.”

Atualmente, divide o tempo entre as tarefas de casa, as leituras e o convívio com a família. Assim que se aposentou, porém, junto com a colega Ruth Veloso, desenvolveu um pó que dá consistência rápida à geleia. “Montamos uma fabriqueta. Foi um momento muito bom”.