Perfil: Júlia Dauernheimer Machado

*Publicado na Edição 225 do JU

Foto: Fernanda da Costa/JU

Desde o início deste ano, Júlia atende comunidades indígenas Mbyá Guarani em cinco municípios: Osório, Maquiné, Terra de Areia, Torres, Caraá e Riozinho. Formada em 2017, ingressou em Medicina na UFRGS em 2011, mas, diferente de muitos colegas, ela não acalentava o sonho de ser médica desde criança. Tampouco tinha entrado em contato com indígenas antes de conquistar a vaga na Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), no programa Mais Médicos, amplamente conhecido pela atuação de médicos cubanos até o final do ano passado. Sempre gostou de estudar e, durante o ensino básico, por pertencer à família de religião luterana, estudou no colégio da Ulbra de Canoas e, posteriormente, no Colégio Unificado.

No ciclo básico do curso, Júlia Dauernheimer Machado se envolveu em diversos projetos de pesquisa, já que esse é o período mais teórico da graduação. Não importava muito a linha de pesquisa, ela estava envolvida. Só que, nos anos finais da graduação, começou a entrar em conflito com a escolha. É que, de certa forma, não se sentia pronta para a clínica e a prática da medicina e pensou em mudar de curso. Para dar um tempo e refletir sobre isso, em 2014, foi estudar na Holanda pelo programa Ciências Sem Fronteiras. Apesar de ter gostado da experiência, Júlia se deu conta de que era muito mais brasileira do que podia imaginar. “Me despertou a vontade de voltar para o Brasil; percebi que meu lugar é aqui. Quando voltei, decidi encarar a prática e aplicar meu conhecimento para atender os pacientes da melhor forma possível.”

Diferentemente de alguns colegas, Júlia não quis pensar imediatamente em residência médica após a formatura, mas cogita iniciar a formação em Saúde da Família no futuro. “Estava um pouco cansada de tanta academia, quero aproveitar a prática, porque estou aprendendo muito e também estou conseguindo cuidar melhor de mim.” Pelo menos duas vezes na semana, ela pratica yoga pela manhã e natação depois do expediente, algo que ela não conseguia fazer durante a graduação.

O atendimento a comunidades indígenas, salienta, tem lhe proporcionado diversos aprendizados. Júlia conta que, antes de trabalhar com os Mbyá Guarani, não imaginava que no Rio Grande do Sul existiam pessoas que não falam, ou que falam pouco, o português. “Temos uma ideia muito errada das populações indígenas.” Um dos maiores desafios, para ela, é transpor as barreiras do idioma. Por outro lado, um dos momentos mais mágicos da profissão é sentar com eles e tomar um chimarrão. “Você só aprende as especificidades das populações com a conversa.”

A falta de atenção no curso de medicina justamente com as populações mais vulneráveis e marginalizadas é algo que incomoda a jovem. “Fico chocada que não estudamos com profundidade os que mais precisam da saúde pública. Por exemplo, os indígenas são magros; você não precisa, no geral, ficar pedindo exame para diabetes. Precisamos levar em conta o que eles precisam, e isso só estou aprendendo na prática!”

Com forte espírito coletivista – uma das suas últimas leituras foi a escritora e feminista negra Angela Davis –, Júlia ainda pretende se unir a grupos políticos organizados, porque acredita que, além de ser feminista e vegetariana, é preciso também atuar em conjunto com seus pares e, assim, enfrentar as dificuldades e desigualdades do país. “Sempre faço leituras sobre assuntos que acho que não domino e raramente leio algo para relaxar; isso pode até ser um problema”, diz em tom de brincadeira.

Para ela, a medicina é mais do que ganhar dinheiro. “Acho que podemos retribuir ao menos um pouco trabalhando no SUS, já que tivemos uma formação gratuita. O dinheiro não pode ser o único objetivo. Vejo muita gente querendo ser anestesista porque dá dinheiro, mas há tantos anestesistas… Quais especialidades a sociedade está precisando?”, questiona. Fora do trabalho, que ocupa boa parte de seu tempo, Júlia gosta de passar um período com a família. Costuma ir a eventos artísticos e culturais com a mãe e adora um show ao vivo. Com a voz mansa, conta que os aprendizados da fase que está vivendo vão muito além do tratamento de doenças. Foi numa de suas viagens diárias entre os municípios do litoral que conheceu Caraá. “É lindo! Provavelmente não conheceria sem esse trabalho. Estou sempre vendo paisagens maravilhosas e aprendendo sobre as culturas dos povos nativos.”

Bárbara Lima

Estudante de Jornalismo da UFRGS