Perfil: Maria José dos Santos Alves

Foto: Flávio Dutra/JU

Maria José dos Santos Alves costumava apresentar-se como Zezé. Hoje faz questão de se fazer conhecer pelo nome e sobrenome. Ela pondera, citando a antropóloga Lélia González, que “negro tem que ter nome e sobrenome, se não os brancos lhe arranjam um apelido”. Para além de um nome completo, é licenciada em História, mestre em Educação, especialista em tutoria a distância e graduanda de Museologia. Mas até conseguir aceitar e verbalizar quem é, Maria José passou por um largo processo, interno e externo, de aceitação.

Em 1996, ingressou no Ensino Superior, mais tarde que a média dos universitários. Aos 32 anos e com um filho de um ano, iniciou as aulas do curso de Química. “Eu gostava das equações do Ensino Médio, mas vi que não tinha nada a ver com aquilo”, diverte-se ao lembrar a troca pela licenciatura em História em 1998. Alguns anos depois, seria a única aluna negra graduada no curso. Isso ocorreu no segundo semestre de 2005, ou seja, antes de ser implementada a política de cotas na Universidade.

Percebia-se como uma antítese da população da Universidade: brancos de classe média alta, jovens recém-virando adultos com tempo para se dedicar às atividades acadêmicas. “Quando dizia que fazia História, as pessoas me perguntavam em que universidade particular, pois não viam como eu poderia estar numa federal.” Mas, mesmo com diferenças tão evidentes, acredita que não conseguia compreender plenamente o quadro da época, tendo inclusive não participado do movimento que implementou as ações afirmativas na
UFRGS. “Tive muita dificuldade de racializar minha vivência nos espaços da UFRGS e entender que as disciplinas só falavam de negros como escravos: nenhum autor negro e nada sobre nossa contemporaneidade.”

A dificuldade em lidar com perfis fora do padrão universitário fica explícita na fala de uma professora que cobrava a leitura de textos em inglês, porque ‘todo aluno deveria saber inglês para cursar História’. De lá para cá, muita coisa mudou. “Na época, eu saí da aula e não voltei para aquela disciplina. Hoje acho que nenhum professor diria algo assim e, mesmo que pense, os alunos não deixariam. Na aula de Africanidade e Cidadania Brasileira – da Antropologia, que curso de modo extracurricular –, o professor, branco, traz autores negros, e os alunos cobram isso. O problema é que  ainda o referencial teórico de negros tem que se buscar autonomamente, porque a universidade quase os invisibiliza. Por isso são importantes os coletivos, para pressionar para que essas disciplinas não sejam eletivas ou extracurriculares, mas obrigatórias.”

Depois do mestrado, lecionou na rede pública, época em que sentiu um dos desdobramentos mais cruéis do racismo: a internalização do preconceito. “Agora, olhando pra trás, eu vejo que fiz o curso de História em tempo recorde. E no mestrado também, mas sempre me senti em dívida com o conhecimento, me cobrava muito, como se eu nunca fosse suficiente. Tinha muito medo de que me perguntassem algo. Foi a partir das minhas leituras e com apoio da minha psicóloga que consegui me resolver.”

Desde 2015 cursando Museologia, Maria crê que o reflexo da presença negra na universidade vai além das salas de aula. “Fiquei cerca de 15 anos sem ir ao Câmpus do Vale. E, quando voltei, em 2018, notei muito mais jovens negros ocupando aquele espaço. Foi conversando com alguns deles que passei a ler mais autores negros que falam sobre a questão racial.”

Hoje Maria é estagiária no Museu Júlio de Castilhos, o que representa mais um desafio às estatísticas. “A universidade e o mercado de trabalho não são feitos para estudantes ou estagiários mais velhos. Mas eu faço questão de trabalhar porque não faço o curso só por fazer. Aqui no museu estou sob a coordenação da diretora e na área de reserva técnica, então é um local muito importante.”

Maria José acredita ser impossível comparar-se hoje com quem era há 20 ou 15 anos. “Não digo que faria algo diferente, porque tudo é processo. Mas, se eu voltasse a dar aula hoje, teria dado mais atenção às minhas alunas negras, porque elas precisam entender que infelizmente estamos no patamar mais baixo da sociedade.” Maria acredita que a chave para mudar o cenário é o estudo. “A teoria é de suma importância para a nossa construção, para nos embasar de conhecimento. Porque quando lemos sobre nós, negros e negras, não estamos em estado de suspensão, estamos ali.” Uma dualidade que estará presente como reflexão no TCC que Maria pretende apresentar no fim do próximo ano sobre as narrativas de mulheres negras que trabalham como terceirizadas na universidade. “O discurso branco nos vê como homogêneas, mas não somos, temos várias histórias que têm um atravessamento da subjetividade, embora com pontos em comum pela questão racial. Patrícia Hill Collins cria a metáfora do espelho, que também está voltado para mim, e há o questionamento: até que ponto é outra história, e até que ponto é uma história como a minha”.

Olhar de repórter

Escrever o perfil de Maria José foi um exercício de observação bastante interessante. Apesar de alguma reticência inicial em aceitar a proposta do jornal de escrever sobre sua trajetória, resgatar a presença na universidade e comparar as perspectivas do fim dos anos 90 com as atuais, conseguiu vencer a desconfiança e valorizar ainda mais essa linha do tempo. A firmeza que marca sua fala mostra a força que é preciso para estar em um ambiente que muitas vezes não se mostra afeito a acolher.

Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS