Perfil: Maria Noeci Nunes Moreira

Aposentada da Engenharia Química sente-se rejuvenescida quando volta para uma visita (Foto: Flávio Dutra/ JU)

Entre o vaivém da porta principal, uma guardiã. Por quatro décadas, o Departamento de Engenharia Química da UFRGS contou com a anfitriã que se tornou parte da casa: Maria Noeci Nunes Moreira, de 73 anos, que fez da portaria do DEQUI, como é conhecido o departamento, um lugar de pousada para os visitantes.

“Para mim era igual a como se fosse dentro da minha casa. Os alunos da época em que eu comecei a trabalhar ali se formaram e foram embora para outros lugares. Fizeram o que tinham que fazer fora e voltaram – e eu continuava ali. Então, todo mundo me conhece lá dentro”, relembra. Há pouco tempo, Maria Noeci sentiu que estava na hora de pendurar o crachá e se aposentar. “No dia em que eu saí, fiquei quase duas horas na porta, porque quando eu queria sair chegava outra pessoa para se despedir de mim”, conta.

Mas não só da popularidade desfrutou. A portaria também se fazia espaço sem rosto para os que passavam com pressa.
“A gente se acostuma. Tem vezes que a pessoa está com tanta coisa na cabeça que nem enxerga, passa por ti e não te vê. Mas se um faz isso, têm outros quatro ou cinco que param para conversar”, relata. 

Noeci, como é mais chamada, cresceu em uma cidade cerca de duas vezes o tamanho de Porto Alegre, mas 64 vezes menos povoada. Os quase 20 mil habitantes de São Jerônimo tinham que ser criativos na hora de buscar entretenimento e, segundo Noeci, eles conseguiam. “A gente dançava muito. Não tinha um final de semana que não tivesse baile em algum lugar”, relembra. Ela faz questão de deixar clara a personalidade forte de quem tem vontade de transgredir o que é posto como norma: “Nasci para andar na rua, não para estar dentro de casa fazendo crochê ou costurando. Eu sei costurar e tudo, mas não consigo”.

O espírito livre vem desde menina, e se esforçou para triunfar mesmo em um contexto de valores morais rígidos. Ela conta que, na época de sua infância, “os pais não deixavam as meninas olharem para o lado para um rapaz. Para eles, tudo era feio”. Mas, com maestria, driblava o controle materno: “Minha mãe me mandava para o colégio e ficava no portão me cuidando até eu chegar lá. Eu já ia até com um bilhete enroladinho em uma pedrinha. Quando passava na frente da casa do menino que queria namorar, jogava para ele. Eu era muito danada”.

Quando ainda moça, migrou os 70 km que separam São Jerônimo de Porto Alegre para viver com o então marido na capital. Dos seus seis filhos, sempre conviveu com a possibilidade de ver o ciclo natural da vida invertido, com uma mãe enterrando o filho. No ano passado, por problemas no coração, aos 44 anos, um deles não resistiu. Com a partida do filho, o ninho ficou vazio, pois era também seu companheiro de todos os mometos. Ela desabafa: “O que me incomoda é isso, quando me vejo, estou sozinha dentro da minha casa. É muito ruim mesmo”. A despeito disso, ela tem vivido cada etapa de sua vida em sua intensidade: amou, casou e divorciou. “Ele não tinha jeito, não sei como eu aguentei aquele homem, meu Deus.
Já morreu, está lá dando coice não sei onde (risos).”

Quando pergunto se ela gostaria de casar de novo, uma resposta certeira na ponta da língua: “Quem faz essa loucura uma vez não faz nunca mais (risos). Eu não nasci para ser casada; acho que nasci adiantada. Eu deveria ter nascido bem depois, porque as minhas ideias não eram ideias das pessoas da minha idade, não eram mesmo”.

Com a aposentadoria, conheceu o marasmo pela primeira vez: “Eu pensei, meu Deus do céu, por que eu me aposentei? Eu podia ter ficado mais dois anos se quisesse, mas eu comecei a pensar: ‘eu acho que está na hora de me aposentar’. Me aposentei e depois me arrependi imensamente”. Nessas quatro décadas de trabalho, conquistou muitas amizades no DEQUI – tanto que, mesmo morando em Alvorada, cidade da grande Porto Alegre, mantém o vínculo com a agência bancária perto do antigo trabalho. Todo mês, aproveita para dar uma passadinha lá e rever os rostos conhecidos. A saudade de quem tinha um lugar de pertencimento que, “para mim, cada vez que eu vou lá parece que eu fico mais jovem. Eu entro ali e parece que melhorou a minha vida de novo (risos)”.

Quantas pessoas podem estufar o peito ao ver o trajeto da sua vida? Sem pestanejar, Maria Noeci fala em alto e bom som que “se eu voltasse a nascer outra vez, eu ia escolher a mesma vida de novo”. Aos 73 anos, viu sua geração chegar até os bisnetos e conta que eles são como reviver o passado. E mesmo com tantas tentativas de definições de grandes pensadores e filósofos sobre o tema, ela tem a sua própria: “A vida é tudo. Sem a vida, o que nós somos? Um resto, um nada, uma sobra. A gente tem que segurar a vida”.

Mélani Ruppenthal

Estudante de Jornalismo da UFRGS