Perfil: Pedro Guerra Pimentel

Foto: Flávio Dutra/JU

Pedro Guerra Pimentel é, antes de tudo, músico. Não só porque concilia a música com o cotidiano de oficial de Justiça e o curso de mestrado em Dinâmicas de Desenvolvimento Regional da UFRGS, mas também porque a palavra “antes” pode ser compreendida em seu sentido literal – de temporalidade. Ainda criança, longe de formar-se em Direito e ser aprovado em concurso para oficial de Justiça, brincava com o violão do pai, Airton Pimentel, que também é músico nativista.

Nascido Pedro Leandro Scarparo Silveira, adotou o nome artístico na adolescência. Acompanhando o pai e artistas importantes da cultura gaúcha, como Leopoldo Rassier e Joca Martins, em festivais e apresentações pelo estado, foi natural que a arte fosse o primeiro ofício que conhecesse. Assim começou também a história de Pedro com a Califórnia da Canção Nativa, um dos mais importantes festivais de música do Rio Grande do Sul: em 2014, sua música O homem dentro do espelho foi a vencedora da categoria ‘Melhor música da linha livre’ na 38.ª edição do evento. Assim Pedro repetiu o feito do pai, vencedor da edição de 1977 com a canção Negro da Gaita, escrita em parceria com Gilberto Carvalho.

Pedro Guerra executando a canção vencedora da 38ª edição da Califórnia da Canção Nativa (Vídeo: Youtube)

Entre os 18 e 35 anos, Pedro tocou em festivais e ‘na noite’, como define. Mas, com a dificuldade de “viver de arte”, decidiu tentar carreira na área do Direito, curso em que ingressou no fim dos anos 90 na Universidade Ritter dos Reis (UniRitter). Teve que atrasar a formatura por um bom motivo: aprovado em um concurso para oficial de Justiça, mudou-se, no ano 2000, para Agudo, no centro do Rio Grande do Sul, onde atuou por quatro anos, até assumir uma vaga em Tramandaí, para facilitar os frequentes deslocamentos até a capital.

No litoral norte, Pedro acaba, de certa forma, repetindo como oficial de Justiça o roteiro de músico: no site voltado à carreira musical, atesta que “suas composições retratam temas urbanos, litorâneos, campeiros, históricos do Rio Grande do Sul e suas formações culturais e étnicas”. Na rotina de shows e festivais, conhece cidades grandes e pequenas, encontrando os perfis mais diversos. Já quando faz cumprir decisões judiciais, conhece áreas urbanas e rurais da região em que atua. E as atividades não só acontecem em concomitância como acabam se cruzando. Pedro compôs uma canção que fala do seu cotidiano como oficial de Justiça.
“O oficial é conhecido como ‘longa manus’ (expressão latina que significa o braço técnico ou executor de ordens) do juiz, então eu compus a Milonga Manus, inspirada na minha função:

Foto: Flávio Dutra/JU

“[…] Investido de fé pra labutar, cumpre ordens que manda o juiz.
Intima e orienta o popular, e o povo crê no que ele diz.
Esperança ele tem pra mudar.
Observa a miséria e a tristeza.
Tenta com seu trabalho ajudar, vê que falta é comida na mesa”.

Milonga Manus, de Pedro Guerra Pimentel

Inclusão

Da música ao Direito, outro fio condutor que se apresenta claramente na trajetória de Pedro é a regionalidade. E esse interesse se desdobrou: ele agora cursa mestrado em Dinâmicas de Desenvolvimento Regional no Câmpus Litoral Norte da UFRGS.

“Há três anos minha filha fez vestibular, e ela e minha esposa me incentivaram a fazer também. Como sempre gostei de estudar, aceitei e fui aprovado no Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, que cursei por três semestres. Nesse meio tempo surgiu a oportunidade do mestrado. Tranquei a graduação, talvez até um dia volte, mas o mestrado tem tudo a ver com minha trajetória, pois como compositor sempre tentei representar todas as regionalidades da formação cultural do estado. E na formação desse tema litorâneo tem a questão indígena, antes da colonização europeia, e também a negra. Já fiz, por exemplo, alguns maçambiques, que é um ritmo originado no litoral norte gaúcho.”

A pesquisa proposta por Pedro para ingressar no mestrado foi uma costura entre os eixos que estão sempre presentes na sua vida. “O tema do meu pré-projeto foi representatividade nos festivais de música gaúcha. O objeto em si ainda está muito amplo, é preciso delimitar, mas o tema é esse. E isso é também uma questão a resolver, porque, como diz Saramago, ‘é preciso sair da ilha para ver a ilha’.”


Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS