Perfil: Stefano Florissi

Foto: Rochele Zandavalli (Secom)

A monotonia de um dos cafés situados no Câmpus Centro se quebra quando o professor Stefano Florissi, da Economia, entra no estabelecimento. “Henrique, querido! Como vai o curso de Jornalismo?” Cada pessoa conhecida que passa pelo espaço ele cumprimenta pelo nome. Provoco-o perguntando se saber o nome de todos os estudantes é estratégia. “Não”, apressa-se. “É realmente uma questão de ter uma aproximação humana que, cá entre nós, me nutre profundamente. Cria uma sensação de estar em casa, em família. Hoje, a maioria dos meus amigos são ex-alunos. Chegou um momento em que eu percebi que quanto mais eu me soltasse, fosse eu mesmo, mais eu seria feliz dando aula e conseguiria sensibilizar os alunos.” Entretanto, nem sempre foi assim.

Em meados da década de 2000, Stefano viveu o ápice de uma profunda crise existencial e cogitou abandonar a Economia. Apesar da trajetória brilhante – ele começara o doutorado com apenas 22 anos na University of Illinois, nos Estados Unidos, e aos 27, em 1997, já dava aulas na UFRGS –, ou talvez por causa dela, o docente sentia que algo estava fora do lugar: a máxima da academia americana publish or perish (publicar ou perecer) não era para ele.

Certa vez, após palestrar em um evento organizado pelos alunos da Escola de Administração, uma voz ecoou da plateia elogiando-o pela forma descontraída com que havia se portado. “Não é sempre que vemos um economista falando assim do coração. De onde veio isso?” Ao que ele respondeu: “Quando criança, eu acreditava em um planeta povoado pelo Pato Donald e pelo Mickey Mouse…”. Após uma pausa, completou: “… e ainda hoje acredito”. Quando se deu conta do que acabara de falar, na frente de mais de 300 pessoas, seu coração gelou. Porém, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que havia recuperado a liberdade. “O que me faz cientista, a objetividade no coletivo, pode perfeitamente conviver com a liberdade individual de acreditar e sonhar”, concluiu. Stefano foi aplaudido de pé por todos os presentes. Foi um momento marcante em sua vida.

Um pouco mais tarde, descobriu o campo que viria a se tornar o foco de suas contribuições à ciência: Economia da Cultura. Em 2006 coordenou o primeiro curso de especialização da área no Brasil. “Antes, a Economia da Cultura era interpretada sob os olhos da economia tradicional. Nossa preocupação é entender a cultura como um processo de desenvolvimento das possibilidades de as pessoas terem mais recursos internos para serem felizes.”

Um alpino nos trópicos

No meio da entrevista, somos interrompidos pelo atendente que trazia sua refeição – “Obrigado pelo almoço, Rodrigo!”, agradece, gentilmente, apesar de já ser hora da janta. Seus horários não são a única diferença que chama a atenção em Stefano: ele é aficcionado por séries de TV, dirige só carros alugados e muda-se constantemente. “Minhas posses são, basicamente, minhas roupas. Estou vivendo o momento mais livre da minha vida, me libertando um pouco do fardo dos excessos de coisas que normalmente carregamos e acumulamos.”

A autenticidade certamente se deve, pelo menos em parte, à sua criação. “Nasci em Recife em julho de 1969, mês em que o homem chegou à Lua, por isso eu vivo no mundo da lua… Foi o mês de Woodstock, de Stonewall, que começou o movimento pelos direitos gays nos Estados Unidos, mas o acontecimento mais importante foi o meu nascimento”, brinca. Seus pais tinham emigrado de uma região rural muito particular da Itália – que tem até idioma próprio, o friulano, que ele se gaba por “poder colocar no Lattes” – e vinham de famílias cujas diferenças sociais e econômicas eram grandes.

“Cresci nesse ambiente de contrastes culturais, em que eu particularmente me sentia muito diferente, sentia que não pertencia a canto algum. Toda a minha família morava na Itália e eventualmente eu era comparado com meus primos de lá, além de coisas do tipo: lá tinha Nutella e aqui não”. Foi na graduação, cursada na Universidade Federal de Pernambuco, que começou a se dar conta de sua brasilidade: “Todos nós, na infância e adolescência, construímos barreiras, senão fica impossível sobreviver, mas essas barreiras não servem mais na medida em que vamos crescendo. Por isso, acho que as pessoas entram na universidade para se abrir para a vida, para expor a si próprios”.

É isso que ele tenta, hoje, reproduzir na sala de aula. “Me considero um pouco um desorientador. Prefiro incentivar os estudantes não com respostas, pois não as tenho, mas com certa abertura para a dúvida. Vamos quebrar nossas estruturas, vamos não entender o que virá, vamos abrir mão da nossa necessidade de controle. Com a espontaneidade vem a sabedoria.” Apesar de vários artigos publicados e da progressão para professor titular, nível mais elevado na hierarquia da carreira docente universitária, em 2018, Stefano sente que as maiores conquistas de sua trajetória foram as vezes em que foi escolhido como homenageado ou paraninfo. “Acho que é para isso que eu existo profissionalmente: para dar aula”.

Henrique Moreto

Estudante do 8.º semestre de Jornalismo da UFRGS