Periferia como demarcação existencial

Entrevista | O escritor José Falero traz em sua obra a complexidade do cotidiano periférico em uma narrativa que ele define autobiográfica e que extrapola a delimitação geográfica 

“O tipo de coisa que acontece nas áreas nobres de Porto Alegre não importa muito, mas importa bastante; já o tipo de coisa que acontece em lugares como a Vila Sapo importa bastante, mas não importa muito”, diz José Falero, autor do livro Vila Sapo, lançado em 2019.

Faz tempo que dona Rita Helena apoia o filho em todos os seus projetos. Foi ela quem comprou um cavaquinho quando ele embestou em aprender a tocar o instrumento. José Carlos da Silva Junior diz que a veia artística herdou da mãe, que acabou desistindo de seus desenhos pra sustentar a família. Eles moram na Lomba do Pinheiro, região leste de Porto Alegre, onde convivem núcleos densamente povoados e áreas verdes de preservação ecológica. Atualmente a região é formada por mais de 30 vilas. Da liberdade de correr por esse espaço durante toda a infância ao autoconfinamento para imergir na pesquisa solitária e autodidata sobre gramática, literatura, que resultaram em um monte de papéis escritos e jogados no lixo, até que surgisse o primeiro conto digno de ser guardado, é que aparece no cenário da literatura gaúcha no ano passado um contundente jovem escritor com seu primeiro livro: Vila Sapo, uma coletânea de seis narrativas. Ele também participou da publicação À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019) e está terminando seu primeiro romance. Desde o mês de junho do ano passado é cronista na revista Parêntese e neste semestre será um dos professores na disciplina Encontro de Saberes, ligada ao Curso de Música da UFRGS, aberta aos alunos de graduação. Assim que concluir o curso do EJA no Colégio de Aplicação, José quer graduar-se em Letras e dar aula na Educação Básica – propósito que se evidencia em sua entrevista ao JU.

O que tu achas de como e do que tem sido escrito a respeito de ti como escritor e de tua obra?
Fico muito honrado e acho legal as pessoas gostarem, mas o texto tem tido impacto nas pessoas dependendo da origem social. Não quero parecer mal-agradecido pelas pessoas que escrevem bem a meu respeito por aí, mas eu gosto muito mais quando as pessoas daqui de onde eu moro gostam do que eu faço. Bah, daí é foda! Teve uma vez um cara que nunca tinha lido um livro, ele é casado com uma moça que lê muito, e ela passou a vida toda tentando fazer esse cara ler. Daí um dia ela comprou meu livro e disse “Oh, é um cara daqui, contando histórias daqui, talvez te interesse!”. Um dia eu saí e passei por esse cara, e ele me apertou a mão e disse: “Bah, peguei teu livro e não conseguia mais para de ler”. Isso pra mim tem valor, sabe? Outro dia, eu fui dar uma caminhada pela vila e passei por uma invasão. Eu sabia que tavam invadindo, mas não imaginava que tava tão grande (na Vila Sapo). Daí veio o cara que era responsável pela invasão, a gente entrou num dos barracos. A gente tava trocando uma ideia quando vejo meu livro ali… Uma menina que tinha comprado. Eu quase chorei. Isso aí pra mim é que tem valor. 

Muitos professores têm usado teu livro em escolas. Imagino que já tenhas sido convidado para ir a alguma dessas escolas. O que mais ouviste dos estudantes nessas ocasiões? 
Quando eu estava indo pras escolas, tinha uma coisa que me encantava muito, mas eu não conseguia exatamente nomear. Só fui aprender a nomear isso um pouco depois. Tenho ido a muito colégio de periferia; as crianças são parecidas comigo quando eu ia pra aula. É criança que a princípio não tem uma conexão tão grande com a literatura. Eu me lembro quando era piá também, quando tava no colégio e chamavam alguém pra falar alguma coisa, e eu não tava nem aí. E até hoje acontece esse comportamento, não há respeito por esses valores. Eu acredito que isso aconteça porque a literatura no Brasil é elitista pra caralho. Os livros não falam, não tem as preocupações que tu tem, não andam por ambientes da cidade que tu anda. Nada ali reflete o que é a realidade pra ti. O exemplo que eu sempre costumo dar: “Ah, o cara tá triste e viajou pra Paris”. Nossa! Isso é surreal. Pra mim passa por isso o fato de o brasileiro não ler tanto. Então eu chegava às escolas e era uma gritaria. Daí eu começava a trocar uma ideia com eles e já ganhava na gíria deles. Então eu começava a ler e ficava todo mundo quieto, de uma forma que eu nunca tinha visto nos colégios de periferia. Os piás gostavam de ouvir, tá ligado? Eu tenho pra mim que isso é por causa do texto. 

Talvez eu seja presunçoso, mas acho que eles conseguem perceber que as histórias deles também são dignas de ser contadas. Essa história é parecida com a do meu primo, a do meu pai, da minha mãe, dos meus tios, e isso é digno de estar num livro. Não precisa ter um carro, ser um cara que é um grande empresário. Não, minha história é digna de ser contada; meu perrengue com o ônibus é digno de ser contado; as minhas preocupações financeiras são dignas de ser contadas. E o efeito disso nessa galera é uma coisa fantástica.

José Falero

O que é periferia? Como interpretas essa palavra, periferia do quê?
Isso é bem complexo. Aqui em Porto Alegre tem alguns exemplos. Tu tem a Vila Planetário, e por que ela é periferia se ela está a um passo do Centro, do lado do Palácio da Polícia? Faz sentido talvez chamar o Pinheiro (Lomba do Pinheiro), que é bem pra cá, quase fronteira com Viamão, então geograficamente não faz sentido chamar a Planetário de periferia, mas eu chamo. Tem regiões nobres da cidade que são afastadas do Centro que chamaria de periferia geograficamente, mas eu não chamo, por quê?  Porque a periferia não é só uma questão geográfica. Também tem o fato de tu estar afastado dos centros culturais, das coisas que são consideradas culturais. Bourdieu, por exemplo, e o capital cultural: tu mora na Planetário, então tu tá perto dos centros de cultura, mas acontece que o que é “tido” como cultura, os valores que são considerados como tais, que são valores reconhecidamente culturais, não te interessam, não têm a ver com a tua vida. Então, desse ponto de vista, tu estás afastado da mesma forma. Aquelas coisas que tu considera cultura no teu ambiente: o rap, hip-hop, o funk, a literatura marginal que tá surgindo agora e que circula muito nesses meios, o próprio slam, nada disso é comprado pela sociedade como cultura. Desse ponto de vista tu tá afastado, e daí tu tá afastado do ponto de vista econômico, de uma série de questões de infraestrutura. A Planetário é do lado do Centro, mas os garis não varrem ali. Os garis pagos com o dinheiro público não varrem ali. Periférico nesse sentido: afastado das coisas que são importantes pra vida das pessoas, dessas coisas que garantem dignidade pras pessoas. É assim que eu vejo a periferia, como o espaço não só geográfico, mas também existencial. 

Foto: Flávio Dutra/JU

Quando escrever assumiu um papel importante pra ti?
Sei lá por que, não gosto dessas coisas de dom, não acredito que Deus tenha feito as pessoas com genes: oh, esse vai ser pintor, esse vai ser professor. Alguma coisa na minha vivência deve explicar o que vou dizer agora. Eu sou um cara inclinado à produção das coisas. Eu ficava muito curioso com as músicas. Fui estudar música, aí aprendi a tocar instrumentos. Hoje mesmo eu não consigo ouvir música, ligo o rádio, escuto uma, duas, e paro, e tenho que tocar junto. Não me satisfaço em consumir as coisas, eu preciso produzir, é uma necessidade que eu tenho, e isso se reflete em tudo. Eu gostava muito de animes, que são desenhos animados japoneses. Aí aprendi a desenhar, fui estudar como desenhar, e produzia minhas próprias histórias em quadrinho. Tudo com o que eu me envolvo, tudo que eu aprendo, eu preciso produzir. Depois que eu li o primeiro livro inteiro nunca mais parei de ler. Comecei a me ausentar da rua por causa da leitura. Comecei a ter interesse por coisas que meus amigos daqui não tinham. Então eu não queria saber da conversa que eles tinham – e têm até hoje. As conversas que eu queria ter com as pessoas já não encontrava com eles. Comecei a me isolar em casa, ler muito, muito livro didático, livro de literatura, livro de tudo que é tipo de coisa: política, filosofia. E, como eu tava te falando, tudo com o que eu entro em contato tenho uma tendência de produzir. Então comecei a escrever. Eu sabia o que era um texto bom porque lia muito, e eu percebia que meu texto não tava bom, mas tive calma. Como eu já tinha aprendido a tocar cavaquinho, eu tinha consciência de que prática é tudo na vida. Escrevia, jogava no lixo. Escrevia, jogava no lixo. Outra coisa que eu pensava é que eu tinha que me familiarizar com as ferramentas que se usam pra escrever, então comecei a estudar muito gramática. Pra cada regrinha da gramática que eu aprendia, eu praticava, então escrevia uns dez contos pra usar aquela regra. E quando caía a ficha, eu ia pra outra regrinha. E assim foi indo até que eu escrevi uma história, era o primeiro capítulo de literatura especulativa, era uma coisa como Senhor dos Anéis, fantástica, que era o que eu queria escrever em princípio. Então eu leio e sabe aquele sentimento de já ter lido livros publicados que não eram tão bons? Daí comecei a guardar e comecei a botar fé nas coisas que eu fazia. Foi assim que eu desenvolvi o interesse e foi assim também que eu fui melhorando.    

Tu davas teu texto pra alguém ler?
Eu tentava, né. Obrigava a minha mãe a ler (risos), a minha irmã também. A minha irmã me disse uma coisa que foi fundamental pra eu chegar na escrita que eu tô. Teoricamente, eu ainda sou um escritor de literatura fantástica. Por que eu tô dizendo isso? Primeiro a minha irmã lia e gostava e dizia: cara, eu gosto do teu texto, mas tu tem que escrever alguma coisa que interesse a mim, às pessoas que são parecidas contigo. Então essa era a primeira coisa que ia me tirar desse lugar. Depois teve umas outras coisas: eu ouvi por aí que não é bom tu começar a escrever já na literatura fantástica porque tu tens uma série de preocupações que todo texto literário tem, toda ficção tem: o arco dramático, o início, o meio e o fim – o desenvolvimento da tensão das coisas. Só que na literatura especulativa tu vais ter uma preocupação a mais que é pensar as regras daquele universo: as pessoas podem voar? Qual a explicação tu dá pra elas poderem voar? Existe magia? Existem dragões? Quais são teus parâmetros pra essa realidade alternativa? E isso é uma preocupação extra. Então passei a escrever histórias do mundo real. Até então eu só escrevia contos pra testar coisas, porque também ouvir dizer que não é legal começar escrevendo romance. É melhor começar a escrever contos, e quando tu tiver bom nos contos, tu passa pro romance. Tudo é um processo. Eu não desprezo hoje em dia a literatura especulativa, mas eu saí “dali” de escrever o fantástico pra fazer esse treinamento, e vim pra essa coisa de escrever sobre o mundo real como forma de treinar coisas que eu achava que tinha que treinar. Nessa literatura mais palpável, digamos assim, eu pensava que ia me cansar e ia voltar pro fantástico pra ter mais liberdade de pensar coisas, inventar coisas, me sentir mais livre.  Só que não. Eu encontrei muitos subsídios talvez pra minha vida toda, era mais rico do que eu pensava. Mas a ficção especulativa também tem algumas peculiaridades bacanas.

No texto “Passe livre”, escrito no ano passado, o narrador diz que se envergonha de não ter se manifestado quando o cobrador esculachava a senhora que entrou no ônibus lotado, por medo do que os outros iam pensar de participar do barraco. Esse desconforto é teu? De que outras coisas sentes vergonha por ti e pelas pessoas em geral?
Essa é uma crônica que publiquei na Parêntese. Elas não são ficcionais, são todas autobiográficas. Aquilo aconteceu exatamente como eu disse ali. Eu me senti envergonhado mesmo. É muito louco isso. Tem umas coisas na vida, não sei se isso acontece contigo, que não basta tu tomar consciência pra que tu mude. Tu apenas tomou consciência, e isso é uma delas. Eu tomei consciência disso e eu não consigo me mover pra ser um cara diferente. Se acontecesse de novo aquilo ali não sei se eu não teria coragem de novo. Tamanha é a influência desse que eu chamo no texto de “conceito burguês de elegância” que nos amarra. Já participei de escândalos na minha vida, mas precisa ser uma coisa muito grave e me atingir diretamente pra eu participar, porque evito esse tipo de conflito. Mas eu não devia ter evitado, por exemplo, naquele momento, devia ter feito alguma coisa. Me pergunta o que mais me envergonha? Uma série de coisas me envergonha. Eu sou um cara que hoje em dia tô tendo contato com muitas escolas, eu conheço professores, isso mudou a minha vida por causa do livro. 

Eu lancei o livro no início do ano passado, antes disso eu não conhecia professor, não conhecia gente da cultura, não conhecia gente debatendo machismo, racismo, homofobia, nada disso. A única ferramenta que eu tinha pra pensar o mundo era eu e as conclusões que eu tirava das coisas. Antes de eu ter contato com essas coisas e com o pessoal da universidade, professores da educação básica, com galera do teatro, com galera da literatura. 

José Falero

Antes de eu ter contato com essas pessoas todas, com quem eu conversava? Com o pessoal da obra onde eu trabalhava na construção civil, isso era o meu universo, esse era o meu ambiente. Quero falar da masculinidade tóxica. Eu acho que isso está em todos os âmbitos, por mais que se esteja na universidade, onde for, tu vais ter essa coisa da masculinidade tóxica principalmente quando se reúnem só homens pra conversar, por mais que esses caras sejam desconstruidões, que falem do direito da mulher. Quando se reúne só homem é foda de aturar. Então o que acontece, essas pessoas que estão afastadas dos debates, a galera do subemprego, os caras da construção civil, os caras que tão fumando maconha nos becos, estão totalmente afastados dessas discussões – e agora eu faço um parêntese: não é culpa deles, isso é uma falta de política pública de ampliação de debate. Acho que o PT fez alguma coisa no sentido de ampliar o acesso às universidades, fez um monte de coisa, foi importante, os debates acontecem por causa disso, mas precisava ter ampliado mais de modo a incluir todo mundo. Entre essas pessoas que estão afastadas do debate – a galera da periferia, os caras do subemprego –, a masculinidade tóxica é muito mais evidente, muito mais intensa. E tu me pergunta do que eu mais me envergonho… Essa é uma das coisas que eu me envergonho. 

Quem tu gostarias que te lesse, pra quem tu escreves, se é que tens essa preocupação? 
Vou ser bastante honesto. Já tive preocupações assim. Já escrevi imaginando como pensa um editor pra tentar convencer esse cara a me publicar. Nessa época eu não tinha publicado nada. Já escrevi pensando nas pessoas aqui da minha quebrada, na minha tia, na minha mãe, nos meus vizinhos. Já tive esse pensamento. Indiretamente é esse público que eu quero atingir hoje em dia. Mas só que agora eu penso de outra forma. Eu não preciso me alienar disso porque eu faço parte dessa comunidade. Eu quero escrever pra eu ler. Quando escrevo um texto, eu procuro sempre – isso é muito presente no meu pensamento – que seja uma coisa que, depois quando eu for ler e avaliar, eu veja que “isso aqui não tá legal, nisso aqui eu não fui honesto, ou isso aqui eu poderia ter desenvolvido melhor”. Quero que meu olhar fique satisfeito. Essa é a minha preocupação – forma, conteúdo, as vírgulas. E eu penso que, quando o meu olhar ficar satisfeito, o olhar dos meus pares vai ficar satisfeito. Isso é o legal da literatura, ela só se completa quando o outro lê.