Pesquisa realizada pelo NAE aponta principais desafios para estudantes

Acompanhamento | Mais de 50% dos estudantes de graduação e pós-graduação que responderam ao questionário realizado pelo Núcleo de Apoio aos Estudantes diz que apresenta problemas para organizar seus dias e cumprir suas tarefas dentro dos prazos

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

A necessidade de serem ouvidos pela Universidade é como o coordenador do Núcleo de Apoio aos Estudantes (NAE), Marco Antônio Pereira Teixeira, interpreta a adesão dos estudantes ao levantamento que fizeram sobre as necessidades e dificuldades vivenciadas durante o período de distanciamento social. No espaço de uma semana – 27 de abril a 4 de maio –, mais de 1.500 alunos de cursos graduação e pós-graduação responderam ao questionário. Ainda que os resultados não sejam necessariamente representativos da população estudantil da UFRGS, Marcos avalia que o interesse demonstrado e o conteúdo das respostas subjetivas constituem importante sinalização daquilo que vem preocupando os estudantes. 

“Essa taxa de respostas tão alta nos fez realmente pensar no quanto os alunos, já passadas algumas semanas dessas indefinições, estavam precisando se manifestar, podendo dizer o que eles estavam sentindo, que necessidades estavam tendo e do que gostariam que fosse oferecido pelo NAE, que era o foco do nosso levantamento.”

Marco Antônio Pereira Teixeira

Ao todo, o questionário apresentou oito questões, das quais três de caráter subjetivo, solicitando respostas por escrito. “Muitas respostas, inclusive, foram sobre questões alheias ao NAE”, observa o professor do Instituto de Psicologia.  Estabelecer uma rotina e procrastinação são preocupações de cerca de 50% dos respondentes. De acordo com o docente, aproximadamente 30% dos estudantes manifestaram preocupação com sua saúde mental neste momento. “Não necessariamente um quadro grave diagnosticado, mas alguma dificuldade relacionada com depressão e ansiedade. E a Universidade já vinha trabalhando desde o ano passado com a saúde mental”, acrescenta. 

Com base nessa apuração, o Núcleo começou a propor atividades que atendem a alguns dos aspectos levantados, como oficinas online focadas nas questões de gestão de tempo e de rotina, e estão em planejamento oficinas de orientação de carreira. Marcos observa, entretanto, que, ainda que a procura tenha sido grande, foram 100 inscritos para a primeira oficina oferecida, mas a efetiva adesão à atividade foi baixa, lamenta o coordenador. 

O NAE é um projeto de extensão do Instituto de Psicologia direcionado a alunos e egressos, professores, técnicos e parceiros, voltado a temas como orientação profissional, desenvolvimento de carreira e grupos de estudo eficientes. A equipe de trabalho é formada por dois professores, Marcos e Ana Cristina Garcia Dias, a psicóloga Cláudia Sampaio, que trabalha na área de carreira, e a pedagoga Alessandra Blando, responsável por questões relacionadas à aprendizagem e à gestão do tempo. 

A pesquisa também questionou os alunos sobre quais dos temas trabalhados pelo núcleo eles gostariam de ver mais informações por meio das redes sociais do NAE. Os temas mais citados foram relacionados à procrastinação, estudos e gestão do tempo e carreira. 

Incertezas minam o emocional

Das três questões abertas propostas no questionário, só uma delas não estabelecia ligação direta com o NAE: “Quais suas dificuldades acerca da vida acadêmica no momento presente?”. As demais perguntavam diretamente sobre sugestões de atividades a serem desenvolvidas pelo Núcleo.  A questão da estabilidade emocional foi um dos temas mais recorrentes que surgiu no questionário do NAE e que se comprova na maioria dos entrevistados da presente reportagem, quando foram ouvidos três estudantes de graduação e três de pós-graduação de cursos diferentes, e com demandas pessoais diversas. 

“A quarenta está bem complicada; a ansiedade é um grande problema. Temos também a questão financeira. Infelizmente minha mãe não está recebendo, e então sempre fica uma apreensão sobre o que pode acontecer no próximo mês.” Renan Hoffmann de Oliveira é aluno do curso de Letras, habilitação em inglês. Ele mora com a mãe em Gravataí e tem buscado resolver o problema financeiro, dando aulas particulares de inglês. O problema, entretanto, é o fraco sinal de internet, que, por vezes, acaba dificultando a transmissão de suas atividades. 

Mateus Camana, que ingressou há pouco no doutorado em Ecologia, reconhece que a situação atual imposta pela pandemia tem impactado no seu estado de espírito. Ele conta que no ano passado realizou um acompanhamento profissional para lidar com a ansiedade e considera que atualmente esteja “razoavelmente bem”, embora em algumas noites tenha um sono mais agitado. Esse estado de ânimo, entretanto, ele não atribui exclusivamente aos efeitos do coronavírus na vida social, e que se intensificam ao ouvir as notícias, mas considera que a apreensão é comum entre os estudantes de pós-graduação devido à carga de demandas. 

Diferente de Mateus, Caroline Roveda Pilger está concluindo seu doutorado no curso de Comunicação. Ela, contudo, concorda com ele no que se refere às decorrências do volume de trabalho impostos pela pós-graduação, ou seja, que não há novidade nesse quesito de disposição emocional. “Já tem uma pressão de trabalho, de produtividade muito grande, e já fazemos muita coisa de maneira sobrecarregada e também em casa, principalmente quem é bolsista”, descreve. Segundo a estudante, o processo de finalização da tese é por si um momento muito solitário. Agora, sem os encontros presenciais com o grupo de pesquisa, Caroline comenta sentir muita falta da rede de apoio formada pelos colegas.

Leia mais:
O andamento das pesquisas e a saúde mental de pós-graduandos durante o isolamento social

Para além das questões específicas da formação, Laís Dias Gomes, estudante do terceiro semestre da graduação em Medicina, relata que nas primeiras semanas de isolamento se sentiu vulnerável ao teor assustador das notícias às quais tinha acesso. Por isso, decidiu afastar-se das redes sociais. Ela diz ter ficado muito abalada com o vídeo mostrando o crime racial contra George Floyd nos Estados Unidos, homem negro de 46 anos que foi morto durante uma ação da polícia. “Esse período foi bem difícil, foram umas duas semanas e meia, até que surgiu o nosso grupo de leitura. Acho que foi uma semana depois desse boom de informações e dos protestos.” 

“Faço parte de um grupo de alunos negros que fazem medicina, e a cada quinze dias a gente tem um encontro e debate um artigo sobre educação étnica – algumas questões assim, que esse estudo nos permite –, geralmente de autores negros. Eu me sinto muito como se fosse uma comunidade. É um grupo de apoio, de amizade mesmo que se criou dentro da faculdade. Eu acho que, se houvesse mais desses espaços na Universidade, seria muito legal.”

Laís Dias Gomes
As exigências por trás da procrastinação

De acordo com o levantamento do NAE, 56% dos estudantes de graduação e 54% dos pós-graduandos que responderam ao questionário apresentam problema com o cumprimento das tarefas, ou seja, estão adiando fazer o que se programaram – e sabem que precisam realizar. Para Caroline, a procrastinação já era um problema antes da pandemia, embora nunca tenha deixado de entregar nada dentro das datas. “Se eu tenho muito prazo, acabo esperando até o final e me colocando numa situação de pressão, e isso se intensificou na pandemia”, revela. Por conta disso, às vezes ela prefere trabalhar de madrugada, quando há menos distrações: “Parece que o mundo para, e eu consigo trabalhar”, observa.

Disposta a dar a entrevista, mas pedindo para não ser identificada, uma doutoranda do curso de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental diz que, para evitar a procrastinação, se cobra muito, por isso montou um horário de trabalho fixo. “Eu tenho usado mais o celular. Às vezes eu gostaria de desligar, mas uma das coisas que discutimos na oficina (que realizou junto ao NAE) foi que ele é a nossa forma de comunicação neste momento, então é difícil se desconectar totalmente.” 

Já para Renan, a autocobrança de cumprir suas tarefas está vinculada à necessidade econômica do momento, direcionando esse sentimento às aulas particulares que ministra. “Por isso, tento não procrastinar, mas muitas vezes isso acontece, pois realmente pareço estar mais preguiçoso para certas coisas neste momento”, confessa.

No caso de Mateus, como ele e a namorada Patrícia, com quem mora há dois anos, são alunos de pós-graduação e montaram juntos uma mesma rotina de trabalho, isso facilita. “Nós dois mantemos uma rotina com interesses mútuos”, explica. Num exercício de imaginação, comenta que, se estivesse na casa da família, certamente isso não seria possível porque acabaria envolvido em outras atividades. “Nós estamos muito bem porque não moramos totalmente sozinhos e, ao não morarmos com a família, podemos manter uma rotina de forma mais produtiva.”

Leia mais:
Artigo: “Como lidar com a procrastinação?”, de Ana Cristina Garcia Dias

Metade dos estudantes tem dificuldade de estabelecer uma rotina 

A dificuldade de estabelecer uma rotina durante a quarentena foi o problema mais recorrente nas respostas ao questionário: atinge 56,9% dos estudantes de graduação e 47,9% dos pós-graduandos na UFRGS. Pensando nisso, o NAE oferece oficinas online focadas na gestão de tempo e de rotina. 

Para a doutoranda em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, que participou da oficina Organização do tempo no isolamento social, a atividade representou um momento de transição. A pós-graduanda viu seu rendimento diminuir depois que entregou a qualificação de sua tese de doutorado no Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH). A oficina foi como um “empurrãozinho” para que a doutoranda desse sequência a atividades que, por conta da incerteza gerada pela pandemia, estavam suspensas, como estudar inglês. Ela também adotou uma metodologia de organização de suas tarefas diárias para manter uma rotina. “Depois da oficina, consegui retomar minhas atividades de uma forma mais satisfatória, que se aproxima mais do meu fluxo normal de atividades”, conta. 

“Vi que, mesmo com a produtividade um pouco abaixo da minha média, eu estava com um rendimento satisfatório. Agora estou tentando me adaptar para que o meu rendimento seja mais próximo do que era antes da pandemia, mas estou conformada sobre a necessidade de, provavelmente, ficar até o final do ano em casa.”

Doutoranda em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental

Como a estudante está finalizando a tese e sua pesquisa não depende de laboratórios, ela tem as ferramentas necessárias para trabalhar na pesquisa e cumprir os prazos. Mas esse não é o cenário de todos os pós-graduandos. Um deles é Mateus, que diz ter sido difícil estabelecer uma nova rotina nas três primeiras semanas de isolamento social: “Eu tinha uma rotina laboratorial (Laboratório Ecologia da Paisagem) no Câmpus do Vale muito intensa, das 8h da manhã às 5h da tarde”. Mateus explica que tanto ele quanto sua namorada solicitaram prorrogação de prazos para seus cursos. O cumprimento dos prazos é essencial para que ambos mantenham suas bolsas de pesquisa. A indefinição do calendário acadêmico também impede que os pós-graduandos possam fazer projeções para os próximos meses e anos.

Na graduação, em que todas as atividades presenciais estão suspensas e apenas algumas cadeiras de alguns cursos são ministradas virtualmente, muitos estudantes estão praticamente sem atividades relacionadas à Universidade. Segundo Eleonir dos Santos Fidelis, cujo nome kaingang é Katoin, ele não costuma ter rotina de estudos em casa, já que nos últimos meses voltou a morar com a família na aldeia Lami, há mais de uma hora de ônibus do centro de Porto Alegre e onde vivem cerca de 40 pessoas. Moram com ele, na mesma casa, os pais, três irmãos e o sobrinho João Paulo, de sete anos. Isso é diferente de quando está na Casa do Estudante Universitário (CEU), quando suas ocupações com o curso preenchem todo o seu tempo dentro e fora de sala de aula. Eloir diz sentir falta das aulas; ele estava animado com o estágio que ia começar no início do ano no Hospital de Clínicas. Até então só havia assistido às aulas teóricas, por isso uma de suas atividades é assistir a vídeos e ler todo o material que encontra na internet referente aos conteúdos que serão vistos no curso. 

Foto: Flávio Dutra/JU
 Estudante do curso de Enfermagem, Eleonir dos Santos Fidelis – Katoin, em seu nome Kaingang – deixou a Casa do Estudante para passar a quarentena em casa, na aldeia Vãn Ká, localizada entre o Lami e Itapuã, na região metropolitana. Já Mateus Camana, estudante do doutorado em Ecologia, diz sentir falta dos laboratórios e da rotina que se impunha com o trabalho no câmpus do Vale (Foto: Arquivo pessoal)

Leia mais:
Estudantes contam como está o período de isolamento social no Litoral Norte

Prática de atividades físicas e hábitos alimentares foram prejudicados na quarentena 

Caroline, que desde os seis anos pratica esportes e chegou a jogar handebol profissionalmente, sente o impacto da falta de exercícios físicos. No ano passado, ela havia rompido o ligamento e o menisco do joelho e fez uma cirurgia. Estava começando a se recuperar quando irrompeu a pandemia e não pôde mais fazer os treinamentos adequados na academia. Durante a quarentena, rompeu o menisco pela segunda vez.

A ansiedade também afeta Caroline em muitos aspectos da vida, inclusive na alimentação. Por estar em casa, acaba comendo mais doces, bebendo refrigerantes. “Eu engordei na quarentena, mas essa não é a minha principal preocupação. Meu foco agora é terminar a minha tese”, conta. Sua pesquisa é sobre a representação das mulheres gordas e a gordofobia. E ela lembra que engordar não é um sinônimo de falta de cuidado com o corpo. 

“Eu trabalho com essa temática [da gordofobia] e eu vi que muita gente está apavorada com a questão de engordar na pandemia. Eu mesma recebi muitas piadas e memes gordofóbicos.”

Caroline Roveda Pilger

Leia mais:
Alimentação saudável em tempos de distanciamento social

Laís sente o impacto do período de isolamento em seu sono desde as primeiras semanas. O dia a dia sem as aulas do curso impediram que a estudante mantivesse seus horários de sono regulares, o que a faz preocupar-se, também, com sua saúde. “Ter um dia inteiro de aulas me deixava cansada à noite, e isso regulava o meu sono. Há alguns dias passei a dormir à 1h30 da madrugada, coisa que eu jamais faria se tivesse numa rotina normal da faculdade, porque eu estaria muito cansada. E isso faz muito mal para o ritmo do nosso corpo.” A ansiedade gerada pelo excesso de informação também prejudicou a estudante: “Nas primeiras semanas da pandemia, eu quase trocava o dia pela noite mesmo, não conseguia dormir, pensando em tudo, no coronavírus, na bomba de informações que eu recebi até dos professores”.

Com relação às atividades físicas e alimentares que apareceram nas respostas do questionário, a PRAE pensa em realizar lives em colaboração com os professores dos cursos de Nutrição e Educação Física. Embora não pretendam realizar qualquer tipo de ação no sentido de oferecer atividades para além das especificidades do setor, que é de orientação estudantil, Marcos comenta que buscarão listar as iniciativas que as unidades venham desenvolvendo nesse período. A partir das respostas ao questionário relacionadas aos conteúdos de interesse dos estudantes, o NAE está ministrando lives em seu perfil no Instagram e oficinas relacionadas a esses temas.