Porto Alegre em mapas de uma literatura

Artigo | Ângelo Chemello Pereira discute as representações da cidade na literatura e como elas derivam do contexto social em que estamos inseridos

*Por: Ângelo Chemello Pereira
*Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU 22 abr. 2012

A cidade de Porto Alegre acontece na literatura de maneira recorrente nos dias de hoje, mas esse lugar elaborado se deu por consequências concretas, movimentos de transformação muito influenciados pela política de urbanização, pelos avanços tecnológicos e pelo aumento populacional. Então, para fazer uma pesquisa que ajude a entender o que temos hoje, fica necessário avaliar critérios anteriores e deles extrair possíveis evidências do objeto — neste caso, Porto Alegre — que proporcionem análises capazes de entendê-lo.

A literatura, quando trata da cidade, acaba se tornando material produzido pelo seu próprio contexto social, sendo por isso consequência dessa teia de relações complexas.

No caso dessa Porto Alegre urbana, o ano de 1935 salienta-se no sentido literário, e muito disso se dá porque no pano de fundo estão os anos do desenvolvimentismo da Era Vargas (Segunda República) aliado às reformas decididas pelas administrações municipais daquele momento. O estudo de Cláudio Cruz, por exemplo, Literatura e Cidade Moderna (1994), elegeu 1935 para esmiuçar os detalhes da cidade a partir de três autores: Erico Verissimo, Reynaldo Moura e Dyonelio Machado. As obras foram, respectivamente: Caminhos cruzados, A ronda dos anjos sensuais e Os ratos. 

Na análise de Cruz, em um determinado momento a leitura da cidade se transforma em mapa. E esse esboço gráfico traça o percurso de Naziazeno, em Os ratos, dando conta de todos os passos que o personagem faz enquanto passa seu dia atrás do dinheiro que precisa pagar ao leiteiro. Na esteira desse lampejo analítico nasceu o interesse de continuar essa cidade mapeada, de descobrir o que os mapas podem proporcionar em termos de estudo literário. E uma constatação dos estudos se relaciona à perspectiva. Porto Alegre na literatura de 1935, já que esse é nosso assunto aqui, é uma cidade que me parece depender de dois aspectos naquilo que nos interessa — um: o que observamos; dois: através de quem observamos. 

Mas o que isso quer dizer?

Quer dizer que, ao escolher um elemento literário comum às obras (por exemplo: o bonde), podemos observá-lo no mapa da cidade. Ou seja, o bonde é o que observamos como leitores. E esse bonde pode estar no Centro, no seu entorno ou em um arrabalde, o que já nos aponta um ponto de análise bem interessante. Só que, além disso, nos importa também através de quem observamos. Ou seja, o narrador e/ou o personagem capazes de nos colocar em contato com esse mesmo bonde.

O que temos então?

Temos a perspectiva do pesquisador que observa de maneira distanciada o plano urbano da cidade, podendo se situar (e situar os leitores) em termos de geografia. Mas também temos a angulação proporcionada pelo personagem, que oferece uma outra percepção a respeito do bonde.

E chegamos em que lugar fazendo isso?

Bem, nesse caso vale exemplificar, mesmo que aqui não tenhamos um mapa referencial que ajude a conceber o que observamos. Para isso, vamos imaginá-lo nos apoiando em cenas de dois personagens das obras já citadas. Personagens que estão, ambos, no Centro de Porto Alegre. 

Um deles é Salustiano vendo o bonde de um apartamento. Ao nos aproveitarmos de Salu, de Caminhos cruzados, vamos enxergar, junto com ele, o bonde a partir do décimo andar de um arranha-céu (lembrando que naqueles anos arranha-céus tinham em torno de dez andares). O bonde para Salu é um elemento distante, um ponto visto do alto, um objeto que se percebe como um pequeno sinal na superfície das ruas. Os bondes “de capota parda; chatos e rastejantes, parecem escaravelhos”, escreve Erico. Salu recém pagou pelo sexo que fez com Calcilda na noite anterior e a dispensou dizendo “agora vai dando o forinha, sim?”. Na relação bonde-Salu existe uma distância da percepção desse personagem em relação à realidade do que habita o transporte coletivo. Ele o vê como um inseto minúsculo dada a distância que se faz notar no texto. Bonde e personagem, no Centro, quase num mesmo ponto geográfico. Bonde e personagem distantes no plano vertical. O bonde visto de cima rasteja aos olhos de quem pode subir — nesse caso, de elevador.

O segundo personagem é Neli, a Miss Futebol, em deslocamento parcial para o Centro. Se observarmos a personagem Neli, de A ronda dos anjos sensuais, praticamente embarcamos com ela no transporte público, estamos juntos na superfície da cidade. A narração de Reynaldo Moura é assim: “durante o trajeto do bonde, pensou que talvez fosse melhor ir até o seu destino misterioso dessa tarde, sem automóvel. Assim não chamaria atenção”. O destino misterioso é a clínica de aborto no Menino Deus, para onde Neli seguirá depois de sair do bonde. A ideia sobre o Menino Deus, destino final de Neli, aparece da seguinte forma: “Deve ser com certeza uma rua de gente pobre, que vive a espiar pelas janelas os pequenos acontecimentos do bairro”. Acompanhamos como leitores essa ida e estamos próximos de ambos (da personagem e do transporte). Há uma angulação na qual percebemos a tensão do deslocamento de Neli. O percurso que ela traça no bonde vai da Independência ao Centro. Ela que pertence a uma elite e tem toda a preocupação de não ser vista por quem faz parte de seus círculos sociais mal sabe o trágico fim que a espera nessa cidade grande (nem tão grande, como bem sabemos). 

A conclusão nos leva a entender o quê? 

De forma bem simplificada, podemos dizer que o bonde nos transporta (sem perdão pelo trocadilho) a compreensões sobre classe social, sobre questões de gênero, sobre percepções de mundo que diferenciam aqueles que sofrem com a urgência e os que não sofrem. Um ensaio que até o momento aponta o quanto Porto Alegre é uma cidade que merece ser pesquisada, sim, com mais literatura. E por mais que os mapas sejam uma escolha particular, outro elemento se torna cada vez mais indispensável aos estudos: o espaço para diferentes perspectivas.

Acima e na capa, cenas da montagem de Incidente em Antares, produzida pelo Grupo Cerco e dirigida por Inês Marocco, a partir de texto de Erico Verissimo (Foto: Flávio Dutra/JU)

Ângelo Chemello Pereira é mestrando em literatura pela UFRGS e editor na revista digital Parêntese.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”