Pós-graduandos criam grupo online para seguir o método de estudo pomodoro

Pesquisa | Técnica de gerenciamento de tempo alterna trabalho e minutos de descanso com objetivo de aumentar a produtividade

Tente ficar 25 minutos totalmente focado em uma tarefa. Depois descanse por outros cinco. Se você teve alguma distração antes de fechar o tempo de concentração ou se esqueceu de fazer o intervalo e seguiu por horas repetindo a mesma ação, um projeto criado por pós-graduandos de Administração da UFRGS pode te ajudar a seguir essa técnica de estudo, chamada pomodoro. Usado com o objetivo de aumentar a produtividade, o método que seria aplicado presencialmente entre acadêmicos passou a ser realizado online por causa da pandemia de coronavírus. 

Nomeado Time to Write, o projeto foi pensado em janeiro para reunir pesquisadores que tenham interesse em estudar com essa técnica, desenvolvida no final dos anos 1980 pelo italiano Francesco Cirillo. A ideia de criar um grupo de estudos surgiu em uma reunião de trabalho da representação discente do Programa de Pós-graduação em Administração (PPGA). Na ocasião, o tema da solidão foi apontado como uma das grandes pedras no caminho dos acadêmicos que precisam concluir dissertações de mestrado ou teses de doutorado. 

Inspiradas pela experiência da doutoranda Nathalia Puffal, que participou de encontros para aplicação do método pomodoro durante o sanduíche nos Estados Unidos, ela e a colega Aline Jansen, que também faz doutorado, ficaram com a responsabilidade de organizar o projeto. Para poder reunir o máximo de pesquisadores possível, o dia escolhido para os encontros foi a quarta-feira, das 9h30 às 11h30. “Olhamos as grades de horários [do PPGA] e buscamos o dia e o turno com menos aulas, porque queríamos começar a trabalhar no início do semestre. Divulgamos o projeto por e-mail para todos os alunos do programa e tínhamos até organizado um coffee break, mas aí veio o coronavírus”, lamenta Aline.

Projeto Time to Write aplica o método de estudo Pomodoro (Foto: Arquivo Pessoal)

A suspensão das aulas presenciais, então, fez com que o grupo de estudos migrasse para o Mconf, plataforma de reunião a distância da Universidade. O primeiro encontro virtual ocorreu no dia 22 de abril, e a média de participantes por semana tem sido de 15 pessoas.  “Como muitos não se conhecem, nós temos feito uma apresentação ao final das reuniões, quando também pedimos para que eles digam onde estão. Só dois ou três têm acessado de Porto Alegre, a maioria está espalhada pelo interior. Teve também gente que entrou de outros estados e de fora do país – da Dinamarca e da Itália. Isso é muito legal, pois são pessoas que não estariam no projeto presencialmente”, completa a acadêmica.

No último ano do doutorado na área de Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade do PPGA, Carlos Alberto Oliveira participa do Time to Write desde o primeiro encontro. Morador de Caxias do Sul, onde trabalha como pesquisador na Secretaria de Agricultura, ele conta que tem gostado do projeto pelas oportunidades de seguir o método pomodoro em grupo e de se reunir com outros pesquisadores para trocar ideias, expor dificuldades e buscar ou oferecer ajuda.

“Eu já conhecia a técnica e aplicava de forma individual, mas muitas vezes burlava os tempos. Eu começava a ler alguma pesquisa e não fazia os intervalos propostos, chegando a três ou quatro horas sem parar, o que não é adequado para a saúde. O grupo tem representado um momento muito produtivo para todos, pois cada um usa o tempo de trabalho como preferir, seja lendo ou escrevendo, e depois podemos nos apoiar nos momentos de descanso.”

Carlos Alberto Oliveira

Quando acabam as reuniões virtuais, o doutorando conta que sai com o sentimento positivo de dever cumprido: “uma sensação de realização”. É a mesma satisfação relatada por Aline. Embora atue na organização do projeto, controlando o tempo e mediando os intervalos, a pesquisadora conta que notou até uma melhora de humor nas quartas-feiras, após o Time to Write.

“A técnica pomodoro é muito eficiente, mas se tu seguires direito. Sozinha, eu não respeito tanto os tempos. Mesmo se deixar o celular longe, às vezes me distraio e entro em sites de notícias ou no Facebook. Quando estou no grupo, sinto uma motivação para trabalhar. Vejo que todo mundo está estudando e me esforço para não desfocar. Assim, os ciclos de 25 minutos acabam passando muito rápido.

Aline Jansen
Música calma para evitar o susto

A concentração dos participantes do Time to Write nos momentos de estudo é tanta que, quando, nos primeiros encontros, Aline ligava o microfone para anunciar o intervalo, alguns participantes levavam um baita susto. E como ninguém gosta de ficar pulando da cadeira a cada anúncio de descanso, a solução sugerida por uma integrante foi que a organizadora colocasse uma música calma e fosse subindo gradativamente o volume para anunciar o fim do momento de foco. “Fez toda a diferença. Além disso, também passamos a deixar os tempos na tela de fundo, que vamos riscando conforme avançamos nas etapas. Assim, se alguém entra atrasado, pode ver em que ciclo estamos”, afirma Aline.

Organizadores do projeto controlam o tempo e fazem a mediação dos intervalos (Foto: Arquivo Pessoal)

Professor do PPGA, Luis Felipe Nascimento é um dos dois docentes que têm participado do Time to Write. Para os educadores, o projeto proporciona um momento de dedicação exclusiva para pesquisas e leituras, que muitas vezes são atrapalhadas pelo excesso de funções administrativas. 

“Achei o método muito produtivo, porque nos faz esquecer do telefone e deixar o café e o chimarrão para os intervalos. Além disso, fazer junto com os alunos é um estímulo a mais, uma forma de integração. Sinto falta dos momentos de intervalo na sala de aula, de ficar conversando com os estudantes. Ver eles sorrirem, mesmo que seja pela câmera, gera uma energia positiva.”

Luis Felipe Nascimento

O docente já conhecia o pomodoro, mas nunca o tinha experimentado. Assim como Carlos, o professor é acostumado a ficar horas trabalhando, principalmente à noite, sem pausas. “Fico sem sair da cadeira e, depois, tenho dor nas costas. Não tenho a disciplina de levantar e me alongar, o que é muito importante. Com o Time to Write, tem alguém para me dizer que é intervalo”, acrescenta.

Participar do projeto também fez o educador refletir sobre as dinâmicas que usa nas aulas presenciais, muitas de quatro horas. “O pomodoro mostra que é bom dar uma pausa ao cérebro para ficarmos mais produtivos”, relata.

Iniciativa melhora saúde mental durante o isolamento

Professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFRGS, Rosa Maria Martins de Almeida afirma que o Time to Write também serve para melhorar a saúde mental dos estudantes durante o período de isolamento social.

“Os humanos são seres sociais que precisam de apoio. Por isso, durante a quarentena, a solidão pode levar à depressão. Nesse cenário, momentos de produtividade e interação como os oferecidos nesse projeto são muito importantes, pois contribuem para aumentar a autoestima. Os participantes sabem que não estão sozinhos e se sentem úteis.”

Rosa Maria Martins de Almeida

Além disso, ter contato com pessoas que tenham as mesmas finalidades e dificuldades faz do grupo um espaço de escuta essencial para a fase de pós-graduação, na qual os alunos enfrentam muitas cobranças e pressões. “É muito difícil alguém passar pelo mestrado ou pelo doutorado sem ansiedade, por isso precisa de apoio social”, completa. 

Participantes ficam 25 minutos focados nas tarefas e têm 5 minutos de intervalo (Foto: Arquivo Pessoal)

Já sobre a técnica pomodoro, a professora explica que as pessoas conseguem se manter concentradas por no máximo 40 minutos, por isso ter mudanças nas atividades cognitivas, como a alternância entre foco e descanso a cada 25 minutos, ajuda no aprendizado. “O cérebro não aguenta muito tempo fazendo a mesma coisa, precisa de uma quebra na rotina para aumentar o rendimento”, explica.

Apesar de ter sido criado e divulgado para pós-graduandos do PPGA, o Time to Write é um grupo aberto para qualquer pessoa que queira estudar usando o método pomodoro, tendo ou não relação com a UFRGS. Para participar, basta preencher o formulário de inscrição