Programa de formação em educação musical segue atuando junto a escolas

Sonoridades | Programa Piá Concertos e Oficinas produz conteúdo para as redes, ampliando o repertório musical do trabalho desenvolvido em escolas de educação infantil de redes públicas de ensino

“Já estou aqui me emocionando.” Este foi o comentário de Roselaine assim que apareceu na tela de seu computador o vídeo produzido pelos integrantes do Programa de Extensão Piá Concertos e Oficinas, da Faculdade de Educação da UFRGS (Faced). Nas imagens que intercalam gravações em estúdio e tomadas externas de atividades desenvolvidas em escolas, bolsistas e voluntários, sob a coordenação da professora Dulcimarta Lemos Lino, cantam suavemente: “Tudo que se vê na vida dá pra resolver”, estribilho da canção composta por duas crianças, Matheus Silva e Felipe Narciso. 

O vídeo foi apresentado no encerramento do Primeiro Enlace Virtual, no dia 14 de maio, modalidade online de formação para professores realizada pelo Piá. De acordo com Milene dos Santos Compagnon, coordenadora pedagógica da Escola Municipal de Educação Infantil da Vila Nova São Carlos, esse foi o terceiro encontro que a turma da Faced realizou com a escola, que fica na zona leste de Porto Alegre. Ao ver-se na tela junto a suas colegas, que agora só encontra nas reuniões por videoconferência, Roselaine disse sentir-se emocionada. 

Além do trabalho pedagógico na Vila Nova São Carlos, Milene também é uma das integrantes do Piá. Na verdade, participa do grupo desde o início. Ela diz que sua atuação profissional tem sido fortemente impactada pelo programa. Logo que retomaram os encontros semanais de forma virtual e conversaram sobre modos de estarem presentes mesmo durante o isolamento social, ela teve a ideia de telefonar para cada uma das 123 famílias dos alunos da escola simplesmente para saber como estavam. “Agora tem muita gente fazendo isso, o que é bom.”

Encontros musicais durante o isolamento

Milene refere-se ao dia 20 de março, logo após a recomendação do isolamento social por conta do coronavírus, quando o Piá migrou seus dois encontros semanais para o ambiente virtual. Ainda que um espaço limitador para o desenvolvimento de atividades musicais em grupo, essa foi a forma que Dulcimarta, dois bolsistas e cinco voluntários encontraram para não interromper seus estudos e experimentos sonoros. 

A segunda definição foi a criação de um Instagram que desse continuidade ao trabalho de formação junto a professores, especialmente das redes públicas municipais de Porto Alegre e de São Leopoldo, nas quais já vinham realizando oficinas e concertos. São três as modalidades de conteúdos veiculados via rede social cuja divulgação foi realizada diretamente entre as escolas já integrantes do projeto e também junto à Seção Nacional do Fórum Latino-americano de Educação Musical (Fladem), da qual Dulcimarta é membro. 

Todas as terças-feiras são postadas sugestões musicais de compositores gaúchos e às quintas-feiras de artistas nacionais. “Não é ensinar música gaúcha e, sim, desenvolver o conceito de barulhar, brincar com sons”, esclarece a coordenadora. Também estão sendo veiculadas as composições produzidas com as crianças de 2017 a 2019 e divulgadas as formações gratuitas para professores que atuam com ensino de música nas escolas, assim como eventos do grupo de músicos do Piá. 

Em paralelo à produção do conteúdo para as publicações semanais no Instagram, o grupo vem trabalhando na construção do material a ser divulgado pelo Pó de Questim, podcast dedicado especialmente à infância onde gravarão semanalmente ritmos brasileiros tradicionais. “O projeto é de 2020 e tem o objetivo de resgatar o patrimônio cultural brasileiro, nosso sopapo, maçambique, maracatus, cocos”, explica Dulcimarta.

Relembrando bastidores presenciais

Dulcimarta ingressou como professora de educação musical na Faced em dezembro de 2016. Desde o início, ela se identificou com o grupo de professores, estudantes e pesquisadores que se contrapõe a uma educação musical colonizadora, eurocêntrica, que desconsidera a produção musical brasileira dos povos originários. Um dos feitos desse grupo, inclusive, foi a aquisição do único sopapo existente na Universidade – tambor de um metro de altura, de timbre grave e intensa vibração, encontrado apenas no sul do Brasil. Ela costumava fazer seus experimentos musicais no atelier da graduação em Educação do Campo, na Faced. “Há forte embate e resistência entre os professores deste curso”, comenta a pianista. 

Com longa experiência no ensino superior na formação de professores das redes públicas de ensino na sua área – desde 1999 trabalhava na Unisinos –, em 2018 Dulcimarta criou o programa de extensão Piá Concertos e Oficinas, conectado às atividades de pesquisa e ensino na Faced. A motivação dessa proposta surgiu da vivência junto às escolas municipais das redes de ensino de Porto Alegre e de São Leopoldo, por meio do projeto Escuta: sonoridades poéticas em sala de aula. A docente conta que durante os encontros de formação ela e os alunos constataram a carência de um repertório musical brasileiro entre os professores dessas instituições: “Faltava um cardápio sonoro destituído da visão de mercado, de consumo, e fixado na produção musical brasileira e sul-rio-grandense”. 

Em resposta a esse cenário, ainda antes da criação do Piá, nos encontros subsequentes nas escolas passaram a realizar concertos e oficinas trabalhando sonoridades brasileiras. 

“A educação infantil e as séries iniciais são o começo do linguageiro musical, quando exercitamos a escuta da criança para aperfeiçoar o ouvido pensante e assim articular escolhas.” 

Dulcimarta Lemos Lino 

Para essa nova proposta de trabalho junto às escolas foi necessário formar um grupo musical, para o qual Dulcimarta fez uma seleção entre os estudantes matriculados na disciplina Educação Musical, que ministra no primeiro semestre do curso de Pedagogia. Entre os pré-requisitos estava experiência prévia em prática musical, seja como instrumentista, seja como cantor ou cantora. 

Constituído o Programa Piá e consolidado o grupo – dois bolsistas e cinco voluntários –, tem início uma série de ações no sentido de propor uma educação musical na formação de professores a partir de uma perspectiva que privilegia a qualidade da produção musical, a criatividade e a participação de todos os envolvidos na atividade de aprendizagem. “Se vamos tocar em uma escola em Santa Cruz do Sul, por exemplo, convidamos um músico local desconhecido (fora do circuito da mídia) para se apresentar conosco.” Como desdobramento dessa proposta inicial, nasce o Piá: Núcleo Itinerante de MPB, que atua em diferentes territórios educativos, como universidades e espaços culturais, além das escolas públicas. 

A surpresa de descobrir novas sonoridades
Augusto Vargas é o luthier do Programa de Extensão Piá. Aluno do curso de Artes Visuais do Instituto de Artes, desde pequeno se envolvia nos trabalhos do pai como marceneiro ou na construção civil. Com cerâmica, produz instrumentos que geram sons a partir do sopro ou que usam os movimentos da água como elementos sonoros (Fotos: Flávio Dutra/JU)

Augusto Vargas é aluno do curso de Artes Visuais no Instituto de Artes (IA) da UFRGS. Pela segunda vez é bolsista do Programa Piá, sendo luthier sua principal atividade, ao construir instrumentos musicais. Sua incursão nesse universo de sonoridades se deu quando construiu sua própria ocarina, um dos instrumentos musicais mais antigos do mundo, pertencente à família das flautas. Então, ele uniu sua habilidade de moldar o barro à sua atração pela música, embora faça questão de salientar que não é instrumentista, ainda que goste de arriscar-se a tocar o erhu, ou violino chinês, que eles têm no Piá. “Produz um som lindo”, comenta.

No Salão de Extensão de 2018, ele ministrou, por intermédio do programa, a oficina Gambiarra Sonora. A partir dessa experiência, o grupo começou a oferecer a atividade às escolas já parceiras do Piá. De acordo com Augusto, à primeira vista as pessoas se sentem inibidas, imaginando que será muito complicado construir instrumentos musicais. Por isso, ele costuma começar mostrando como transformar simples canudos plásticos em pequenas flautinhas. 

Em seu apartamento no bairro Petrópolis, há uma variedade de criações sonoras construídas a partir de objetos simples com os quais convivemos. Quanto ao resultado dos sons produzidos por cada novo instrumento, ele confessa muitas vezes ficar surpreso. “É bem legal, não tenho certeza como vai ficar.”

Assim como aconteceu com Milene, a passagem de Augusto pelo Piá tem repercutido em sua formação. “Abriu mais possibilidades, antes não cogitava dar aula”, revela, ainda que siga com algumas ressalvas: “Mas ainda não defini” – ele é aluno de bacharelado no IA. Além de luthier, o bolsista faz os vídeos para as atividades do programa de extensão. Esta, aliás, tem sido uma de suas ocupações durante o isolamento: estudar tutoriais na internet sobre produção de vídeos. Isso sem contar os outros tantos projetos que ele diz estar tirando do papel agora que está ficando em casa. 

Abaixo, os projetos para os instrumentos do programa que nascem nos desenhos de Augusto, a partir das interações com o grupo. Desde inspirações orientais, passando pelo grupo mineiro Uakti ou de criações próprias, os objetos usam materiais como cerâmica, canos de pvc, plástico, canudinhos de bebida ou madeira.

Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes
Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes
Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes
Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes
Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes
Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes
Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes Foto: Arquivo pessoal Augusto Nunes