Projeto de Design de Serviços propõe soluções de atendimento a pequenos negócios, profissionais liberais e trabalhadores informais

Assessoria gratuita | Estudantes voluntários dão dicas, prestam orientações a pequenos empreendedores e desenvolvem alternativas de design para que se mantenham os negócios durante o isolamento social

*Foto de capa: Aline Jansen/Arquivo pessoal

Um grupo de alunos voluntários de graduação e pós-graduação em Design da UFRGS trabalha desde o mês de março no projeto “CoviDesign|UFRGS: Design de Serviços para Soluções de Atendimento com Distanciamento Social”. A iniciativa é coordenada pelo professor Gilberto Consoni, que idealizou a ação, e tem o objetivo de desenvolver, de forma remota e gratuita, soluções de design a curtíssimo prazo para pequenos negócios, profissionais liberais e trabalhadores informais manterem as atividades durante o período de isolamento.

O design de serviço é utilizado por muitas empresas para organizar, planejar e desenvolver pessoas, estruturas, materiais e informações de forma a oferecer para os consumidores a melhor experiência possível. “Alguns negócios estão oportunizando novos canais de venda”, conta Gilberto. 

Segundo ele, se antes esses pequenos empreendedores não tinham tempo para pensar estratégias de rede com o objetivo de divulgar os produtos e comercializá-los online, neste momento, em função do impacto que o coronavírus provocou, o interesse em levar os negócios para a internet aumentou. Além das dicas via Facebook e Instagram, os interessados também podem solicitar atendimento individualizado para discutir sobre seus produtos e serviços com a equipe de voluntários. 

Os pedidos de suporte são analisados pelo professor Gilberto e distribuídos entre os estudantes conforme as necessidades apresentadas por cada caso e os interesses dos alunos. Quando a demanda requer pensar posicionamento da empresa e estratégias mais complexas, o coordenador se encarrega de fazer a abordagem com os clientes ou mesmo orientar um dos estudantes para fazê-la. 

Conforme Gilberto, a demanda maior de quem tem buscado orientação via chat – já foram atendidos cerca de 20 clientes – é do segmento de alimentação, “pessoas com produtos para venda do setor alimentício que depende da comercialização presencial”. Já quanto às curtidas das dicas publicadas nas redes sociais do projeto, as que tiveram mais engajamento referem-se a como produzir conteúdo para plataformas digitais e como colocar os produtos no meio online. “As publicações têm acima de cinco mil engajamentos”, comemora o professor. 

Depois da divulgação inicial entre os pares, o grupo percebeu que, para atingir seu público-alvo, deveria expandir a divulgação. Por isso, eles compartilharam o material do projeto com conhecidos que mantinham pequenos negócios e grupos de condomínios, para que eles repercutissem as orientações. 

Atualmente, o grupo de voluntários é de aproximadamente 15 estudantes, majoritariamente do curso de Design, embora tenha havido a contribuição de uma aluna da Biomedicina, que se ofereceu para elaborar conteúdos de segurança em saúde – manuseio, armazenagem, empacotamento e entrega – dos produtos comercializados. Conforme uma das diretrizes do grupo, no contexto atual, é importante que o empreendedor mostre que cumpre os cuidados de higiene necessários para evitar a contaminação de seus produtos, aumentando sua possibilidade de venda. 

Desde o começo, as reuniões do projeto ocorrem via sala de conferência virtual ou grupos de Whatsapp, que já são três. A primeira atividade foi mapear os negócios e segmentos que se enquadravam no recorte inicial (pequenos empreendimentos) e listar quais os possíveis problemas de cada um deles. A partir daí, chegaram a seis agrupamentos: lojas de serviços, lojas de varejo, serviços profissionais a domicílio, transporte (tele-entregas), promoção de eventos e serviços de alimentos e bebidas. 

Na sequência, foram montadas equipes para trabalhar por segmento, especificando problemas e pesquisando dicas, tendo em vista a venda, a execução do trabalho, a entrega e a pós-venda para cada negócio. Uma equipe ficou especialmente encarregada da parte do design editorial, trabalhando a identidade visual do negócio e a arte dos posts. O agendamento das publicações diárias ficou a cargo de Gilberto. 

Iniciativa possibilita que estudantes solucionem problemas reais

Ana Luisa Menezes é aluna do quinto semestre do curso de Design Visual e colabora com o projeto desde o início de suas atividades. Ela foi uma das 28 respostas de adesão à mensagem enviada no dia 24 de março pelo curso para todos os alunos e professores, indagando quem teria interesse em participar da ação. Sua decisão de ser voluntária, segundo a estudante, tem a ver com querer retribuir à sociedade o fato de ter estudado em uma universidade pública, além de questões mais subjetivas. 

“Minha motivação em ser voluntária no projeto é uma coisa muito minha, tenho vontade de minimizar a dificuldade que as pessoas estão passando”

Ana Luisa Meneses

A acadêmica comenta que não conhece presencialmente muitos de seus companheiros de projeto. Esse é o caso de Sofia Aseka, colega do primeiro semestre de curso, com quem trabalhou na semana passada para atender à demanda de Cesar Tavares, dono de uma pequena confecção em São Paulo. Pois é, São Paulo. Ana também ficou surpresa quando ficou sabendo a procedência do cliente. Durante três dias de trabalho intenso, ela e Sofia criaram a identidade visual e algumas ilustrações para divulgar a campanha de doação de máscaras da empresa via Instagram. Segundo a estudante, a circunstância do trabalho colaborativo a distância, interagindo com percepções diferentes da colega e do cliente, tornou a experiência ainda mais interessante.

Outro aprendizado deu-se ao aplicar o que ela treinou fazer na agência Faísca Design Júnior. Ela conta que, durante seus contatos com Cesar, colocou em prática o que aprendeu sobre como interagir com os clientes. “Interpretar o que ele quer e devolver em serviço”, resume. Na avaliação da estudante, fez toda a diferença trabalhar a partir de “pessoas, dúvidas e problemas reais”. 

Aluno do curso de Design de Produto, Guilherme Purri também é voluntário do projeto desde o início. Nesta semana, ele encerrou o trabalho que vinha realizando para uma pequena loja de assistência técnica de Pelotas. A solicitação era o desenvolvimento de uma identidade visual para a loja, pois a anterior era muito limitada, por ter sido produzida de forma muito caseira, sem qualquer compreensão de estética e de estratégia de venda.

“Conversamos bastante e foi muito legal, porque ele quis conhecer nossa empresa e estava sempre preocupado em cumprir prazos”, relata a cliente Aline Jansen, filha de João Luis Jansen, proprietário da loja de assistência técnica para quem Guilherme vem desenvolvendo alguns produtos digitais para uso nas redes da empresa.

Já para o estudante, o contato direto com o cliente é um dos aspectos positivos do projeto em termos de formação profissional. Segundo ele, embora todos os voluntários possam recorrer ao coordenador em casos mais complexos, o fato de ficarem à frente do serviço, “fazendo tudo sozinhos e procurando as necessidades específicas”, contribui para a autonomia profissional. Por outro lado, assim como Ana, Guilherme também reconhece a importância da experiência no CoviDesign para além do aspecto acadêmico; ele percebe o projeto como “um serviço de cunho social”.

Assistência técnica de Pelotas é um dos pequenos negócios beneficiados com o projeto  CoviDesign/UFRGS: Design de Serviços para Soluções de Atendimento com Distanciamento Social (Foto: Aline Jansen/Arquivo Pessoal)

Do lado dos clientes, Aline considera que, não fosse o contexto atual de necessidade mais urgente de atingir clientes para garantir as vendas, seu pai jamais teria aceitado a sugestão de buscar assessoria no projeto. Segundo ela, o setor da construção civil, onde se insere o negócio da família, é muito conservador. Por isso, há muita resistência em buscar soluções como marketing digital e identidade visual para os empreendimentos, o que fica ainda mais difícil quando há pouco recurso para investir em trabalhos profissionais. “Ele inclusive está reconhecendo o valor das redes sociais”, comemora a empresária, responsável pelo Facebook da loja da família.

Doutoranda em Administração na UFRGS, Aline avalia que “é importante que essas pequenas empresas vejam o valor (do marketing digital) e começarem a investir nisso”. Num âmbito maior, salienta que “essa crise veio para abrir os olhos, sair da zona de conforto e superá-la”.