Projeto de extensão da Escola de Administração já ajudou 40 empresas durante a pandemia

Assessoria gratuita | O SOS-PME integra uma rede de apoio com outras iniciativas da Universidade. A ação identifica problemas e propõe soluções para pequenas empresas enfrentarem o impacto da pandemia

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Entre os reflexos da pandemia está o impedimento parcial ou total de algumas atividades econômicas, o que afeta, sobretudo, empresas de pequeno e médio porte. Nesse contexto, o projeto de extensão SOS-PME, ligado à Escola de Administração da UFRGS (EA), montou uma rede de assessoria para ajudar pequenas e médias empresas (PMEs) a lidar com os impactos econômicos da pandemia. Nas empresas inscritas no projeto, a redução do faturamento atinge 9 em cada 10, sendo que metade delas relatam reduções de acima de 50%. Como resultado, 35,8% das empresas projetam reduzir muito a operação e 7,4% pretendem fechar as portas.

Uma das coordenadoras do projeto, Daniela Brauner, relata que “quando saiu o comunicado [da paralisação das atividades presenciais] feito pelo reitor, no dia 16 de março, professores da EA se uniram para pensar como mobilizar alunos e ajudar empresas”. Duas semanas depois, no dia 28 de março, começaram a mandar formulários convidando as empresas a se cadastrarem — até a publicação desta reportagem, já eram 84. Na semana seguinte, iniciaram-se os atendimentos.

Uma das empresas assessorada pelo SOS-PME é a Escola de Ensino Fundamental e Educação Infantil Amigos do Verde. O projeto pedagógico da escola promove uma educação integral que vai além do desenvolvimento cognitivo dos alunos, pois aborda também o emocional, o físico e o ético. Por conta desse modelo, o desafio que a escola enfrenta é a necessidade de se reinventar em vários aspectos, como se apropriar de ferramentas para readequar as aulas, resguardando os princípios da escola, como manter o suporte aos funcionários e proporcionar às famílias condições para assegurarem a educação das crianças. Entre os chamados dos filhos durante a entrevista ao JU, a diretora, Luna Carneiro Behrends, relata que a dificuldade tanto para ela quanto para as famílias dos alunos é conciliar o home office com o trabalho doméstico, os cuidados com os filhos, tarefas que ela divide com o marido. Com relação às atividades escolares, ela enfatiza que “agora esse papel tem sido dividido com as famílias, por isso elas precisam sentir que estão sendo apoiadas pela escola – e que não seja algo desgastante para esses pais”.

“O autoconhecimento é muito presente no nosso dia a dia e também tem sido bastante desenvolvido em atividades que promovem a interação das famílias com as crianças – que trabalham essa questão. Isso tem a ver com os aspectos ético e emocional, como saber ouvir e o respeito ao próximo.”

Luna Carneiro Behrends

A redução da receita também é um desafio: muitos alunos saíram e outras famílias pedem descontos na mensalidade. Nesse contexto, a escola se inscreveu no projeto SOS-PME para ter um olhar global sobre a escola e poder repensar as dificuldades enfrentadas e as mudanças que têm sido feitas.  “Muitas empresas estão precisando se reinventar para passar por esse momento de pandemia e de crise, e na escola não é diferente. Buscamos o projeto para podermos ter algumas ideias e recebermos algumas sugestões, orientações de pessoas especialistas de diversas áreas e podermos construir juntos”, relata Luna.

A escola Escola de Ensino Fundamental e Educação Infantil Amigos do Verde é uma das empresas que buscou auxílio junto ao SOS – Pequenas e Médias Empresas. Conciliar as atividades escolares a distância com a rotina das famílias e manter a sustentabilidade gerencial e econômica é um dos seus desafios em tempos de pandemia (Foto: Flávio Dutra/JU)

A voluntária Sofia Cunha, mestranda em marketing na EA, comenta que o caso da Amigos do Verde encontra eco em outros estabelecimentos: “Muitos empresários têm necessitado de um apoio quase psicológico: a necessidade de escutar, conversar, passar percepções faz com que eles se sintam mais seguros, já que é um momento de insegurança muito grande. Conversando conosco, os empresários veem que eles não estão sozinhos”, relata.

O projeto conta ainda com o apoio do Centro de Estudos e Pesquisa em Administração (CEPA) e do Parque Científico e Tecnológico Zenit. O CEPA foi responsável por criar um painel com os dados das empresas cadastradas, a principal ferramenta de apoio à tomada de decisões das assessorias prestadas. Pelo Zenit, foram promovidos contatos com empresários. Dele também provêm os consultores voluntários para o projeto.

Como funciona o atendimento

Mais de 200 voluntários se cadastraram no projeto, entre alunos de graduação e pós-graduação, técnicos administrativos, professores aposentados e ex-alunos. Eles se dividem em equipes multidisciplinares de 3 ou 4 pessoas, coordenados por um professor do CEPA, por pós-graduandos ou consultores de empresa. Embora os grupos sejam pequenos, a diversidade das equipes é fundamental para promover uma visão ampla sobre os problemas de cada caso, a partir de perspectivas diferentes, como marketing, comunicação, visão estratégica e finanças. Os voluntários também têm origens múltiplas: alguns vêm da Escola de Engenharia, do Direito ou do agronegócio. 

No painel elaborado pelo CEPA, é possível filtrar informações sobre as empresas que foram coletadas no momento da inscrição, como impacto no faturamento, previsão de crescimento a curto prazo, tempo de operação. Assim é feita a seleção das empresas que serão atendidas em cada rodada pelas 30 equipes, que trabalham em paralelo.

“É uma oportunidade de interagir com pessoas que têm muito em comum com a gente, mas com quem nunca teríamos entrado em contato não fosse o projeto.”

Sofia Cunha

Os voluntários são agrupados de acordo com suas áreas de conhecimento. Há o grupo principal, que faz a análise financeira, e um específico, integrado pelos alunos da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, que assessora todas as equipes no que tange à comunicação. Os atendimentos são feitos em reuniões virtuais. 

Mesmo trabalhando em isolamento, a dinâmica social entre os participantes é intensa. Para Sofia, as equipes multidisciplinares e o dinamismo na troca das equipes compõem uma experiência desafiadora e enriquecedora ao mesmo tempo. Os ciclos de assessoria duram em torno de duas semanas, e “essa experiência acaba agregando muito conhecimento e produz um jeito de trabalhar diferente, que envolve alunos, professores, profissionais e a aplicação do nosso conhecimento em ciclos muito rápidos”.

“Em um time de atendimento, cada um dá a sua visão de como a empresa pode sair da situação. Assim, o aluno começa a ter uma visão completa do problema e a entender as várias perspectivas da solução.”

Daniela Brauner

Das sugestões acumuladas a partir das assessorias a diferentes empresas, o projeto elaborou um mural, acessível a qualquer pessoa, com dicas elaboradas por voluntários de várias áreas.

Iniciativas da Universidade integram rede de apoio a empresários

Em tese, o escopo do trabalho da SOS-PME é diagnosticar problemas e levantar soluções para as empresas. Mas, na prática, a atividade não acaba por aí. A CEPA coordena uma rede de apoio formada inteiramente por projetos universitários que prestam assessoria gratuita às empresas durante a pandemia.

Quando necessário, as equipes fazem um encaminhamento às empresas juniores da Universidade para que elas os ajudem a aplicar as sugestões. Até o momento, PS Júnior, Equilíbrio Assessoria Econômica e Atlântica Consultoria Internacional são as empresas parceiras do projeto, ligadas aos cursos de Administração, Ciências Econômicas e Relações Internacionais, respectivamente. Vinícius Constantino, diretor-geral do Núcleo de Empresas Juniores (NEJ POA), afirma que as empresas juniores, por definição, não fazem trabalhos gratuitos. Mas, agora, para projetos específicos, cada uma abriu uma linha gratuita de atendimento. Outro projeto surgido durante a pandemia para ajudar pequenos empresários e que colabora com a SOS-PME é o Covidesign, que atua quando há um problema específico em design.

Interação entre Universidade e comunidade externa traz resultados à academia

Embora o principal objetivo seja ajudar as empresas, o projeto também está trazendo resultados positivos para a academia. Por exemplo, no formulário, os empresários são consultados se o seu caso pode ser levado à sala de aula no futuro. O CEPA também pretende usar os dados em estudos posteriores. 

“No início, a gente imaginou que as consultorias iam ser muito baseadas na assessoria, mas temos aprendido muito sobre conhecimentos que nós temos na academia e que podem ser levados tanto para a comunidade acadêmica quanto para a comunidade civil. Assim, a gente vê mais valor ainda no que estuda nos cursos.”

Sofia Cunha

Brauner afirma que a aproximação entre as empresas, a universidade e a comunidade externa de voluntários enriquece o ensino: “A multidisciplinaridade é muito importante para a Universidade. Nós temos que transformar o nosso ensino em um ensino baseado em projetos, em casos reais”, ressalta. Para Daniela, o SOS-PME é, também, uma maneira de engajar os alunos enquanto as aulas estão suspensas e, assim, promover uma forma diferente de ensinar.