Raquel Kubeo: concretude e comunidade

Câmpus Centro | Mestre em Educação, pesquisadora proveniente de Manaus expressa a falta dos espaços de encontros, partilhas e trabalho conjunto

*Foto de capa: Flávio Dutra/Arquivo JU 07 jul. 2020

Com os cabelos pretos à altura das orelhas e brincos longos de miçangas com as cores do arco-íris, Raquel Kubeo fala numa cadência calma, quase cansada, mas atenta, firme e resistente. Indígena da etnia Kubeo – que tradicionalmente ocupa território na floresta Amazônica entre o Brasil e a Colômbia, ao longo do Rio Uaupés -, concluiu o mestrado em Educação na UFRGS em janeiro deste ano e atualmente mantém a ocupação de professora temporária junto à Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre.

Sua atuação mais importante, no entanto, é a militância junto à comunidade à qual se une na região central da cidade, mais propriamente na Cidade Baixa. Trata-se do Centro de Referência Indígena-Afro do RS, do qual é cofundadora. É da casa ocupada pela organização que ele fala – ao fundo a parede verde é coberta com artes indígenas, palhas de tucumã, um cesto guarani preenchido com ramos de macela. O agir militante, se reportando ao período de convivência na UFRGS, sempre dividiu espaço com os estudos. Com a pandemia isso se acentua, pois, enfatiza, a comunidade teve de pensar na sobrevivência. “Ficamos vulneráveis, não só nós, mas as aldeias com as quais temos contato. Precisamos dar um apoio. Muito tive que me dividir entre a pesquisa e o trabalho comunitário, que é meu traço indígena.”

“A pandemia tem nos levado a outras frentes de luta, principalmente em relação às questões de segurança alimentar de algumas comunidades e do sustento das parentas que vendem artesanato”

Raquel Kubeo

Dos tempos em que era possível frequentar o espaço físico da Universidade, sente falta do contato com os colegas e das experimentações nos laboratórios, tendo os equipamentos disponíveis. Sente falta de montar os materiais, os livros acessíveis – em alto-relevo, em braile, etc. “Faz falta essa parte do concreto, do estar trabalhando juntos na mesma sala”, completa. Ela comenta que os encontros dos grupos de pesquisa sempre foram acolhedores e formativos.

Raquel se ressente, por outro lado, do fato de não haver professores indígenas na Universidade e de alguns docentes ainda não levarem em conta nas suas disciplinas os conhecimentos de pessoas indígenas.

“Estar dentro da universidade como estudante indígena ainda significa quebrar muitas barreiras. Há pouca representação indígena. É preciso quebrar barreiras do preconceito e do racismo na sociedade, porque é sempre cobrado da gente que somos atrasados, que não temos um nível de educação necessário pra frequentar certos espaços. Por muitos anos, desde que a colonização chegou nesse território que hoje também é conhecido como Brasil, nós fomos estudados, observados e feitos como objetos; então, estar do outro lado da pesquisa, na perspectiva de pesquisadora, é muito desafiador, ainda é algo muito recente”

Raquel Kubeo
Espaço para a literatura indígena

Raquel conta que o que a trouxe à UFRGS foi a possibilidade de encontrar mais linhas de pesquisa, principalmente na área da educação indígena. “Depois que conheci mais professores, e pela minha experiência na educação, mudei pra área da educação inclusiva”, revela. Ingressou no mestrado em 2018 como estudante indígena dentro do sistema de ações afirmativas do PPG em Educação.

“A minha orientadora, Liliana Passerino, infelizmente veio a falecer”, lamenta. Precisou, portanto, buscar outra orientação, chegando à professora Cláudia Freitas. Como seu projeto ainda era muito teórico, ela recomendou que Raquel acrescentasse o contexto da sua realidade. “Ela pediu que eu trouxesse histórias indígenas pra pesquisa. Pesquisei Daniel Munduruku, que já tem mais de 50 livros publicados. A partir disso, fui procurar as histórias do meu povo. Assim veio o interesse de juntar a tecnologia com a literatura indígena – e a questão da linguagem acessível pra que todas as crianças pudessem ter acesso.” No caso, foi um mito de Kubai, que é uma história do povo Kubeo – já havia um curta-metragem e a partir do roteiro foi feita a adaptação para livro infantil junto com o grupo MULTI, coordenado pela professora Cláudia.

“Na minha dissertação, procurei trazer a história da minha família a partir da história da minha mãe, que vem de um território indígena na fronteira com a Colômbia. É uma mulher indígena que foi pra cidade – eu já nasci e cresci na cidade, em Manaus. A história de Kubai tem um tanto de caminho percorrido; tem um tanto de retomada da minha história a partir desse retorno à história do Kubai”

Raquel Kubeo

Na dissertação, assevera, teve a oportunidade de trazer um contraponto à imposição da língua portuguesa, na Universidade, com a valorização das línguas indígenas. E, assim, um dos resultados da pesquisa será a publicação de um livro com recursos de acessibilidade e tradução para as línguas Tukano e Mbya Guarani. A obra se encontra em fase de finalização.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: