Retrocesso educacional

Mural de Luiz Carlos Cappellano, no CEFORTEPE – Centro de Formação, Tecnologia e Pesquisa Educacional da Secretaria Municipal de Educação de Campinas-SP (Foto: Luiz Carlos Cappellano/ Reprodução)

Enquanto se anunciam mundo afora alvissareiras mudanças educacionais na direção de uma pedagogia ativa, muitas delas demandadas pelo mundo do trabalho que se modifica rapidamente, tem surgido uma reação em forma de saudosismo pedagógico com coloração religiosa, exigindo o retorno da velha pedagogia, da velha escola; cobrando, entre outras coisas, que o criacionismo seja ensinado lado a lado ao evolucionismo de Darwin. O que é difícil de compreender, e de aceitar, é que sinais inequívocos de tão chocante retrocesso apareçam num plano de governo da república brasileira. O trágico acontece quando se ignoram os limites entre religião, militância político-partidária e academia – isso vale para todos os pontos cardeais da política.

O plano de governo do presidente eleito, registrado no TSE, afirma: “Precisamos revisar e modernizar o conteúdo, expurgando a ideologia de Paulo Freire…”. O anúncio dessa execração pública de Freire tem aparecido em vários veículos de comunicação. Em entrevista à Veja, Maria Inês Fini, então presidente do INEP, diz: “Paulo Freire trouxe a ideia de que um adulto seria alfabetizado de forma mais eficiente se fossem levados em consideração a cultura e o contexto das camadas excluídas da população. E ele foi efetivo, marcou época, fez história. Muita gente que o demoniza não sabe o que realizou e usa argumentos rasos para derrubá-lo… Tenho medo dessa ignorância ativa e dinâmica. A educação brasileira não tem tempo a perder com isso”.

Que motivos podem alimentar essa preocupação do novo governo? Paulo Freire (1921-1997) é um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial e Patrono da Educação Brasileira. Em 1964, ele foi preso, acusado de comunista e exilado por 16 anos; na Bolívia, depois no Chile, onde publicou Pedagogia do Oprimido (1968), com prefácio do professor cassado da UFRGS, também exilado, o filósofo Ernani Maria Fiori. Em 1970, Genebra, na Suíça, a partir de onde desenvolveu programas de alfabetização para a Tanzânia, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Em 1980, voltou definitivamente ao país, passando a ser professor da PUC-SP (onde fui seu aluno) e da Unicamp. Foi secretário de Educação da prefeitura de São Paulo entre 1989 e 1991. Considerado o terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo, escreveu diversas obras em parceria, como Conscientizar para libertar (com António Nóvoa), Medo e ousadia (com Ira Schor) e Por uma pedagogia da pergunta (com Antonio Faundez).

Sua importância em vida foi reconhecida mundo afora pelos prêmios Doutor Honoris Causa por mais de 30 universidades, como The Open University e Nebraska-Lincoln (EUA), Universidades de Genebra, de Estocolmo, de Lisboa; e 12 universidades brasileiras, entre as quais a UFSM, UFRJ, UNICAMP, UFPA, UFCE e a UFRGS. Recebeu, após sua morte, cinco prêmios in memoriam, como das universidades de Brasília e de Oldenburg (Alemanha).

Em Pedagogia da autonomia (1995), lega aos docentes de todos os níveis de ensino um ideário em que não deixa dúvidas sobre a sua opção por uma pedagogia ativa. “Meu papel de professor progressista não é apenas o de ensinar matemática ou biologia, mas sim […] [o de ajudar o aluno] a reconhecer-se como arquiteto de sua própria prática cognoscitiva”, declara. Em obras anteriores, já deixara clara essa ideia. Em Educação e mudança (1979), diz: “Conhecer é tarefa de sujeitos, não de objetos. E é como sujeito, e somente enquanto sujeito, que o homem pode realmente conhecer”. Daí se entende por que a Universidade de Genebra lhe atribuiu, em 1979, o prêmio Doutor Honoris Causa, em cuja cerimônia Piaget estava presente. O próprio Freire, emocionado, narrou, em 1981, na PUC-SP, o acontecimento e seu encontro com Piaget após a cerimônia da premiação.

“Será que o Brasil imporá a Freire um novo exílio? Post mortem, in memoriam? Meu apelo é que façamos o impossível para que o Brasil evite esse retrocesso histórico e não jogue no lixo da História a mundialmente reconhecida obra pedagógica de Freire”.

Fernando Becker

E, em 1996, no evento comemorativo aos 100 anos de Piaget, o Centro de Epistemologia Genética da Universidade de Genebra fez homenagem aos que considerava os dez maiores pedagogos do Século XX: seis da Europa Central, um da Rússia (Makarenko), um da Bielorrússia (Vygotski), um dos EUA (Dewey) e apenas um do chamado Terceiro Mundo: Paulo Freire.
É constante sua preocupação com a democracia, em especial com a democratização da escola. Em Educação como prática da liberdade (1976), ele alerta: “O Brasil nasceu e cresceu dentro de condições negativas às experiências democráticas”; “quanto mais crítico um grupo humano, tanto mais democrático, tanto mais ligado às condições de sua circunstância”; “necessitamos de uma educação para a decisão, para a responsabilidade social e política”. José Eustáquio Romão, amigo pessoal de Freire e especialista em sua obra, em entrevista à BBC, afirma que “Freire dá nome a institutos acadêmicos em países como Finlândia, Inglaterra, Estados Unidos, África do Sul e Espanha[; mas] nunca foi aplicado na educação brasileira”. E acrescenta: “Estou convencido de que, se aplicarmos hoje [o método Paulo Freire], acabamos com o analfabetismo no Brasil em um ano”.

Iniciativas brasileiras, como o Instituto Paulo Freire (São Paulo) e o Dicionário Paulo Freire, organizado por professores da UFRGS e da Unisinos, com mais de 200 verbetes escritos por mais de 100 autores, são exceção. Será que o Brasil imporá a Freire um novo exílio? Post mortem, in memoriam? Meu apelo é que façamos o impossível para que o Brasil evite esse retrocesso histórico e não jogue no lixo da História a mundialmente reconhecida obra pedagógica de Freire – da Pedagogia do Oprimido, da Educação como Prática da Liberdade, da Democratização da Escola, da Conscientização, da Leitura da Palavra como Leitura de Mundo, da Pedagogia do Conflito, da Pergunta, mas, sobretudo, do Diálogo, da Esperança e da Autonomia – da amorosidade e da boniteza da vida, como ele gostava de dizer.

Fernando Becker

Professor da Faculdade de Educação/UFRGS