Romance de autoria negra feminina é destaque da FestiPoa Literária

Cultura | Ciclo literário procura debater as peculiaridades de obras das escritoras Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e Maria Firmina dos Reis

*Foto de capa: Everton Cardoso

Resgatar o protagonismo de mulheres negras na literatura brasileira é uma das propostas do ciclo Percursos do Romance de Autoria Negra Feminina, evento que integra a programação da 13.ª FestiPoa Literária em parceria com o Coletivo Atinuké e o Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (DEDS) da UFRGS. Profissionais negras de diversas áreas, como letras, sociologia, teatro e história, se debruçam sobre quatro obras-chave para a compreensão da criação literária de escritoras que não costumam figurar entre os ícones do cânone brasileiro. Os cinco encontros virtuais acontecem com inscrição gratuita pela plataforma Zoom até o dia 24 de maio.

Contando com um time de dez ministrantes, o ciclo pretende abordar de maneira multidisciplinar as complexidades características das vivências retratadas em romances escritos por mulheres negras. Responsável por explorar os romances Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, e Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, Lara Cornélio considera de extrema relevância valorizar as qualidades de uma literatura que segue às margens do currículo tradicional. “A inserção, o uso dessas duas obras de mulheres negras é de extrema importância, porém vem tardiamente. Elas conseguiram, mesmo muito tempo depois de suas publicações, quebrar esse paradigma, esse parâmetro do cânone de homens brancos e héteros. É importante que tenham esse reconhecimento, porque ambas falam muito sobre o Brasil e uma realidade que os próprios estudantes vivenciam”, pondera.

Homenageada da edição deste ano da FestiPoa Literária, a escritora Ana Maria Gonçalves participa de encontro do ciclo no dia 15 de maio, às 18h, para discutir com Fernanda Oliveira e Dedy Ricardo seu aclamado livro Um Defeito de Cor.

A colaboração entre o Coletivo Atinuké, grupo de estudos que pesquisa o pensamento de mulheres negras, e o Departamento de Educação e Desenvolvimento Social já havia tomado lugar em um passado recente quando, juntos, coordenaram um ciclo de leituras dos trabalhos da filósofa Sueli Carneiro, uma das homenageadas da 12.ª FestiPoa Literária. O evento Percursos do Romance de Autoria Negra Feminina vinha sendo gestado desde o final de 2019, mas esbarrou na emergência sanitária causada pela pandemia de covid-19.

O desafio de organizar um evento literário durante o isolamento social exigiu capacidade de adaptação dos envolvidos. Patrícia Xavier, servidora do DEDS e integrante do Coletivo Atinuké, conta que esse período tem seus prós e contras, com dificuldades e também oportunidades.

“A dificuldade para mim que trabalho com extensão universitária é que a gente tá acostumado com aquela coisa do contato, da aglomeração. Por outro lado, foi uma oportunidade de fazer eventos, de estar junto, ainda que com uma tela no meio, de fazer contato com pessoas que estão em outros estados e até mesmo fora do país”

Patrícia Xavier

O próximo encontro do ciclo acontece no dia 3 de maio às 19h, quando Ana dos Santos e Suelen Aires Gonçalves discutem a obra Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. Na sequência, no dia 10 de maio às 19h, Lara Cornélio conversa com Dalva Maria Soares sobre Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. No encerramento, em 24 de maio, no mesmo horário, o romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é o tema de debate entre Lara e Roberta Pedroso. Com realização completamente virtual, os eventos têm transmissão pelo canal YouTube da FestiPoa Literária.

Foto: Everton Cardoso