Rossana Soletti: a paisagem litorânea

Câmpus Litoral Norte | Pesquisadora e docente traz a maternidade para debate no campo das ciências

*Foto de capa: Rossana Soletti, sugerida por Flávio Dutra

“Elas estão dormindo agora, daí qualquer coisa eu tenho que fazer uma pausa”, diz a cientista, pesquisadora, professora, doutora em Ciências Morfológicas e mãe Rossana Colla Soletti antes de a entrevista iniciar. Docente de Embriologia no Câmpus Litoral Norte, Rossana é uma mulher de seu tempo, ou seja, não se reduz nem se deixa definir por apenas um aspecto de sua vida. Em mais de duas décadas de carreira acadêmica, os títulos – mestre, doutora, mãe – costumam se justapor, formando um mosaico de atuações e manifestações que compreendem uma pessoa só. 

O interesse pelo mundo das ciências começou cedo: ainda criança, Rossana já sabia que sua vocação estava orientada ao aprendizado científico, às sutilezas do corpo humano e às possibilidades laboratoriais. Essa predileção pela aplicação medicinal da ciência foi o que a levou a cruzar a divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina para cursar Farmácia e Bioquímica na UFSC, universidade que também a formou mestra em Neurociências. Depois de traçar seu caminho em terras catarinenses, Rossana decidiu estender a linha até as praias circundadas pela Baía de Guanabara: no Rio de Janeiro, concluiu o doutorado e fez estágio pós-doutoral na UFRJ, assim como iniciou sua experiência na docência na Fundação Centro Universitário da Zona Oeste do Rio de Janeiro (UEZO).

Nos idos de 2014, quis a natureza humana que Rossana viesse a experienciar aqueles mesmos processos fisiológicos que era habituada a destrinchar nas aulas de Embriologia. A cientista agora preenchia seu vasto currículo com o título mais inestimável: mãe. A maternidade mudou a percepção da pesquisadora sobre o meio acadêmico e as próprias noções de produtividade: “A maternidade foi uma mudança de carreira a partir do momento em que eu passei a entender um pouco mais quais são as necessidades das mulheres que são mães, tanto na academia quanto fora dela”. Movida por um insight maternal, Rossana passou a compartilhar conhecimentos sobre o desenvolvimento gestacional nas redes sociais que auxiliavam mães a sanarem dúvidas sobre a gravidez. O pequeno projeto, batizado de Maternidade com Ciência, ascendeu meteoricamente em engajamento e, pouco tempo depois, tornou-se um dos braços dos esforços de Rossana na divulgação científica. 

Mamãe, coragem

Ser mãe é muito mais do que carregar no ventre uma vida humana. É, antes de tudo, uma posição social, uma condição que altera, em doses drásticas, a existência de uma mulher na sociedade. A carreira talvez seja um dos pontos mais impactados pela maternidade, mas Rossana resolveu traduzir esse impacto em aceitação, progresso e ativismo. “Como mãe de primeira viagem, eu queria entender tudo. A gente ouve um milhão de dicas, conselhos, mas algumas coisas a gente pensa “será que é isso mesmo?”, conta, referindo-se aos primeiros questionamentos que a levaram a conceber o Maternidade com Ciência. Rossana valeu-se do respaldo de sua voz científica, especialmente seus conhecimentos em embriologia, para atuar como divulgadora científica e sanar dúvidas de gestantes. O que começou como um perfil informal nas redes sociais, hoje é um canal de comunicação no Instagram com mais de 91 mil seguidores. Ademais, o Maternidade com Ciência age em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social de Tramandaí, promovendo orientações de saúde a mulheres grávidas do município.

Quando ainda estava no Rio de Janeiro, Rossana entrou em contato com o movimento Parent in Science, grupo formado por cientistas pais e mães que busca levantar a discussão sobre parentalidade no meio científico brasileiro. Coordenado pela bióloga Fernanda Staniscuaski, o coletivo foi responsável, por exemplo, pela campanha #MaternidadeNoLattes, que lutava para que a licença-maternidade fosse destacada no currículo acadêmico.

“Era um desejo de muitas mulheres poder colocar nos seus currículos que tiveram licença maternidade, que tiveram filho em determinado ano, porque nós vimos que o nascimento dos filhos em geral impacta na produtividade das cientistas, e é preciso a gente mostrar que isso aconteceu, mostrar que as mulheres cientistas precisam ser avaliadas de uma forma coerente”

Rossana Soletti

A pesquisadora fez parte do movimento que estampou Marina e Lara, suas duas filhas, em uma camiseta de reivindicação. No início deste ano, a CNPq atendeu à demanda das mulheres cientistas e passou a aceitar a licença-maternidade no currículo Lattes.

O ativismo de Rossana não está somente nas grandes causas, aliás, boa parte está nas pequenas convenções do cotidiano: desdobrar-se entre os afazeres da docência e as responsabilidades maternas pode ser considerado um ato de fibra, a coragem de alguém que transita com naturalidade entre dois universos que, por suposto, não deveriam coexistir. Inclusive é perfeitamente normal para Rossana, no período de pandemia, que esses dois mundos acabem interagindo: “Volta e meia acontece de eu estar aqui em uma reunião e de repente aparece uma criança e dá um tchauzinho ou fala ‘quem que é, é reunião, posso falar?’. A gente tem esses imprevistos. […] Eu acho que a gente tem que naturalizar isso. A gente sempre fala que não são as crianças que estão invadindo as aulas e as reuniões, são as nossas reuniões que estão invadindo o espaço da casa das crianças”, conta. 

De volta ao sul

Depois de anos no Rio de Janeiro, a pesquisadora realizou o desejo de voltar ao sul do país, trocando a brisa carioca pela aragem do litoral gaúcho. Rossana foi empossada como professora em 2018 na Universidade que sempre lhe foi referência: “A primeira coisa que eu fiz, depois da minha posse, foi ir até o Ponto UFRGS com a minha madrinha e comprar um caderno. Senti que naquele momento eu era da UFRGS”, relembra. O pouco tempo na sonhada nova casa foi atravessado pela pandemia de covid-19, que obrigou a ressignificação generalizada dos paradigmas da educação: “No próximo mês eu completo três anos de UFRGS, e o interessante é que metade desse tempo, apesar de eu estar na UFRGS, eu na verdade estou em casa”.

Contemplar as belezas do Câmpus Litoral Norte e do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar) é uma das maiores saudades de Rossana.

“A gente tá ali de frente pra uma lagoa, quando a gente tá trabalhando dá uma vontade de fazer um intervalinho. A gente vai pro café, em cinco minutinhos toma um café na frente da lagoa, aquela paz incrível, chega um colega e a gente conversa…”

Rossana Soletti

O período pandêmico não só furtou momentos de calor humano da rotina da docente como também paralisou incrementos à infraestrutura do jovem câmpus litorâneo: “Muitos docentes novos estavam tentando trazer as suas linhas de pesquisa, eu também estava tentando trazer uma das minhas linhas de pesquisa em câncer, e aí com a pandemia isso tudo ficou mais difícil. O estabelecimento de novas linhas, a criação de toda a infraestrutura, montar laboratório, coisas que a gente tava começando a fazer, isso tudo a pandemia atrapalhou muito porque de forma remota a gente não tem como colocar isso em prática”. Ainda otimista, Rossana, que aguardou bastante tempo até fazer parte da Universidade, continua à espera de que tempos melhores para a ciência brasileira possam se avizinhar, como uma mãe que espera boa fortuna para seus filhos.


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: