Sanitarista egressa da UFRGS coordena ação que beneficia comunidades no combate à fome

Solidariedade | Daiana Santos e mais quatro moradoras de periferia já distribuíram cestas básicas para mais de mil mulheres economicamente afetadas pelo isolamento social

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

“A pandemia trouxe à tona de uma forma mais objetiva o que já tá aí desde sempre.” O comentário da sanitarista egressa da UFRGS Daiana Santos é fruto de sua experiência em ações sociais realizadas em comunidades de periferia de Porto Alegre. Há cerca de dois meses, ela e mais quatro mulheres de um dos coletivos que integra criaram o Fundo de Amparo ao Combate à Fome para Mulheres, que já beneficiou mais de mil mulheres: “São catadoras, diaristas, empregadas domésticas, trabalhadoras informais”. É a partir do relato de Daiana que o JU dá início às Histórias de Solidariedade, série de reportagens-perfis, contando sobre pessoas e suas ações sociais nestes tempos de isolamento. 

“Eu falo sempre de mulheres, mulheres, mulheres, mas é porque vim de uma família só de mulheres.” Segundo Daiana, sua vida retrata um perfil muito comum em comunidades como a que ela vive, no Morro Santana, na Vila das Laranjeiras. Sua mãe, Odete, ficou grávida na adolescência e sempre trabalhou como babá e empregada doméstica. Isso fez com que a presença da avó materna, Maria Helena, fosse muito forte em toda a sua criação. 

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“Sempre minhas referências foram mulheres. Figuras muito fortes nessa construção, nesse cuidado na infância e na adolescência.” 

Daiana Santos

Solteira e sem filhos, Daiana tem uma companheira, mas não moram juntas. Nos últimos dias, depois que começou a pandemia, ela tem chegado em casa tarde. Pra descansar, não costuma ligar a televisão, prefere mexer em suas inumeráveis plantas no pátio de sua casa ou ler alguma coisa. Atualmente tem lido Paulo Freire, “Educação e Mudança”. 

Integrantes do coletivo, depois da distribuição dos botijões da parceria com a Supergasbrás, na Vila Laranjeiras. Da esquerda para a direita, Cristiane Leite, Daiana Santos, Danieli Marques e Márcia Amâncio. Só faltou a Vera Costa. (Foto: Flávio Dutra/Ju)

O envolvimento com atividades sociais surge na vida de Daiana muito antes da covid-19. Faz tempo, ela atua no movimento negro, na luta pelas mulheres e nas bandeiras LGBT. Ela conta, entretanto, que esse despertar para questões sociais custou um pouco a acontecer. A necessidade de começar a trabalhar mais cedo acabou adiando a continuidade dos estudos. “Esse movimento de ir pra universidade pra mim sempre foi um pouco mais demorado pela necessidade de ter que trabalhar por muito tempo, guardar uma grana, pra depois dizer: agora eu consigo me arriscar a fazer vestibular”, conta. 

Divisor de águas

Formada em Análise de Políticas e Sistemas de Saúde pela UFRGS em 2018, Daiana diz que ingressar na universidade foi um marco em sua vida. “Ter acesso a essa informação gerou em mim o benefício da crítica, e essa crítica fez com que hoje, inclusive, eu possa estar tocando esse projeto.” A escolha do curso tem a ver também com uma preocupação antiga com questões de saúde no campo da Psicologia, curso em que ingressou, mas não conseguiu dar prosseguimento por questões financeiras, pois foi obrigada a parar os estudos e trabalhar. 

“Paro, repenso toda a vida e vamos de novo”, foi sua reação após ter que abandonar a faculdade. Nesse período, ela começou a ler outras coisas, passou a interagir com coletivos de mulheres e o movimento negro e começou a perceber a falta de políticas públicas não só pela exigência, mas pela necessidade. Ela explica: “Às vezes parece oportunista estar solicitando algumas coisas, mas não é uma relação de oportunismo, é a necessidade dos lugares”. 

Para ilustrar, refere-se à situação atual da pandemia: 

“Tem muita gente que tá distribuindo alimentos de uma forma aleatória. Isso nada mais é do que se beneficiar de um momento crítico e se promover em cima da miséria, da pobreza, da situação que já está aí desde sempre.”  

Daiana Santos

Para a sanitarista, é preciso ter um cuidado especial, cautela para chegar aos lugares, sendo necessário articular anteriormente com as lideranças comunitárias, pensar em como estruturar uma ação que não seja momentânea, mas que dê certeza às pessoas de que serão assistidas.  “Pra mim, é fundamental isto: olhar para essa questão de uma forma mais ampla.” 

Foi depois desse momento em que ela passou a aprofundar seu olhar para questões mais fundantes das temáticas sociais que Daiana voltou a pesquisar opções de curso superior. Isso coincide com o fato de já ter dinheiro suficiente para pensar novamente em ingressar na universidade. Descobriu, então, a Análise de Políticas e Sistemas de Saúde e se encantou com o currículo. Isso era 2012 e no ano seguinte passou no vestibular da UFRGS. Torna-se a primeira integrante de sua família a fazer um curso superior. 

Ao refletir sobre as disciplinas do curso que contribuíram de forma especial para a sua formação, ela destaca aquelas que tinham uma abordagem política, pensada a partir do lugar do sujeito, e não de uma macrovisão. “Isso foi fundamental porque fortaleceu em mim e fez com que eu reconhecesse algo que já existia em mim, na comunidade onde moro e naquelas onde trabalhava. Fortaleceu o que a gente não compreendia. Uma coisa é tu teres a experiência, outra é teres o conhecimento lógico e técnico, inclusive para buscar mais referências para conseguir trabalhar. Foi um divisor de águas.”

Contra a fome

Há dois meses, assim que teve início o isolamento social em decorrência do coronavírus, Daiana e suas colegas do coletivo pensaram em usar os mesmos pontos de arrecadação de donativos que já mantinham para coletar doações também para distribuir entre as famílias economicamente afetadas em decorrência das restrições impostas pela quarentena. Inicialmente, eram dois pontos de coleta, um no Morro Santana, nas Laranjeiras, e o outro na Chácara dos Bombeiros, no Partenon, quase Agronomia. 

Desde o início, o foco principal eram as mulheres, porque seriam elas que rapidamente seriam afetadas pelo fechamento de serviços como creches e escolas. “Vai sobrecarregar. São mulheres que não têm reserva de dinheiro, que trabalham para colocar comida na mesa e, se falta esse trabalho, não têm o que comer em casa”, argumenta. 

Como a notícia se espalhou rapidamente, localidades começaram a pedir ajuda. Com o aumento das solicitações, decidiram fazer uma vaquinha virtual para organizar melhor o processo. Foi então que criaram o Fundo de Amparo ao Combate à Fome para Mulheres, destinado àquelas em vulnerabilidade que são afetadas pela situação atual. Pela experiência de ações anteriores, o coletivo já conhecia o perfil dessas mulheres: trabalhadoras informais (vendedoras ambulante de alimentos, catadoras, etc.), diaristas e empregadas domésticas. A ideia inicial do Fundo era arrecadar o suficiente para distribuir 100 cestas básicas por mês. “Não se passaram quinze dias e a gente já tinha batido a meta”, comemora Daiana.   

Resultado: na primeira etapa, foram mais de 400 mulheres atendidas não só com alimentos, mas também com roupas, máscaras e material de higiene, além de informação sobre como enfrentar os perigos do momento. “Não é só alimentação, há a necessidade também de orientação”, comenta. Houve muitos casos, inclusive, em que ajudaram mulheres a se cadastrar para receber o auxílio de 600 reais concedido pelo governo federal. À medida que algumas iam aprendendo a fazer o cadastramento, começaram a ajudar outras a fazerem os seus. 

Na Vila Laranjeiras, no Morro Santana, 141 botijões de gás foram distribuídos para mulheres da comunidade. Uma ação organizada, que começou na noite de segunda-feira com o cadastro e reserva dos botijões e terminou no dia seguinte, sob chuva, com a chegada do caminhão e a entrega às inscritas (Fotos: Flávio Dutra/JU)

“Isso é muito bacana porque essas ações vão se replicando de uma forma tão linda. Eu fico tão orgulhosa de dizer isso, porque a nossa ideia não é centralizar nada, tem que ampliar. As pessoas têm que saber que podem fazer. Não tem como combater a desigualdade centralizando.”  

Daiana Santos

Daiana conta que durante o contato com a população de periferia é comum dizerem que não há nenhuma liderança naquela comunidade. Mas basta algum tempo de conversa com eles para que fique evidente que entre aquelas pessoas, mesmo com as que estão falando, há lideranças. “As pessoas fazem muitas coisas, mas elas não se reconhecem como. E isso pra mim é um processo tão importante, porque no momento em que não sabem quem tu é, tu faz parte desse processo de anulação que vai te invisibilizando”, analisa. 

Para além das doações, Daiana diz que o coletivo tem se preocupado em conversar com as mulheres nas comunidades, mostrando-se próximas a elas, buscando saber as suas necessidades. “Ser uma ferramenta pra essa transformação, nesse lugar, nesse momento, pra além do cuidado com o coronavírus. Tem sido fundamental e tem feito com que a gente tenha outra perspectiva, inclusive sobre nossas ações, reavaliando pra cada vez fazer mais e melhor”, diz. 

É trabalho voluntário ou passa a ter outro nome? “É ativismo voluntário”, responde Daiana. E indaga-se: “Por que isso? Como eu te falei anteriormente, eu sou tão grata ao fato de ter concluído o ensino superior que pra mim é moralmente necessário retribuir para a sociedade com o meu trabalho. Eu não paguei pela graduação; eu consegui entrar numa universidade pública”, pontua. “É uma necessidade minha fazer esse trabalho. E eu tenho a sorte de muitas parceiras se unirem a essa mesma intenção e construírem comigo esse caminho.” 

Na última terça-feira, dia 12, Daiana chegou em casa perto das 21h. Estava distribuindo botijões de gás para 19 mulheres, moradoras do bairro Santa Tereza. Como estavam trabalhando, não puderam comparecer mais cedo à ação que o coletivo organizou para a doação de 141 botijões de gás, resultado de uma parceria que envolveu a Central Única das Favelas (Cufa) e uma doação da Supergasbras. No dia anterior, foram recolhidos os cascos e entregues senhas para a retirada do botijão cheio. “Foi uma ação em conjunto”, reforça.