Sarau discute obras de Marcelo Rubens Paiva e Lygia Fagundes Telles

Literatura | Evento promovido pelo Jornal da Universidade reuniu pesquisadores em literatura e teatro
Sarau apresentou livros Feliz Ano Velho e As Meninas (Foto: Fernanda da Costa/JU)

“Você já imaginou uma mãe de cinco crianças ter a sua casa invadida por soldados armados com metralhadoras, levarem seu marido sem nenhuma explicação e desaparecerem com ele? Já imaginou essa mãe também ser presa no dia seguinte, com sua filha de quinze anos, sem nenhuma explicação? Já imaginou essa mãe, depois, pedir explicações aos militares e eles afirmarem que ela nunca fora presa e que seu marido não estava preso? Procurar por dois anos, sem saber se ele estava vivo ou morto”, leu com voz firme a estudante de Teatro da UFRGS Nathália Guzenski Haucke. Com esse trecho da obra Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, ela abriu o sarau “Memórias de juventude e autoritarismo”, promovido na segunda-feira (4) pelo Jornal da Universidade durante a 65ª Feira do Livro de Porto Alegre, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.

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Para o encontro, foram escolhidas duas obras que têm como contexto a Ditadura Militar, ambas leituras obrigatórias para o vestibular da Universidade, que que ocorrerá nos finais de semana dos dias 23 e 24 de novembro e 30 de novembro e 1º de dezembro. Além da obra de Marcelo, foi debatido o livro As Meninas, de Lygia Fagundes Telles.

O primeiro, autobiográfico, conta a história da prisão política e do desaparecimento do pai do escritor, o ex-deputado federal Rubens Paiva. Eleito em 1962 pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o político teve o mandato cassado após convocar estudantes e sindicalistas a resistirem ao golpe militar. Preso em 1971, como o filho relata no livro, nunca mais voltou para casa. Segundo depoimento do coronel reformado Paulo Malhães à Comissão Nacional da Verdade, em 2014, Rubens Paiva foi torturado até a morte e teve o corpo jogado em um rio. À época, a versão contada pelos militares à família e à imprensa foi de que o ex-deputado teria fugido, outro fato narrado em Feliz Ano Velho:

“No dia 20 de fevereiro, o ministro da Justiça Alfredo Buzaid disse para minha mãe que meu pai tinha sofrido ‘alguns arranhões’, mas que voltaria em breve para casa. As reuniões do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana passaram a ser secretas depois do caso. Mesmo sob censura, a imprensa pegava no pé. Finalmente, no dia 24 de fevereiro, sai no Diário Oficial da União o que até hoje é a versão do Exército: ‘Segundo informações de que dispõe este comando, o citado paciente, quando era conduzido para ser inquirido sobre fatos que denunciam atividade subversiva, teve seu veículo interceptado por elementos desconhecidos, possivelmente terroristas, empreendendo fuga para local ignorado…’”, leu Nathália no sarau.

Leituras do sarau foram baseadas em pesquisa de Inês Marocco (Foto: Fernanda da Costa/JU)

A aluna teve orientação da professora de Teatro da UFRGS Inês Marocco. Segundo a docente, o trabalho feito para o sarau tem como base a pesquisa “As técnicas corporais do gaúcho e a sua relação com a perfomance do ator/ dançarino”, coordenada por ela e integrada por bolsistas.

Além dos relatos históricos sobre o regime militar, a obra também conta os dramas da juventude do escritor, como o acidente que o deixou tetraplégico. Aos vinte anos, Marcelo perdeu os movimentos ao bater em uma pedra quando pulou em um lago. Presente no sarau, a professora do Instituto de Letras da UFRGS Márcia Ivana de Lima e Silva chamou a atenção para a ironia e para o humor que o autor consegue retirar até das situações mais trágicas.

“Talvez esse seja um dos dados mais interessantes para se pensar, nessa perspectiva dele se reinventar”

Márcia Ivana de Lima e Silva

Outro participante do sarau, o escritor Caio Riter comentou o romance As Meninas. O livro conta a história das jovens Lia, Lorena e Ana Clara, que vivem em um pensionato católico. Amigas, elas têm perfis muito distintos. Enquanto Lia milita contra o regime militar, Lorena, que é de família rica, apenas ajuda os amigos financeiramente, sem muito comprometimento político. “Não tem horas vagas, Lorena, entende. Distribuo panfletos, oriento um grupo de estudos e traduzo livros. Isso quando não aparece uma missão mais importante”, diz Lia à amiga, em trecho lido por Nathália no sarau.

Ana Clara, apelidada de Ana Turva, é a mais alheia ao contexto político. Não conheceu o pai e foi abusada sexualmente por vários companheiros da mãe, que cometeu suicídio. Noiva de um homem rico, é viciada em drogas e envolve-se com um traficante.

“A Ana Turva me parece que é aquela criatura que está totalmente alienada do todo, muito perdida”

Caio Riter

Fernanda da Costa

Repórter