Shakespeare

Arte: Ana Paula Pollock
Vestibular | Os sentimentos universais em Shakespeare

“Hamlet: A Dinamarca é uma prisão!
Rosencrantz: Então o mundo também.
Hamlet: Uma enorme prisão, cheia de células, solitárias e masmorras –
a Dinamarca é das piores.
Rosencrantz: Não pensamos assim, meu senhor.
Hamlet: Então pra vocês não é. Não existe nada que seja bom ou ruim:
o que faz as coisas parecerem assim é o pensamento. Pra mim é uma prisão.”

Trecho da obra Hamlet

Ser ou não ser, eis a questão.” A famosa expressão, que até hoje, trezentos anos depois, recebe diversas interpretações – tendo sido parodiada, inclusive, pelo manifesto antropófago dos artistas modernistas brasileiros:
“Tupy or not Tupy, that is the question” –, está em uma das obras mais celebradas do dramaturgo e ator inglês William Shakespeare: Hamlet. As peças do “velho bardo”, nascido em 1564, ainda são um campo de pesquisa na literatura, na psicologia e nas artes cênicas pelos temas universais e atemporais. Na próxima edição do vestibular da UFRGS, Hamlet será o único texto selecionado que não pertence à literatura de língua portuguesa. Isso porque, agora, a Universidade passa a denominar a prova Literatura em Língua Portuguesa, o que possibilita a utilização de traduções de obras relevantes.

A trama se passa na Dinamarca do século IX e é construída em cinco atos. Depois de voltar da Inglaterra, o jovem príncipe Hamlet fica sabendo que o fantasma de seu pai tem rondado o reino para falar com ele. Quando o antigo rei conta que Cláudio, seu irmão, agora casado com a mãe do príncipe, o assassinou para roubar o trono, Hamlet começa a fingir-se de louco para arquitetar sua vingança, que culmina na morte de quase todas as personagens principais. Segundo a professora de língua inglesa do Instituto de Letras da UFRGS Sandra Maggio, as temáticas abordadas nas obras de Shakespeare geram identificação com os leitores e espectadores, mesmo depois de tantos anos. “Ele é um grande criador de tipos: imediatamente ligamos suas personagens a emoções básicas que qualquer ser humano conhece.” Assim como a vingança é associada a Hamlet, a ambição está em Macbeth, e o amor, em Romeu e Julieta.

Voz alta

“Shakespeare não é apenas para ler, é para assistir também.” É assim que o professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e tradutor de Hamlet para o português Lawrence Flores Pereira define a experiência de tomar contato com o texto do dramaturgo. Por ser uma peça de teatro, não há a presença do narrador que conduz a história: a cada cena, o leitor precisa visualizar as personagens atuando no imaginário. Por isso, Lawrence recomenda que a obra seja lida em voz alta. “Você refaz o teor emotivo das falas e refaz a ironia, o sarcasmo, a tristeza”, detalha. Segundo o tradutor, as peças de Shakespeare apresentam criações complexas, como Hamlet que, ao longo da peça, encena outras personalidades, o chamado “teatro do engano”. “O príncipe reflete a complexidade moderna, trazendo alguns elementos psicológicos. A determinação de se vingar, por exemplo, esbarra na necessidade que ele tem de convencer a mãe de que sua vingança é justa. Ele consegue atuar na frente de Polônio [conselheiro do tio e pai da amada Ofélia], mas nunca para a mãe”, explica.

Além da capacidade de representar os sentimentos humanos, o dramaturgo contribuiu para a língua inglesa. De acordo com Sandra, depois de Shakespeare, sua estrutura, seu formato e sua morfologia se modificaram. “Como estratégia de sonoridade, por exemplo, se a frase estava muito comprida, ele engolia uma sílaba e trocava por apóstrofe. Se ficava muito curta, ele acrescentava uma sílaba (ed, eth)”, explica.

Modos de falar

Por meio da linguagem, Shakespeare também dá o tom de suas personagens. Em Hamlet, um diálogo entre Ofélia e seu pai, Polônio, deixa claro como o jeito de falar foi pensado para que o público logo entendesse quem eles eram. “Polônio fala a linguagem do sabichão, do homem que conhece a vida. Já Ofélia, que é jovem, fala muito menos e de um jeito cadenciado, nos moldes da poesia lírica da época, o que demonstra que ela tem a idealidade do amor”, esclarece Lawrence. Apaixonada pelo príncipe, Ofélia enlouquece após a morte do pai e comete suicídio.

Ao longo dos anos, as obras de Shakespeare foram adaptadas de acordo com o contexto da época. Atualmente, a influência de Hamlet é facilmente percebida em produções como o desenho O Rei Leão, dos estúdios Disney, e o livro Enclausurado, de Ian McEwan, em que o narrador-feto escuta do útero os planos da mãe e do tio para matar o pai.

Para Sandra, a leitura de Hamlet proporciona, além do conhecimento histórico, a renovação e a permanência do clássico. “Revisitar essa obra que foi criada há 419 anos, a partir da nossa compreensão de hoje, possibilita novos horizontes de interpretação. Isso nos ajuda a reavaliar verdades e valores”, conclui.


*Texto originalmente publicado na Edição 215 (Agosto 2018) e na Edição Especial de Leituras Obrigatórias de 2018 (Novembro).

Bárbara Lima

Estudante de Jornalismo da UFRGS