Site Carne Digital eterniza a trajetória vanguardista de Eva Schul

Cultura | Acervo virtual contém textos, fotografias e vídeos sobre a vida e a obra da icônica coreógrafa, além de biblioteca digital de movimentos que documenta a sua técnica

Foto: Eva Schul ministra aula de dança na Academia Mudança, em Porto Alegre, ao final da década de 70 (Foto: Autoria Desconhecida/Arquivo Projeto Carne Digital) 

Segurar um instante. Documentar e difundir a trajetória de alguém que, entre as quinas do tempo, provoca metamorfoses por onde passa. Tornar digital um berro italiano, e também brasileiro, que faz da dança o seu instrumento de transformação do mundo. É o que pretende o projeto de extensão Carne Digital: Arquivo Eva Schul, o qual reúne, sob a forma de website de livre acesso, textos, imagens e clipes sobre a vida e a carreira da bailarina, professora e coreógrafa Eva Schul. O evento de lançamento do site ocorre no dia 30 de agosto, às 20h, no canal da ação no Youtube, com a participação especial de Eva.

O arquivo digital está organizado em eixos cujos títulos fazem referência a coreografias de Eva. A biografia da coreógrafa está presente na seção Na quina do tempo, composta de textos sobre a vida da artista. Em Como segurar um instante, o site apresenta obras coreográficas de Eva, contendo sinopse, ficha técnica e vídeos. Já o eixo Metamorfoses trata sobre processos de ensino e criação, abordando a pedagogia e a técnica empreendidas pela professora. Conforme Mônica Dantas, coordenadora geral do projeto e docente no Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS e no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas (PPGAC/UFRGS), o arquivo é um desdobramento do Projeto Dar Carne à Memória, realizado em 2010.

O objetivo da ação à época era celebrar parte do patrimônio coreográfico em dança moderna e contemporânea em Porto Alegre, a partir da remontagem de obras desenvolvidas por Eva, como Um Berro Gaúcho (1977) e Hall of Mirrors (1986). Segundo Mônica, a recente ampliação das possibilidades de preservação cultural disponíveis no meio virtual impulsionou a criação do acervo. “Nos últimos tempos, a popularização do vídeo foi algo que acelerou muito a construção da memória sobre dança. O mundo online está permitindo outras formas de armazenamento. Foi a partir disso que pensamos esse arquivo digital.”

“A melhor maneira de celebrar a memória da dança é dançando. Não abrimos mão da prática. Por outro lado, a dança, entre todas as artes, talvez seja a mais difícil de arquivar, de preservar. Porque a dança precisa ser dançada”

Mônica Dantas
Inês Bogea e Eva Schul nos bastidores da gravação do documentário Figuras da Dança, realizado pela São Paulo Companhia de Dança (SPCD) em 2013 (Foto: Arquivo SPCD)

A concretização do arquivo digital foi possível devido ao trabalho de uma legião de pessoas. Carne Digital tem o apoio do Centro de Memória do Esporte (Ceme/UFRGS), do PPGAC/UFRGS, do Programa de Pós-graduação em Ciências do Movimento Humano (PPGCMH/UFRGS) e do Curso de Dança da Universidade, além da parceria com o Centre for Dance Research, da Coventry University, no Reino Unido, cujas pesquisas em dança inspiraram a construção do acervo. “O domínio do site é da UFRGS. Toda a documentação que está no site está vinculada ao Lume. A digitalização do material é feita por dois bolsistas de iniciação científica. A gente fez questão de ter essa vinculação”, diz Mônica.

Um dos principais parceiros da ação é o Laboratório de Pesquisa do Exercício (Lapex/UFRGS), cuja cooperação resultou na criação da Biblioteca Digital de Movimentos, a qual documenta a técnica de dança desenvolvida por Eva. Para Aline Haas, coordenadora adjunta da Biblioteca e professora no Curso de Dança da UFRGS e no PPGCMH/UFRGS, o repositório tem o intuito de preservar o trabalho singular da coreógrafa. “A Eva tem um trabalho com movimentos que são assinaturas dela. Então levamos esses movimentos para o Lapex/UFRGS, em que há sistemas de captura de movimento em 3D, e os transformamos em avatares dançantes”, explica Aline.

Desenvolvimento de sistema digital de captura de movimento para documentar a técnica desenvolvida pela coreógrafa Eva Schul (Foto: Autoria Desconhecida/Arquivo Projeto Carne Digital)

Além do envolvimento da academia, o site também conta com as contribuições de artistas que tiveram as suas vidas entrelaçadas com a de Eva. Suzane Weber, coordenadora adjunta de Carne Digital e docente no Departamento de Arte Dramática (DAD/UFRGS) e no PPGAC/UFRGS, revela que a comunidade artística auxiliou na construção do acervo. “Volta e meia alguém manda alguma fotografia para o projeto. É uma ação que envolve bastante a comunidade acadêmica e também a artística. Pela Eva, por nós e também pelos colegas que já dançaram e que estão dançando e pela jovem geração que está entrando.”

“Eu conheci a Eva primeiramente como espectadora e depois como aluna. Hoje em dia, o que me impressiona na Eva é a sua longevidade artística e a sua generosidade como mulher. É uma artista que agrega outras mulheres. É uma pessoa muito humana, muito especial”

Suzane Weber

Contribuições sobre alguém que tem a sua trajetória fundida à história da dança moderna e contemporânea no Brasil e cujos ensinamentos continuam a ser transmitidos a corações que desejam bailar. Nascida em Cremona, na Itália, em 1948, Eva Schul completou 73 anos de vida e 58 anos de trabalho em 2021. Das quase seis décadas de carreira, destacam-se o pioneirismo no ensino de dança contemporânea, a criação de mais de 100 coreografias, a difusão de procedimentos de criação com base em improvisação e ações coletivas, a formação de artistas de projeção nacional e internacional e a gestão de ambientes de prática de dança, como a Ânima Companhia de Dança, fundada em Porto Alegre em 1991.

Mais informações sobre o projeto e o evento de lançamento do site estão disponíveis nos perfis do acervo no Facebook e no Instagram.