Sociedade em envelhecimento

Foto: Gustavo Diehl/ Secom

Viver mais tempo é um velho sonho da humanidade, como comprovam muitos mitos e lendas que buscam a longevidade ou até a imortalidade. O sonho de chegar a uma idade avançada está agora se tornando realidade para cada vez mais pessoas, e isso está transformando as sociedades contemporâneas. Mas quais são as razões para esse envelhecimento populacional? Quais são as consequências? Trata-se somente de um problema para o sistema previdenciário ou os efeitos vão mais adiante? Na verdade, o envelhecimento significa uma reestruturação da pirâmide populacional que possui fortes impactos para a sociedade em praticamente todas as esferas.

O envelhecimento populacional iniciou no Brasil na metade do século XX. Foram duas mudanças fundamentais que levaram a esse processo: a redução da mortalidade e a diminuição da fertilidade. A elevação da expectativa de vida, que nada mais é do que a média das idades em que as pessoas morrem, foi impulsionada principalmente pela diminuição da mortalidade infantil. No Brasil, ela caiu de 121 mortos para cada mil nascidos vivos em 1960 para 12,8 por mil em 2017, elevando a expectativa de vida de 48 anos em 1960 para 76 anos em 2017. Além da diminuição da mortalidade infantil, houve avanço na medicina de forma geral, diminuindo a mortalidade também durante a vida adulta e mantendo as pessoas vivas por mais tempo.

A diminuição da fertilidade também teve forte queda no Brasil a partir da metade do século XX, caindo de 6,2 filhos por mulher em 1960 para 1,77 em 2018. As causas dessa queda rápida são várias, com destaque para as melhores formas anticoncepcionais, bem como uma forte urbanização no período. Enquanto no meio rural filhos representavam mão de obra a mais, as crianças se tornaram na cidade um fator de custos.

O resultado dessas mudanças é uma nova divisão das estruturas etárias na sociedade brasileira. Enquanto antigamente havia muitas crianças e poucos idosos, o número de crianças diminuiu bastante em função da baixa da fertilidade e o número de idosos aumentou em função da diminuição da mortalidade durante a vida adulta. A partir de 2030, o grupo dos idosos será maior que o grupo de crianças com até 14 anos e, em 2055, haverá mais idosos do que crianças e jovens com até 29 anos de idade. Em 2060, mais de um terço da população brasileira será constituído de pessoas com 60 anos ou mais (33,7%). Isso afeta também as estruturas familiares, com uma horizontalização da família – muitos membros na mesma geração, como irmãos e primos, mas a convivência somente de no máximo três gerações – para a verticalização da família – poucos membros da mesma geração, mas muitos membros em outras gerações, como avós, bisavós ou até tataravós.

Nesse contexto de mudanças, a população idosa também se diversifica, alterando a composição etária do próprio grupo: hoje é cada vez maior o número de pessoas que alcança uma idade avançada e muito avançada, inclusive passando dos 100 anos. Uma forma de diferenciar os idosos é a divisão em Terceira e Quarta Idades. Enquanto a Terceira Idade se refere às pessoas idosas que estão em boas condições físicas e cognitivas, muitas vezes ainda trabalhando ou aproveitando da vida, o termo Quarta Idade é usado geralmente para descrever idosos com problemas físicos e cognitivos que comprometem seriamente as atividades diárias e a autonomia.

Usando estes conceitos, podemos analisar os impactos para a sociedade. O maior número de pessoas idosas e a diminuição de jovens e adultos vão trazer consequências para o mercado de trabalho. Já pode ser observado que a força de trabalho está envelhecendo, e a falta de trabalhadores jovens pode levar à necessidade de as empresas manterem os trabalhadores mais velhos, que, além de possuírem experiência, também são considerados mais confiáveis e dedicados. Por outro lado, deve-se pensar em formas de atualização para os trabalhadores mais velhos e na estruturação etária da mão de obra para aproveitar as qualidades das diferentes faixas etárias.

Outro aspecto que se refere aos idosos mais jovens é o surgimento de um novo mercado de produtos da vida cotidiana e do lazer para esse grupo populacional. O setor de turismo já oferece viagens especialmente voltadas para esse público. Apesar de as pessoas idosas no Brasil, na sua grande maioria, não disporem de tantos recursos quanto em muitos países desenvolvidos, esse grupo possui necessidades específicas que devem ser atendidas.

Olhando para a Quarta Idade, surgem outras necessidades, mais voltadas para questões do cuidado. Com o aumento da longevidade e o número maior de pessoas na faixa de 80 e 90 anos aumentam os casos de doenças crônico-degenerativas, especialmente demências. Antigamente, as poucas pessoas que chegavam a uma idade avançada eram cuidadas pela família, geralmente por mulheres. Atualmente, com a diminuição do número de crianças, a maior profissionalização das mulheres e o número alto de pessoas idosas, a família geralmente não possui estrutura para cuidar dos seus membros mais velhos.

Surge aqui a necessidade de se criarem estruturas que possam ajudar as famílias na tarefa do cuidado. Isso pode ser por Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), pode ser através de serviços que ajudam as famílias na tarefa de cuidado, pode ser em forma de centros-dia que recebem pessoas idosas durante o dia. O que será preciso é o desenvolvimento de estruturas diversificadas que possam atender às necessidades das pessoas idosas e das suas famílias nas suas diferentes situações e nos seus diferentes contextos sociais. E surge nesse contexto também a questão do financiamento do cuidado. Encontram-se, no mundo, diferentes formas disso, como um seguro obrigatório especial para financiar o cuidado, modelo que existe na Alemanha e no Japão; pode ser vinculado aos serviços de saúde existentes, que necessariamente precisam se adaptar à nova realidade do alto número de pessoas idosas em idades avançadas, ou pode ser feito por meio de serviços privados pagos, o que levanta a questão de como cuidar do grande número de pessoas idosas que não possuem condições financeiros para pagar por esses serviços.

Isso remete a uma questão importante: a distribuição dos recursos de uma sociedade para seus membros. Já houve visões apocalípticas de guerras entre jovens e idosos a respeito dos recursos da sociedade, mas, por enquanto, a solidariedade entre as gerações, o apoio mútuo, está ajudando a evitar as perspectivas catastróficas. Entretanto, o crescente individualismo e a luta por vantagens para cada grupo pode comprometer a paz social. Nesse sentido, o debate sobre a previdência é uma questão importante para mostrar se existe um consenso de solidariedade entre gerações que visa a uma sociedade para todas as idades ou se prevalece o darwinismo social que pretende eliminar grupos considerados não produtivos.

Johannes Doll

Professor da Faculdade de Educação/UFRGS